Corra Igor, Corra

"Eu quero fazer silêncio, um silêncio tão doente do vizinho reclamar!" – Chico Buarque

Vamos nos valorizar, manxs!

De uns tempos pra cá tenho escutado muito sobre relacionamentos (não) abusivos. Isso é um grande avanço. Relacionar-se é uma necessidade humana, mas relacionar-se não combina em nada, como já sabemos, com violência (seja ela qual for).

Porém às vezes a gente se esquece que relacionar-se com alguém exige uma coisinha chamada reciprocidade. Dividir um trecho da vida com alguém é como aquela performance da Marina Abramovic (ver imagem a baixo), se um soltar, se um faltar com essa reciprocidade, essa igualdade, o outro vai ser bombardeado de alguma forma.

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Rest Energy, 1980

Estar com alguém ultrapassa as palavras, ultrapassa o eu. Estar com alguém envolve respeito, envolve o ouvir, envolve o falar. São dois corpos que, juntos, se transformam e se interligam de uma maneira muito pessoal.

E o que tudo isso tem haver com o início do texto, Igor? Muitas, mas muitas vezes mesmo nos permitimos estar em relacionamentos que nos diminuem de formas subjetivas. Quantas vezes nos permitimos ir para lugares em que não nos sentimos a vontade simplesmente para agradar o parceiro? Quantas vezes pensamos duas vezes antes de usar determinada roupa por conta do nosso parceiro (e quantas vezes usamos roupas que nem gostamos só para agradar o parceiro?) Sem contar as vezes em que a pessoa diz gostar de ti, mas não tem coragem de apresentar-te pra família, pros amigos ou sair com você pra um restaurante, por exemplo. O que acontece, por vezes em nossas vidas (talvez não na sua, mas na de muita gente) é que achamos que um relacionamento de qualidade (ou não abusivo) está atrelado simplesmente à ausência de violência física, mas não é por aí.

A violência psicológica tá bem aí batendo na nossa porta toda vez em que a gente se priva ou se submete a situações só pra agradar o outro. E quando fazemos isso, simplesmente permitimos que o outro solte a flexa e nós, sozinhos, mantemos um relacionamento, sofremos caladinhos por medo do término.

(Esse texto tomou uma proporção que eu não esperava, mas vamos lá que é isso aí).

Manxs, relacionamento tem que ter uma coisa, como já disse: reciprocidade. Mas agora eu vejo que só reciprocidade não basta: é preciso que o outro tenha orgulho de quem tem do lado e ter orgulho está associado a você ter a liberdade íntegra. Usar o que quer, não ter medo de dizer não, não ter medo de trocar o mozão pelos amigos uma vez na vida. Esse orgulho ainda tem muito haver em assumir. Se eu tô com alguém é porque gosto e não vejo motivo de esconder o relacionamento. Se o esconder é uma necessidade, alguma coisa tá meio errada nesse rolê. Amor é lindo e deve ser exposto sim!

Acho que por hoje é isso. Vamos nos valorizar. Vamos nos amar e não permitir que abusos passem. Se o cara é abusivo, manda ele embora. E eu te garanto: um dia vai aparecer alguém que vai gostar de você, que vai te assumir, que vai se orgulhar em te olhar  e saber que te tem com ele(a). Vamos viver o amor sendo amor, não em relacionamento abusivo mascarado.

 

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Tua exisência importa

Em muitos momentos vão tentar te deslegitimar.

Negar tua existência, tua vivência, teu ser-estar no mundo.

E vão dizer “não é isso porque não tem isso” “não pode estar em determinado lugar porque não faz parte de determinada situação”.
E vão tentar te calar

E vão dizer não pros teus sonhos.

E vão impor impossibilidades pro teu lugar de fala, teu lugar de origem, teu desejo de participar.

Você vai querer se calar, aceitar, abaixar a cabeça.

Mas não.

Dentro desse mundo, entre o céu e a terra, entre o mar e a areia

Sua vivência importa. Existir é resistir.

Não se cale, não se curve, não se contente. Assuma o que é seu.

Você é. Você pode. Você é capaz. O seu sonho te pertence.

Você não é predeterminado. Você é livre. Você pode ser o que quer.

Tua existência é importante.

Tua vivência é importante.

Seja e exista e permaneça  e conquiste e assuma e resista e mostre que

quem estava errado na história

não era você…

Ei, respeita teu tempo!

“O negócio era ser corajosa e ousada e realizar alguma coisa – pensou consigo mesma. Não exatamente mudar o mundo, só um pouco à sua volta. Sair por aí com o diploma com honras de primeiro lugar em duas matérias, muita paixão e a nova máquina de escrever elétrica Smith Corona e trabalhar duro em… alguma coisa. Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Escrever coisas bonitas. Agradar aos amigos, continuar fiel aos próprios princípios, viver plenamente, bem e com paixão. Experimentar coisas novas. Amar e ser amada, se possível. Comer com moderação. Coisas assim.” Um dia.

Hoje, sábado, acordei, tomei meu café, arrumei o quarto (que por um milagre não estava tão desorganizado), escutei umas músicas pra animar o dia e fui, então, começar meu trabalho do dia.

Preciso planejar algumas aulas, então abri uns livros na mesa, preparei o caderno, me sentei e comecei. E aí me veio uma coisa, uma lembrança, um flash de um ano atrás.

Há um ano, como vocês estão cansados de saber, eu comecei a cursar Licenciatura em Artes Cênicas  na UnB e naquela época eu era uma coisa muito imediatista. Em dois meses de aula eu já queria ser uma Fernanda Montenegro da vida, queria ser incrível com uma carreira consolidada, uma independência formada… Coitado do inocente.

Com pouco tempo de aula eu me frustrei muito. Como disse a cima, eu queria o agora, queria na segunda (porque se eu chamo pra segunda, não vem quarta, não vem quinta. Segunda eu tô linda, na quarta eu sou cinza. RESSUSCITA). O problema é que o agora é um processo pra uma coisa que há de chegar (é o tal do vir a ser). A gente precisa usar o agora pra construir o futuro que, em algum instante, vai se tornar presente. Só que eu não entendia.

O semestre acabou, o outro começou e então cursei Interpretação teatral II, com um professor que foi peça mestra no meu entender do presente como construção (Glauber, obrigado). O seguinte aconteceu:

Começamos a estudar Stanislavski. E como desenvolver a técnica sem prestar atenção no meu tempo? Lá pelo meio do semestre eu entendi e compreendi e comecei a viver isso: o hoje. Aproveitar o que sou e o que tenho agora pra começar a construir meu amanhã. Tijolo por tijolo. Ter paciência pra vida. Oras, demorei nove meses pra nascer, deveria eu compreender que as coisas também não caem do céu.

Hoje eu estou conseguindo viver e produzir intensamente no presente. Enxergar o futuro como uma obra que vai sendo construída no agora e não que surge de repente. O negócio, acredito, é ser corajoso e ousado e realizar alguma coisa. E é exatamente isso:

Ousemos no hoje.

Vivamos o hoje.

Criemos e fortaleçamos HOJE.

O amanhã é muito improvável. Respeitemos nosso tempo do agora. Não tenhamos pressa, os caminhos mudam, as ideias mudam, coisas surgem… E não ache que é uma perda de tempo ser o que você é hoje, acredite: haverá um reflexo disso no amanhã.

Realizaremos sonhos? Serei um grande professor-ator-artista? Eu não sei. E nem quero saber agora. O que eu quero é fazer algo, mudar um pouquinho ao meu redor no hoje. Construir meu futuro(presente) tijolo por tijolo. Pensar no amanhã, mas nunca esquecer que existe um agora, um hoje e é nele que estou vivo. É nele que posso me ser na maior completude.

Acho que por hoje é isso. Entendam e respeitem seus tempos. Ele é agora, é um processo. Somos processos em andamento.

 

Então eu vi 01: Bem vindo à casa de Bonecas (1995)

Dawn Weiner (Heather Matarazzo) não tem motivos para gostar da escola, na qual estuda na sétima série. Ela é uma adolescente complexada e há motivos para isto. No seu colégio é ridicularizada pelos colegas, que a chamam de “Salsicha”, e seu relacionamento com sua família não é dos melhores. Ela deseja ser aceita de qualquer jeito e para isto planeja namorar um rapaz mais velho, que é muito popular, apesar disto ser totalmente improvável. (Fonte: Filmow)

Fazia muito tempo que um filme, ao seu término, não me deixava dividido entre gostei e não gostei. Hoje, alguns dias depois de ter assistido Bem vindo à casa de Bonecas, chego a conclusão de que o filme me agradou de uma forma dura, tocando dentro, lá onde a ferida é aberta.

Já no começ04f37da9d3b5ddd4bded99de29909bf1o do filme a gente se depara com uma cena que parte o coração: nossa personagem principal, na hora do recreio na escola, procurando um lugar para sentar. Mas espere, Igor, o que tem demais nisso? Vamos lá, alguns lugares estavam disponíveis, mas ela não se atrevia a sentar em nenhum deles. Sabe quando  o sentimento de negação te invade? Pois bem, foi isso que senti. A incerteza e o medo de não ser aceito (sentimento mais aprofundado pelo enquadramento da câmera e pelo modo como a cena foi gravada).

O filme inteiro esse sentimento vem e volta a todo instante. Em determinado momento a vontade que surge é de pegar a personagem no colo e falar que tudo vai ficar bem.

Engraçado que me faltam palavras para dizer o que foi a experiência… Mas continuemos. A personagem só tem um amigo – fora da escola – sua família é totalmente a parte de sua existência e aí um fato me fez ter muita raiva: em várias cenas é visto a irmã mais nova, numa roupinha de balé dando saltos leves e fofos. A perfeição da família, o equilíbrio, a disciplina talvez. Isso é doloroso de se ver, pois Dawn é totalmente o oposto disso e em nenhum momento é tentato pelos outros amenizar tal situação: ela é a todo instante uma freak.

Talvez a pior cena que retrata exatamente essa exclusão familiar é a que a mãe impede Down de comer a sobremesa só porque ela não permitiu que seu clubinho no quintal – seu porto seguro talvez – fosse destruído. A única coisa realmente dela e para ela da casa estava em jogo! É doloroso de ver essa cena (inclusive, vale joinha para esta parte da atuação, é estupenda).

Outro ponto que gostaria de levantar é como nos nossos 13,14 anos (e até mais pra frente, pra ser bem sincero) sentimos a necessidade de estar inseridos em algum meio. Down, ainda uma criança, se apaixona pelo “amigo” do irmão e decide por tudo ficar com ele: talvez aqui haja uma identificação, um porto seguro, algo como “oh céus, alguém é parecido comigo”. Essa parte é delicada, o sentir-se desejada, a vontade por ser amada, a ilusão do primeiro amor… E como ficamos cegos ao estarmos apaixonados. Dawn deixa de lado quem realmente a ama (e depois volta e recebe um fora) por achar que o idel é aquele que, aparentemente, está acessível.

Agora me vem que essa parte do texto ficou confussíssima, mas tudo bem, pensamentos que estão sendo expostos no papel, opa, tela. Ainda sobre esse cara, Dawn, ao ir atrás dele demonstra tamanha insegurança e inocência, pelo menos ao meu ver, pois cá entre nós, o cara é um lixo humano. Me pergunto agora, como a solidão nos afeta e nos move em nossas relações? (Um ps para  uma das cenas mais tristes já vistas: o fora que o cara dá nela. MENINES. Eu fiquei mal).

Mais um ponto que me vem à cabeça agora: influência, maldita influência. Em muitos momentos Dawn repete discursos que à ela são submetidos (discursos bem pesados, por sinal). Será que como uma válvula de escape, como forma de externar tudo que ela passa? Será como forma de ser percebida? É uma incognita para mim, mas isso traz à trama um peso muito grande.

Do meio do filme para o final Dawn foi me dando raiva, mas aí eu respirei fundo e vi: ela só tem 13 anos e tá passando por tudo isso sozinha. E aí VRÁ, se fosse comigo? Pe sa do.

Cabe falar sobre o figurino e como as cores deste estão totalmente correlacionados com as mudanças no filme: começa com tons mais claros, rosa, cores calmas, mais para o final o roxo vai tomando conta das roupas de Dawn, o que foi interessante de acompanhar.

Bem, diversos pontos ainda me passam pela cabeça a cerca do filme, mas acho que cabem em outra discussão… Bem vindo à casa de Bonecas é um filme que deve ser visto e discutido. É um filme que dói, maltrata. É um filme sobre o ter de suportar. Será que todos são capazes de suportar?

E sobre o final: por favor, vamos discutir sobre!!! Preciso de alguns pontos de vista a respeito.

Link para download (torrent): Filmes Cult

Continuar ou desistir?

Há algum tempo não dou o devido cuidado a esse espaço aqui. Muitas coisas mudaram, muitas experiências vieram… E o desejo de escrever voltou. Não mais apenas textos, mas tudo aquilo que roda nessa cabeça, que passa pelas mãos e pelos olhos… De uns tempos pra cá eu tenho pensado muito em minha vida acadêmica…

Pois bem, há um ano comecei a cursar artes cênicas, numa boa universidade, foi felicidade que parecia não acabar. Era o meu sonho! Mas no meio do PRIMEIRO SEMESTRE (logo no primeiro) o curso começou a indagar: é isso mesmo que você quer? E eu me peguei pensando: é isso mesmo que eu quero?

Foram dois semestres, desde então, de muitas crises, choros pela madrugada, quase trancamento de matérias (e olha a loucura, as matérias que eu quase tranquei foram as mesmas que eu tirei mensão máxima – a dificuldade, a angústia também são construções)…. Mas continuei… E por quê continuar?

Foi continuar de verdade ou (re)começar?

No fundo a gente sempre sabe quando uma coisa vale a pena, sempre sabe quando um sonho ainda deve ser sonhado. Dentro da gente sempre vai ter, ainda, aquela vozinha que diz não, que diz para, que diz muda… Mas sempre vai ter uma voz maior que diz continue, vai em frente, você chegou até aqui, você sabe que é capaz. O negócio é saber qual voz você vai escutar.

Confesso que por vezes escutei a voz baixa e negativa – e aí eu chorei vendo vídeo de superação, escutando Marília Mendonça, assistindo vídeo de Tente não chorar – mas logo em seguida eu parei, olhei pra mim, olhei pro meu sonho e passei a escutar a outra voz.

Foram dois semestres que provavelmente voltarão em algum momento, mas eu prefiro continuar, cair e levantar, levantar e cair, mudar, refletir e ver que meu sonho é meu. Único. Grande. E pode parecer impossível – ser professor (vide, professor) de teatro – mas é no impossível que eu quero fazer morada, fazer força.

E por hoje é isso. Estar disposto e aberto ao devir, ao que a vida traz. Cair, chorar com música triste por não se achar capaz no que se faz, mas depois levantar e perceber: você chegou até aqui! É seu sonho! Vale a pena continuar!

Tu não te moves de ti

Um azul bem claro e profundo habitou meu coração hoje. Ele veio manso, calmo, alojou-se aos poucos. Eu que nada esperava, continuei, deixei-o. Disse que podia ficar um pouco, ora, visita nova entra e toma um café. E ali ele sentou, e falou.

***

Esse azul bem claro e profundo me trouxe momentos, um momento intenso de quem sou eu? Será que sou? Um momento tão fundo que me fez parar. Todo mundo é um pouco, até vazio pode ser. Mas e eu? O que eu era depois de ter sido?

***

Depois de um tempo de quem sou, esse azul me soltou uma frase, rindo, entre seus dentinhos tão peqenos. Disse que era de Hilda, acreditei. Tu não te moves de ti era a frase. Tu (me eu) não te (me) moves (movo) de ti (mim, eu, agora). Tu não te moves de ti. Eu não me movo de mim… Grande azul que habita o meu peito, nesse momento percebi que sim, sempre sou eu. Se tento fugir  do eu que sou acabo entrando em outro eu que não sou, mas continuo sendo Eu… Que peso carrego por ser eu? Que peso possuo por ser? Eu não me movo de mim. Sempre me sou, mesmo quando não me sei.

***

Decidi expulsar o azul de dentro do meu peito. Me veio a necessidade da agressividade. Fuja daqui, fuja desse sertão exilado que sou de alma. O azul não queria ir embora. Me disse que era o lar mais lindo que possuiu, pois era único. Único… Me sentei. Eu não me movo de mim, e sou único no que sou. Único. Nem uma célula é igual a outra. Único, renovado de criação. Se eu sou único, logo só eu posso me ser. Se só eu posso me ser, que peso carrego? Eu tenho em minhas mãos o poder de ser, não ser ele, mas de ser eu. Não o reflexo do espelho, mas eu. O peso que escorre.

***

Naquela noite choveu. Uma chuva rala e fria, uma chuva que não acabava. O azul dizia estar quente, mas eu sentia frio. Era como se alguma coisa naquele dia tivesse me sido roubada, como uma manta que me tivesse sido tomada. Eu não me movo de mim, mas naquele instante eu já não era mais eu. Eu era outro que continuava sendo eu. Mesmo que eu desejasse, eu não conseguia me mover de mim. Um outro que já não se reconhecia no passado, mas que continuava me sendo. Uma borboleta que sente o amargo da lagarta, mas já não a é. Se uma agulha cai no palheiro e eu a acho, ela é a mesma agulha? E eu sou o mesmo procurador? Ninguém se move de si, mesmo quando o si não se é reconhecido. É um ciclo e o azul continua impregnado dentro do meu peito. Ele ecoa.

O grão e a gota e eu e nós

Quando vejo uma gota de água caindo na janela enquanto chove, paro e me pergunto, será que sou tão forte quanto esta gota? Pois bem, ela caiu ali, naquela janela e luta para não parar. Continua seu percurso e nesse instante percebo: essa gota é. Num meio a tantas outras gotas, tantas juntas formando um temporal, aquela se destaca por ser. Por ser calmaria, por trilhar o caminho oposto, ela é por que tem a fortaleza de continuar seguindo mesmo sabendo que vai chegar a um final.

Eu queria ser igual a uma gota de água ou um grão de areia, saber a grandiosidade da pequenez, pois ora, o que somos se não grãos? E esse é o grande problema, não aceitar essa capacidade. Um homem anda com uma arma nas mãos e se sente maior que um elefante, mas se um elefante tivesse perto dele, com um único chute, o mesmo homem, com a mesma arma seria absolutamente nada. Um homem no chão. O que falta é a compreensão que sozinhos somos grãozinhos tão perdidos, mas ainda assim somos. Temos nomes, objetivos, essências. Mesmo grão somos e fazemos a diferença.

Falta entender que não há um grão maior que outro, todos são iguais. E todos precisam lutar como uma gota de água que cai da janela.

Falta entender que grande mesmo só o amor. Grãos juntos por objetivos compartilhados formam mais amor. E eu queria mesmo ter a força de um grão, queria me ver grão, pequenino, semente que ainda não germinou.

E há quem diga que o grão não é importante, mas sem o grão em conjunto não há a terra que cobre a semente, sem a gota em conjunto não há a água que rega a planta. Preciso entender que o grão luta para o coletivo e o coletivo também faz o grão.

Será que também sou sal da terra? E se o sou, será que o sei?

Nota de abraço n° 1

 

E eu tenho que lhe confessar: seu abraço me acalma até no momento de mais raiva. Eu me fiz pó, me fiz terra, me fiz nada. Fiz-me tudo em um único abraço. Sem nexo eu digo que meu coração estava quebrado, eu lembro da sua dança com outros e eu ali, sozinho bailando em cada pedaço do que restou de mim, eu lembro de você tocando outros cabelos enquanto os meus caíam aos montes por dor de estarem ao vento sozinhos. Eu lembro dos meus olhos, duros, seguindo a caminhada, eles tão neutros, tão frios, tão úmidos enquanto você sorria com os seus. Você foi tudo e eu, mais uma vez, nada. Mas o seu abraço me acalma. Eu sofri calado naquele instante, odiei os homens, odiei as crianças, as mulheres, os padres, os pais eu me odiei, mas você veio. No fim, quando a linha de trem já parecia perdida você veio, quando eu já estava caindo você veio e você veio com meu sustento. Seu abraço me acalma e faz com que os olhos digam algo que a boca não é capaz, seu toque doce, suave que ainda cravado em mim está, deu-me a paz, a paz que você sem nem saber tirou. E repôs e sei que vai tirar novamente.

O teu abraço me fez mais gente, me fez mais eu, talvez não eu de antes, mas um eu melhor. O teu abraço me deu a paz de acreditar em você. Você e você. Éramos eu e você. Você e teu abraço que me agarrou e me ninou, o abraço que me coube e me protegeu do mundo, o abraço que veio quente quando muito frio eu sentia, o abraço que eu queria pra toda vida mas tive por menos de um segundo.

Eu confesso que naquele instante eu queria sussurrar em seus ouvidos “lembra que tu é especial garoto, se eu pudesse te levava pra uma ilha e te faria o homem mais feliz do mundo”. Mas me calei, a boca tremeu. Nosso toque disse muito, eu queria ser seu braço, sua perna, seu cabelo, seu. Queria ser meu e seu na nossa ida ao teatro, queria ser você na dor e nós no jantar. E naquele abraço eu fui tudo ao mesmo tempo que fui nada.

E no fim daquele abraço acho que me perdi um pouco, já que dentro de teus braços tatuei todos meus segredos mais ocultos. No fim, olhar nos teus olhos me deu medo. Medo de ser a última vez e teu rosto tão tristonho, tão sedento de dizer algo me fez partir e eu já não gostava mais dos homens, nem das grávidas nem das flores. Eu já não tinha teu abraço.

E a lembrança tua de outros abraços com outras pessoas e de outros toques me levou de volta à dureza de meus olhos. Mas é isso que acontece,  otempo é efêmero moço. Coube a mim tatuar em minh’alma todas as cores e texturas daquele lar que chamei de teu abraço.

Insegurança

Não me permito o direito de julgar o próximo, mas quanto ao julgamento pessoal, dou-me a primeira sentença. Talvez isso reverbere em minha capacidade de ser, de estar, talvez isso me impeça de muito errar, mas será que isso é bom para quem poderia eu ser?

A insegurança me persegue como em um passo de dança, ela me guia por muito em minha vida. O tempo se torna parte importantíssima no ato de refletir: e se? Eu quero, mas não vou. É inseguro. A zona de conforto é algo que me prende, mas deixa de fora essa força que me impede de algo. (Essa força sou eu?)

Medo, peso, retrocesso, impasse, bloqueio, raiva, dor, garganta afunilada. Grito. Parado, olhar, observo mas não faço, duas vozes, posso e não posso, o que vão pensar, o que eu vou pensar de mim depois disso, o ato de fazer, arrepender-se, ser seguro por fora, o medo por dentro. Medo de novo. Angústia, ansiedade, futuro, preso ao passado, estagnado. Insônia, planos mudos, trabalho, perda do individual.

PARE PARE PARE PARE PARE PARE

PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE

PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE

SIGA SIGA SIGA SIGA SIGA SIGA

SIGA SIGA

SIGA

CALE O MEDO GRITE A VONTADE

CALE O MEDO GRITE A VONTADE

MEDO GRITE A VONTADE

GRITE A VONTADE O QUE O PEITO TEM MEDO

A insegurança vai e volta, ontem ela foi e hoje já voltou. Espero que logo se vá, sim, estou expulsando-a, quero a paz da coragem de ser. De fazer. De viver. Aceite querido eu, a insegurança de fazer só causa dor. A certeza do certo ou errado só se mostra quando tentada. Caso contrário, o mundo gira e você fica.

Um belo recado.

AMOR

Marcello acordou às 9:20 daquele sábado. Mas não era o mesmo sábado, a luz não era a mesma, o colchão de sua cama não era o mesmo, seu olhar não era o mesmo. Sentia dentro de si um vazio, uma vontade de vida, de presença. Sentia necessidade, mas necessidade de quê? Sentou-se, respirou fundo, colocou suas sandálias e foi à cozinha. Preparou seu café, “deve ser fome”, pensou. Comeu desvairadamente, como um cão faminto que reencontra o caminho de casa e é recebido por  sua tigela cheia. Comeu e comeu, estufou-se: frutas, café, leite, pães, massas. Tudo que tinha em casa, mas o vazio não passou. Decidiu então ligar a TV, “essa semana fiquei inerte às leituras para faculdade, devo estar com saudades de minhas séries”. Passou horas a fio e nada do vazio passar. Aquilo já estava o inquietando, oras, como, de repente, um espaço tão grande se formara dentro de si? Decidiu dar uma volta. No caminho viu flores, viu casais, viu animais e como um sopro de vida começou a compreender. Faltava-lhe a mais doce e áspera necessidade do ser humano: amar. Amar a si mesmo, assumir as paixões e entendeu o mais profundo mistério da humanidade: o amor tem mil faces. Amava as flores de uma maneira diferente que amava os cães e essa se diferia da maneira como amava observar os casais apaixonados. Amar significava aceitar sem egoísmo, era dar, independente do grau de amor. Amar era entregar-se de corpo e alma a um corpo que nunca se conheceria por completo, amar era conhecer o corpo mais desconhecido: o próprio. E ele foi enchendo-se, não de si, mas de amor. “Mas amar? E se ninguém me amar de volta?” aquilo começou a incomodá-lo, começou a inquietá-lo. Mas logo aquietou-se: o amor nem sempre é recíproco de maneira racional, como um livro bom, o amor que este lhe entrega é subjetivo, está no seu sentimento de achá-lo agradável. Um belo café, em seu gosto. A brisa do vento, a calmaria. Marcello percebeu que a vida é uma teia de amores, este é o primeiro, os outros sentimentos, variações de graus do amar. Voltou contente para casa, decidiu organizar e limpar-se as prateleiras, ao bater da porta pegou o telefone, o amor já não cabia só dentro de si. Ao início da limpeza, do outro lado da linha alguém atendeu. “Eu te amo” foi a explosão mais bela e leve a qual suas prateleiras perpassaram.