Corra Igor, Corra

"Eu quero fazer silêncio, um silêncio tão doente do vizinho reclamar!" – Chico Buarque

O grão e a gota e eu e nós

Quando vejo uma gota de água caindo na janela enquanto chove, paro e me pergunto, será que sou tão forte quanto esta gota? Pois bem, ela caiu ali, naquela janela e luta para não parar. Continua seu percurso e nesse instante percebo: essa gota é. Num meio a tantas outras gotas, tantas juntas formando um temporal, aquela se destaca por ser. Por ser calmaria, por trilhar o caminho oposto, ela é por que tem a fortaleza de continuar seguindo mesmo sabendo que vai chegar a um final.

Eu queria ser igual a uma gota de água ou um grão de areia, saber a grandiosidade da pequenez, pois ora, o que somos se não grãos? E esse é o grande problema, não aceitar essa capacidade. Um homem anda com uma arma nas mãos e se sente maior que um elefante, mas se um elefante tivesse perto dele, com um único chute, o mesmo homem, com a mesma arma seria absolutamente nada. Um homem no chão. O que falta é a compreensão que sozinhos somos grãozinhos tão perdidos, mas ainda assim somos. Temos nomes, objetivos, essências. Mesmo grão somos e fazemos a diferença.

Falta entender que não há um grão maior que outro, todos são iguais. E todos precisam lutar como uma gota de água que cai da janela.

Falta entender que grande mesmo só o amor. Grãos juntos por objetivos compartilhados formam mais amor. E eu queria mesmo ter a força de um grão, queria me ver grão, pequenino, semente que ainda não germinou.

E há quem diga que o grão não é importante, mas sem o grão em conjunto não há a terra que cobre a semente, sem a gota em conjunto não há a água que rega a planta. Preciso entender que o grão luta para o coletivo e o coletivo também faz o grão.

Será que também sou sal da terra? E se o sou, será que o sei?

Nota de abraço n° 1

 

E eu tenho que lhe confessar: seu abraço me acalma até no momento de mais raiva. Eu me fiz pó, me fiz terra, me fiz nada. Fiz-me tudo em um único abraço. Sem nexo eu digo que meu coração estava quebrado, eu lembro da sua dança com outros e eu ali, sozinho bailando em cada pedaço do que restou de mim, eu lembro de você tocando outros cabelos enquanto os meus caíam aos montes por dor de estarem ao vento sozinhos. Eu lembro dos meus olhos, duros, seguindo a caminhada, eles tão neutros, tão frios, tão úmidos enquanto você sorria com os seus. Você foi tudo e eu, mais uma vez, nada. Mas o seu abraço me acalma. Eu sofri calado naquele instante, odiei os homens, odiei as crianças, as mulheres, os padres, os pais eu me odiei, mas você veio. No fim, quando a linha de trem já parecia perdida você veio, quando eu já estava caindo você veio e você veio com meu sustento. Seu abraço me acalma e faz com que os olhos digam algo que a boca não é capaz, seu toque doce, suave que ainda cravado em mim está, deu-me a paz, a paz que você sem nem saber tirou. E repôs e sei que vai tirar novamente.

O teu abraço me fez mais gente, me fez mais eu, talvez não eu de antes, mas um eu melhor. O teu abraço me deu a paz de acreditar em você. Você e você. Éramos eu e você. Você e teu abraço que me agarrou e me ninou, o abraço que me coube e me protegeu do mundo, o abraço que veio quente quando muito frio eu sentia, o abraço que eu queria pra toda vida mas tive por menos de um segundo.

Eu confesso que naquele instante eu queria sussurrar em seus ouvidos “lembra que tu é especial garoto, se eu pudesse te levava pra uma ilha e te faria o homem mais feliz do mundo”. Mas me calei, a boca tremeu. Nosso toque disse muito, eu queria ser seu braço, sua perna, seu cabelo, seu. Queria ser meu e seu na nossa ida ao teatro, queria ser você na dor e nós no jantar. E naquele abraço eu fui tudo ao mesmo tempo que fui nada.

E no fim daquele abraço acho que me perdi um pouco, já que dentro de teus braços tatuei todos meus segredos mais ocultos. No fim, olhar nos teus olhos me deu medo. Medo de ser a última vez e teu rosto tão tristonho, tão sedento de dizer algo me fez partir e eu já não gostava mais dos homens, nem das grávidas nem das flores. Eu já não tinha teu abraço.

E a lembrança tua de outros abraços com outras pessoas e de outros toques me levou de volta à dureza de meus olhos. Mas é isso que acontece,  otempo é efêmero moço. Coube a mim tatuar em minh’alma todas as cores e texturas daquele lar que chamei de teu abraço.

Insegurança

Não me permito o direito de julgar o próximo, mas quanto ao julgamento pessoal, dou-me a primeira sentença. Talvez isso reverbere em minha capacidade de ser, de estar, talvez isso me impeça de muito errar, mas será que isso é bom para quem poderia eu ser?

A insegurança me persegue como em um passo de dança, ela me guia por muito em minha vida. O tempo se torna parte importantíssima no ato de refletir: e se? Eu quero, mas não vou. É inseguro. A zona de conforto é algo que me prende, mas deixa de fora essa força que me impede de algo. (Essa força sou eu?)

Medo, peso, retrocesso, impasse, bloqueio, raiva, dor, garganta afunilada. Grito. Parado, olhar, observo mas não faço, duas vozes, posso e não posso, o que vão pensar, o que eu vou pensar de mim depois disso, o ato de fazer, arrepender-se, ser seguro por fora, o medo por dentro. Medo de novo. Angústia, ansiedade, futuro, preso ao passado, estagnado. Insônia, planos mudos, trabalho, perda do individual.

PARE PARE PARE PARE PARE PARE

PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE

PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE

SIGA SIGA SIGA SIGA SIGA SIGA

SIGA SIGA

SIGA

CALE O MEDO GRITE A VONTADE

CALE O MEDO GRITE A VONTADE

MEDO GRITE A VONTADE

GRITE A VONTADE O QUE O PEITO TEM MEDO

A insegurança vai e volta, ontem ela foi e hoje já voltou. Espero que logo se vá, sim, estou expulsando-a, quero a paz da coragem de ser. De fazer. De viver. Aceite querido eu, a insegurança de fazer só causa dor. A certeza do certo ou errado só se mostra quando tentada. Caso contrário, o mundo gira e você fica.

Um belo recado.

AMOR

Marcello acordou às 9:20 daquele sábado. Mas não era o mesmo sábado, a luz não era a mesma, o colchão de sua cama não era o mesmo, seu olhar não era o mesmo. Sentia dentro de si um vazio, uma vontade de vida, de presença. Sentia necessidade, mas necessidade de quê? Sentou-se, respirou fundo, colocou suas sandálias e foi à cozinha. Preparou seu café, “deve ser fome”, pensou. Comeu desvairadamente, como um cão faminto que reencontra o caminho de casa e é recebido por  sua tigela cheia. Comeu e comeu, estufou-se: frutas, café, leite, pães, massas. Tudo que tinha em casa, mas o vazio não passou. Decidiu então ligar a TV, “essa semana fiquei inerte às leituras para faculdade, devo estar com saudades de minhas séries”. Passou horas a fio e nada do vazio passar. Aquilo já estava o inquietando, oras, como, de repente, um espaço tão grande se formara dentro de si? Decidiu dar uma volta. No caminho viu flores, viu casais, viu animais e como um sopro de vida começou a compreender. Faltava-lhe a mais doce e áspera necessidade do ser humano: amar. Amar a si mesmo, assumir as paixões e entendeu o mais profundo mistério da humanidade: o amor tem mil faces. Amava as flores de uma maneira diferente que amava os cães e essa se diferia da maneira como amava observar os casais apaixonados. Amar significava aceitar sem egoísmo, era dar, independente do grau de amor. Amar era entregar-se de corpo e alma a um corpo que nunca se conheceria por completo, amar era conhecer o corpo mais desconhecido: o próprio. E ele foi enchendo-se, não de si, mas de amor. “Mas amar? E se ninguém me amar de volta?” aquilo começou a incomodá-lo, começou a inquietá-lo. Mas logo aquietou-se: o amor nem sempre é recíproco de maneira racional, como um livro bom, o amor que este lhe entrega é subjetivo, está no seu sentimento de achá-lo agradável. Um belo café, em seu gosto. A brisa do vento, a calmaria. Marcello percebeu que a vida é uma teia de amores, este é o primeiro, os outros sentimentos, variações de graus do amar. Voltou contente para casa, decidiu organizar e limpar-se as prateleiras, ao bater da porta pegou o telefone, o amor já não cabia só dentro de si. Ao início da limpeza, do outro lado da linha alguém atendeu. “Eu te amo” foi a explosão mais bela e leve a qual suas prateleiras perpassaram.

Cada dia é um dia. Viver um de cada vez.

Não tenho pressa, tenho no peito o tamanho do mundo e cabe mais uns minutos pra espera do seu retorno. Quem serás tu dessa vez? Não tenho pressa, mas tenho ansiedade, já não me lembro do teu abraço e nem do teu gosto, mas no meu coração cabe mais alguns minutos para tentar recordar o que fomos um dia um para o outro. Quem seremos nós quando o sonho virar realidade? Não tenho pressa, mas faz frio aqui fora e o desejo de entrar aumenta, ouvi dizer que as pessoas são ruins e cometem atos ruim e desejam apenas o ruim, o desejo do ego, mas prometo te esperar, pois em meu peito ainda há espaço para guardar um pouco de vento e processar um pouco do mundo. Será que você vai ter os braços quentes pra me curar de tudo isso que estou a perceber? Eu prometo, a pressa não me apetece, só que já começa a doer a falta que você faz e as pessoas se mostram piores e se mostram perigosas e se mostram falsas por vontades que nem elas mesmo entendem. Mas meu peito é grande, mesmo com tudo, continua grande, tão grande que ainda guardo nele a fé na humanidade que você me passou. Mas será que vale a pena te esperar? Foi difícil chegar até aqui, você sabe, não tive pressa, mesmo na dor da dúvida, mesmo na angústia do corte, mesmo no turbilhão da espera, fui calmo, só que agora cheguei e parece que você ficou para trás e os sonhos já se foram e o firme se transformou em pó. As pessoas cansadas me fazem perceber que esse caminho é dolorido e não tão válido, você me entende? Elas transformaram o amor em competição, luta de ego, transformaram aquele doce cujo qual você sempre disse, o transformaram em disputa por poder, mas eles não são como você. Eles são nada. São pó do pó. Gananciosos. Mas meu coração continua grande, às vezes, confesso, como agora, ele aperta um pouco, mas aí eu lembro de suas promessas e das poucas flores que encontrei pelo caminho e me lembro de seu sorriso e da meta de vida que traçamos. Quando me lembro disso meu coração volta a inflar e a ter espaço para mais um dia difícil. Aliás, o que seria da vida sem os dias difíceis? Continuo a afirmar, não tenho pressa e isso é o que eu não devo ter e mesmo que eles tentem derrubar a essência de tudo isso, eu te prometo, meu coração continuará grande para que meu sonho nunca morra e que ele nunca durma e que você seja para mim, sempre, o que nunca será para eles.

Eu não tenho pressa e mesmo cercado por pessoas vazias, por pessoas de pó, de pedra, de coração pequenos eu prometo manter o meu aberto: aberto e grande para fazer aquilo que você sempre propôs, a diferença.

Joaquinzinho, Joaquim, Joaquinzão

Todos os dias, ao se deitar, Joaquim faz uma prece com tom de questionamento: “um dia a mais ou um dia a menos, meu Deus?” E então, lá pelas 5:50 da manhã as forças divinas enviam a resposta: ele acordara mais uma vez, um dia a mais para desfrutar ao passo que possuía um dia a menos dentre os tantos que existiram. Ele entendia perfeitamente isso, era perder algo para ganhar outro algo ainda melhor. Era deixar para trás as amarras do passado, projetando o futuro e aí ele parava mais uma vez, antes de se levantar completamente, o futuro o assustava. Quando criança cria que o futuro nunca existiria, o futuro, oras, era o presente, mas agora, em meio ao calçar das meias via que o futuro era um lobo de boca aberta pronto para abocanhá-lo e que, apenas ele, só ele e mais ninguém, poderia domar seu monstro. O futuro era o fruto, o próprio nome já sugeria isso: futuro e fruto eram parecidos. Fruto do ventre, ou fruto da árvore? Ele não sabia, mas sabia que era seu. E o futuro (ou fruto agora como queiram) era cego, ele não conseguia enxergar a vitória e nem a derrota e ainda o assustavam os que garantiam com unhas e dentes de que a vida é bem escrita e amarrada e que os ganhos estariam certos. Nesse momento, provavelmente já com o café em sua xícara, ele parava e refletia: “mas e se vier um furacão? E se chover ou se eu adoecer? E se eu mudar meu caminho?” A mudança de caminho era um enigma que também sempre o acompanhara. Um dia a mais para viver, um dia a mais para encontrar uma rua até então desconhecida por todos. Era assim que as coisas deveriam ser, mas era difícil de entender. Quando criança queria ser astronauta, um ano depois, professor, hoje aos 32 anos, queria ser pai, mas não é casado e nem tem o interesse em se casar, trabalha como arquiteto e ama o que faz. A vida como ela é, pensa ele sempre que tais lembranças o perseguem. A vida é um palheiro, nós, cria ele, pequenas agulhas tentando se encontrar, as coisas são efêmeras, pequenas para um mundo tão grande. E o presente, passado e futuro talvez não existissem se nós não quiséssemos que esses existissem, e o sonho de ser astronauta talvez ainda existisse, mas as coisas são rápidas e não havia mais tempo para sonhos. Um dia a mais ou um dia a menos, meu Deus? Ele já não sabia, Joaquim sempre fora uma criança, mas aprendeu a correr muito rápido e viu que às vezes, as crianças precisam ficar guardadas no bolso para não serem bombardeadas com as balas diárias da existência humana, ele preservava sua inocência. Mas agora, provavelmente dentro de seu Fiat Uno, carro por escolha, já que odiava coisas que chamassem muita atenção, ele entendia perfeitamente o sentido da vida: era seguir, às vezes os sonhos são para ser somente sonhados e a vida, obviamente vivida. Às vezes é preciso perder para ganhar e ele precisava ganhar a vida. E mesmo que não parecesse, toda sua confusão era paz de espírito, aqueles vinte minutos que passava se perguntando, diariamente, sobre o sentido da vida, era o momento em que sua criança saía: naquele momento, por se questionar e se fazer entender era o astronauta de seu próprio mundo.

Para onde a arte caminha?

No decorrer dos séculos a arte muitas vezes foi usada como meio de transformação, denúncia, renascimento da sociedade. Desde as pinturas rupestres até as vanguardas europeias, acompanhamos a ganância do homem por expor aquilo que atormentava sua alma. Na literatura, do quinhentismo ao modernismo, expondo sempre aquilo que parecia um viés desconexo ao tempo. Mas e hoje, para que é usada a arte na modernidade?

Claro, muitos são os artistas que continuam levando o propósito da arte como vida, a arte como meio de explosão, de exposição. Entretanto, ainda são uma pequena parcela.
Com a explosão industrial e capital parece que vender arte se tornou mais importante do que fazer arte. Lucro se tornou sinônimo de qualidade e no fundo, será isso arte?

Hoje, ligamos a TV, abrimos as páginas na internet, visitamos uma livraria e o que mais se destaca, o bom ou o mais vendido? Nos meios de comunicação, nas rodas de amigos, quais músicas se destacam? As que estão no top 10 daquela tão famosa rádio ou aquela que ficou de fora de algumas disputas por não ser considerada digna de tal? Quando vamos aos cinemas, quais filmes sempre estarão em cartaz? Os que trarão uma boa onda de humor desnecessária ou o oposto disso?

Visando tudo isso, não quero chegar ao ponto de dizer que a arte é ruim, pelo contrário, se tudo citado tocar alguém, essa será uma arte válida, mas sente-se aqui, conversemos: concorda que hoje, como um aparelho celular, como um sofá novo ou um carro zero, a arte se tornou apenas um meio comercial, um meio de lucros e que por vezes se caracteriza pelo vazio? Hoje, talvez, estejamos no marco zero de um novo processo revolucionário, talvez um “new parnasianismo” […]

[…] No fundo, aquilo que Adorno e Horkheimer diziam era totalmente certo: parece bom, parece certo, parece reflexivo, mas apenas o é para lhe vender algo que, bem, parafraseando Fight Club: você não precisa em todos os sentidos. Talvez Admirável mundo novo, Farenheight 451, Sobrevivente e tantos outros estejam totalmente certos.

Mas até quando?

Lido 01: A redoma de vidro, de Sylvia Plath

belljar-e1358468246327“Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto. 

Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com maridos e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era Ê Gê, a fantástica editora, outro era feito de viagens a Europa, África e América do Sul, outro era Constantin e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e a cima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar. 

Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.”

  • A redoma de Vidro – pág. 88/89

Chega a ser complicado falar sobre A redoma de vidro. Se você está interessadx pelo livro, já vale o aviso: Sylvia Plath não terá piedade de você em nenhum momento.

Mas Igor, do que se trata, enfim, a obra?

The Bell Jar (ou a redoma de vidro, a quem preferir) nos traz a narração em primeira pessoa de Esther, uma jovem de seus 19 anos, universitária que acaba de conseguir um estágio de três meses em uma renomada revista em Nova York (algo, hoje em dia, como nossa capricho, talvez). Entretanto, mesmo em meio a tanto glamour, a tanta pomposidade, Esther começa a se sentir fora, vazia, não participante de tudo aquilo que está acontecendo em seu redor. A partir dessa premissa começamos a acompanhar a entrada dela na então citada redoma de vidro: a depressão.

Confesso que há tempos não lia um livro tão difícil de se digerir, não que o livro seja ruim, pelo contrário, mas o livro maltrata o leitor. Assim como a personagem principal se mostra decadente, desolada, nós que a acompanhamos entramos no mesmo barco, sentimos por Esther tudo aquilo que ela narra. A experiência da leitura pode assemelhar-se a um barco em alto mar, com ondas gigantes que a todo momento ousam destruir nosso barquinho. Ler A redoma de Vidro é como viver na pele, na mente, no coração de alguém com depressão, é sentir, mesmo que em uma proporção menor, todo poder que essa tal redoma tem sobre as pessoas.

Mas não ache que a depressão é o único tema tratado pela autora. Plath ainda nos bombardeia em determinados momentos com aquela velha dúvida que sempre rodeia nossas mentes em algum momento da vida: será que estou sendo o que deveria ser? Em várias passagens do livro nos deparamos com isso, de como a visão que os outros tem sobre nós pode acabar influenciando, consequentemente, nossas decisões, além de como essas decisões são difíceis e impactantes na vida de cada um.

A Redoma de vidro não é um livro para qualquer momento, advirto que se você está em uma fase ruim de sua vida, evite esta obra, guarde-a para tempos de morangos. É um excelente livro, mas que, como já citado, maltratará em diferentes níveis o leitor.

Mercúrio

Certo dia chuvoso tive a oportunidade de trocar algumas palavras com um dos grandes e sim, é perceptível quando o universo conspira para que você encontre um deles. Falávamos inicialmente sobre os planos para o dia seguinte, horários e todas as coisas burocráticas que a vida em si aparentemente cobra, até que caímos em mercúrio. Confesso que não entendo bem isso dos astros, não por falta de interesse, pelo contrário, me fascinam as línguas que bem compreendem o que os signos nos vêm a acrescentar, porém algo em nosso diálogo me chamou a atenção. O grande dizia algo sobre a rapidez e liquidez das coisas (peço perdão por não trazer-lhe detalhes, mas foi um momento tão especial, tão único, o tempo parecia parar que confesso ser egoísta: quero os detalhes para mim, para compor a colcha de retalhos de minha mente) e como mercúrio retrógrado parecia desestruturar algumas coisas, como as coisas ficam mais lentas e como isso parece atrapalhar as relações.

E então a explosão.

Continuamos a conversar e o ponto de intersecção foi o seguinte: a lentidão muitas vezes vem para acrescentar e colocar em eixos certos tudo aquilo que parecia descarrilhado. E, assim como prosseguiu o grande, a lentidão muitas vezes nos faz perceber o quão parte de um todo somos.

Somos a natureza em vida.

E por sermos natureza, devemos nos ver como parte desta. Precisamos perceber que somos frágeis como uma folha seca, mas também fortes como um cacto em pleno deserto. Precisamos ver que somos constantes lagartas em processo de metamorfose e que as mudanças são nossa fênix que nos transformam em belas borboletas.

Não somos parte de edifícios de concreto ou de um banco forte. Não somos líquidos como as relações parecem ser. Somos carne.

Somos osso.

Somos pó e lama. Somos flores e fragrâncias. Somos seres advindos e partiremos da e para a natureza. Somos a água que corre nos rios

Assim como eles também são parte de nós.

Percebo, após aquela conversa tão enriquecedora que o que falta no mundo é exatamente a ação de mercúrio retrógrado. Precisamos ser mais lentos, dar tempo ao que se inicia, saber lidar com o tempo de cada pessoa, entender que a vida corre seu percurso em seu tempo certo. As coisas não acontecem em vão e nem deixam de acontecer por isso. Tudo tem um motivo, tudo tem um propósito e devemos, principalmente eu, sentir, entender e ter sabedoria para servir a vida e não crer que ela que deve se ajoelhar aos nossos pés.

É necessário reciprocidade para que se siga em frente, para frente e para o bem.

Hoje, depois de escrever estas palavras, acho que entendi  a importância daqueles 20 minutos de conversa. A paciência para o que somos é o que nos leva ao grande encontro.

(Se possível uma pausa, meus caros, quero deixar um agradecimento ao grande. Agradecer pois na simplicidade e profundidade de suas palavras conseguiu me mostrar um grande propósito que até então era turvo em meu caminho. No dia me faltavam palavras, mas acho que elas chegaram. Ao grande, meu grande obrigado).

Sorte ou um feliz 2016

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

Receita de Ano novo – Carlos Drummond de Andrade

***

Lembro-me de um trecho de “Feliz Ano Velho” que muito me comoveu. Neste era retratado a virada do ano, o cara ali, sozinho numa cama de hospital, tendo seu destino totalmente transformado por um ato cometido pelo  mesmo.

Mudar…

O ano virou, mudou e cá eu, em meu silêncio, disse adeus a um dos anos mais conflituosos de minha vida, disse olá a um ano que promete ser grandioso. Mas o outro também não foi?

Na dor, nas dúvidas, nas quedas de 2015, cresci. Tornei-me uma nova roseira, que se podou, que se transformou, dando lugar a rosas lindas e perfumadas, rosas que deixaram o  cheiro da esperança para esse novo ano.

E regredindo mais um pouco, logo em “Feliz Ano Velho”, à vocês que também já o leram, sabem da reabilitação, a mudança que vai ocorrendo, aquela velha questão da aceitação, de aprender com o novo. Acredito que é isso que preciso para esse dois mil e 16.

Pra 2016 é necessário sermos essa fênix, pois o ano não se formará sozinho, veja bem: se me sentar numa cadeira na varanda de minha casa e lá ficar por todo o ano, lá continuarei e nada mudará, então em 31 de dezembro provavelmente gritarei aos quatro ventos “obrigado pelo fim desse ano ruim”, porém o ano não foi ruim, ele seguiu seu curso, eu, nessa situação hipotética, que fui ruim, ruim para mim.

Nesse ano que se inicia, o sentimento de renovação e renascimento invade o meu peito, acho que estou em um bom estágio dessa reabilitação. E é preciso que se faça, que se sinta na pele o sabor da fruta da tentativa, é preciso que se caia, que se levante, conquiste, perca, ganhe, esqueça… É preciso que eu veja em mim a possibilidade de um mundo melhor.

Vejo muitos fazendo grandes votos para o ano que entra: dinheiro, viagens, amores, bons empregos… Mas me desapeguei disso, votei à paz de espírito e  à determinação. Votei em ser a fênix, que hoje ressurge e espera as surpresas, não espera muito o material, mas espera o surpreender que as pequenas coisas podem gerar.

Comprometi-me ainda ao bem, fazer o bem, receber apenas o bem. A me amar mais e amar mais aos que me amam, prometi aproveitar mais a vida em vez de, parafraseando Raul, ficar sentado esperando a morte chegar. Enfim, prometi à vida cumpri-la sem olhar para trás.

E que 2016, assim como “Feliz Ano Velho” seja repleto de aprendizagens, que todos nós possamos enxergar os grandes espíritos que carregamos, que possamos ser a mudança que queremos no mundo.

Que o sonho seja vivo e a vida seja um grande e belo sonho.