Corra Igor, Corra

"Eu quero fazer silêncio, um silêncio tão doente do vizinho reclamar!" – Chico Buarque

Então eu vi 01: Bem vindo à casa de Bonecas (1995)

Dawn Weiner (Heather Matarazzo) não tem motivos para gostar da escola, na qual estuda na sétima série. Ela é uma adolescente complexada e há motivos para isto. No seu colégio é ridicularizada pelos colegas, que a chamam de “Salsicha”, e seu relacionamento com sua família não é dos melhores. Ela deseja ser aceita de qualquer jeito e para isto planeja namorar um rapaz mais velho, que é muito popular, apesar disto ser totalmente improvável. (Fonte: Filmow)

Fazia muito tempo que um filme, ao seu término, não me deixava dividido entre gostei e não gostei. Hoje, alguns dias depois de ter assistido Bem vindo à casa de Bonecas, chego a conclusão de que o filme me agradou de uma forma dura, tocando dentro, lá onde a ferida é aberta.

Já no começ04f37da9d3b5ddd4bded99de29909bf1o do filme a gente se depara com uma cena que parte o coração: nossa personagem principal, na hora do recreio na escola, procurando um lugar para sentar. Mas espere, Igor, o que tem demais nisso? Vamos lá, alguns lugares estavam disponíveis, mas ela não se atrevia a sentar em nenhum deles. Sabe quando  o sentimento de negação te invade? Pois bem, foi isso que senti. A incerteza e o medo de não ser aceito (sentimento mais aprofundado pelo enquadramento da câmera e pelo modo como a cena foi gravada).

O filme inteiro esse sentimento vem e volta a todo instante. Em determinado momento a vontade que surge é de pegar a personagem no colo e falar que tudo vai ficar bem.

Engraçado que me faltam palavras para dizer o que foi a experiência… Mas continuemos. A personagem só tem um amigo – fora da escola – sua família é totalmente a parte de sua existência e aí um fato me fez ter muita raiva: em várias cenas é visto a irmã mais nova, numa roupinha de balé dando saltos leves e fofos. A perfeição da família, o equilíbrio, a disciplina talvez. Isso é doloroso de se ver, pois Dawn é totalmente o oposto disso e em nenhum momento é tentato pelos outros amenizar tal situação: ela é a todo instante uma freak.

Talvez a pior cena que retrata exatamente essa exclusão familiar é a que a mãe impede Down de comer a sobremesa só porque ela não permitiu que seu clubinho no quintal – seu porto seguro talvez – fosse destruído. A única coisa realmente dela e para ela da casa estava em jogo! É doloroso de ver essa cena (inclusive, vale joinha para esta parte da atuação, é estupenda).

Outro ponto que gostaria de levantar é como nos nossos 13,14 anos (e até mais pra frente, pra ser bem sincero) sentimos a necessidade de estar inseridos em algum meio. Down, ainda uma criança, se apaixona pelo “amigo” do irmão e decide por tudo ficar com ele: talvez aqui haja uma identificação, um porto seguro, algo como “oh céus, alguém é parecido comigo”. Essa parte é delicada, o sentir-se desejada, a vontade por ser amada, a ilusão do primeiro amor… E como ficamos cegos ao estarmos apaixonados. Dawn deixa de lado quem realmente a ama (e depois volta e recebe um fora) por achar que o idel é aquele que, aparentemente, está acessível.

Agora me vem que essa parte do texto ficou confussíssima, mas tudo bem, pensamentos que estão sendo expostos no papel, opa, tela. Ainda sobre esse cara, Dawn, ao ir atrás dele demonstra tamanha insegurança e inocência, pelo menos ao meu ver, pois cá entre nós, o cara é um lixo humano. Me pergunto agora, como a solidão nos afeta e nos move em nossas relações? (Um ps para  uma das cenas mais tristes já vistas: o fora que o cara dá nela. MENINES. Eu fiquei mal).

Mais um ponto que me vem à cabeça agora: influência, maldita influência. Em muitos momentos Dawn repete discursos que à ela são submetidos (discursos bem pesados, por sinal). Será que como uma válvula de escape, como forma de externar tudo que ela passa? Será como forma de ser percebida? É uma incognita para mim, mas isso traz à trama um peso muito grande.

Do meio do filme para o final Dawn foi me dando raiva, mas aí eu respirei fundo e vi: ela só tem 13 anos e tá passando por tudo isso sozinha. E aí VRÁ, se fosse comigo? Pe sa do.

Cabe falar sobre o figurino e como as cores deste estão totalmente correlacionados com as mudanças no filme: começa com tons mais claros, rosa, cores calmas, mais para o final o roxo vai tomando conta das roupas de Dawn, o que foi interessante de acompanhar.

Bem, diversos pontos ainda me passam pela cabeça a cerca do filme, mas acho que cabem em outra discussão… Bem vindo à casa de Bonecas é um filme que deve ser visto e discutido. É um filme que dói, maltrata. É um filme sobre o ter de suportar. Será que todos são capazes de suportar?

E sobre o final: por favor, vamos discutir sobre!!! Preciso de alguns pontos de vista a respeito.

Link para download (torrent): Filmes Cult

Anúncios

Tu não te moves de ti

Um azul bem claro e profundo habitou meu coração hoje. Ele veio manso, calmo, alojou-se aos poucos. Eu que nada esperava, continuei, deixei-o. Disse que podia ficar um pouco, ora, visita nova entra e toma um café. E ali ele sentou, e falou.

***

Esse azul bem claro e profundo me trouxe momentos, um momento intenso de quem sou eu? Será que sou? Um momento tão fundo que me fez parar. Todo mundo é um pouco, até vazio pode ser. Mas e eu? O que eu era depois de ter sido?

***

Depois de um tempo de quem sou, esse azul me soltou uma frase, rindo, entre seus dentinhos tão peqenos. Disse que era de Hilda, acreditei. Tu não te moves de ti era a frase. Tu (me eu) não te (me) moves (movo) de ti (mim, eu, agora). Tu não te moves de ti. Eu não me movo de mim… Grande azul que habita o meu peito, nesse momento percebi que sim, sempre sou eu. Se tento fugir  do eu que sou acabo entrando em outro eu que não sou, mas continuo sendo Eu… Que peso carrego por ser eu? Que peso possuo por ser? Eu não me movo de mim. Sempre me sou, mesmo quando não me sei.

***

Decidi expulsar o azul de dentro do meu peito. Me veio a necessidade da agressividade. Fuja daqui, fuja desse sertão exilado que sou de alma. O azul não queria ir embora. Me disse que era o lar mais lindo que possuiu, pois era único. Único… Me sentei. Eu não me movo de mim, e sou único no que sou. Único. Nem uma célula é igual a outra. Único, renovado de criação. Se eu sou único, logo só eu posso me ser. Se só eu posso me ser, que peso carrego? Eu tenho em minhas mãos o poder de ser, não ser ele, mas de ser eu. Não o reflexo do espelho, mas eu. O peso que escorre.

***

Naquela noite choveu. Uma chuva rala e fria, uma chuva que não acabava. O azul dizia estar quente, mas eu sentia frio. Era como se alguma coisa naquele dia tivesse me sido roubada, como uma manta que me tivesse sido tomada. Eu não me movo de mim, mas naquele instante eu já não era mais eu. Eu era outro que continuava sendo eu. Mesmo que eu desejasse, eu não conseguia me mover de mim. Um outro que já não se reconhecia no passado, mas que continuava me sendo. Uma borboleta que sente o amargo da lagarta, mas já não a é. Se uma agulha cai no palheiro e eu a acho, ela é a mesma agulha? E eu sou o mesmo procurador? Ninguém se move de si, mesmo quando o si não se é reconhecido. É um ciclo e o azul continua impregnado dentro do meu peito. Ele ecoa.

Insegurança

Não me permito o direito de julgar o próximo, mas quanto ao julgamento pessoal, dou-me a primeira sentença. Talvez isso reverbere em minha capacidade de ser, de estar, talvez isso me impeça de muito errar, mas será que isso é bom para quem poderia eu ser?

A insegurança me persegue como em um passo de dança, ela me guia por muito em minha vida. O tempo se torna parte importantíssima no ato de refletir: e se? Eu quero, mas não vou. É inseguro. A zona de conforto é algo que me prende, mas deixa de fora essa força que me impede de algo. (Essa força sou eu?)

Medo, peso, retrocesso, impasse, bloqueio, raiva, dor, garganta afunilada. Grito. Parado, olhar, observo mas não faço, duas vozes, posso e não posso, o que vão pensar, o que eu vou pensar de mim depois disso, o ato de fazer, arrepender-se, ser seguro por fora, o medo por dentro. Medo de novo. Angústia, ansiedade, futuro, preso ao passado, estagnado. Insônia, planos mudos, trabalho, perda do individual.

PARE PARE PARE PARE PARE PARE

PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE

PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE PARE

SIGA SIGA SIGA SIGA SIGA SIGA

SIGA SIGA

SIGA

CALE O MEDO GRITE A VONTADE

CALE O MEDO GRITE A VONTADE

MEDO GRITE A VONTADE

GRITE A VONTADE O QUE O PEITO TEM MEDO

A insegurança vai e volta, ontem ela foi e hoje já voltou. Espero que logo se vá, sim, estou expulsando-a, quero a paz da coragem de ser. De fazer. De viver. Aceite querido eu, a insegurança de fazer só causa dor. A certeza do certo ou errado só se mostra quando tentada. Caso contrário, o mundo gira e você fica.

Um belo recado.

AMOR

Marcello acordou às 9:20 daquele sábado. Mas não era o mesmo sábado, a luz não era a mesma, o colchão de sua cama não era o mesmo, seu olhar não era o mesmo. Sentia dentro de si um vazio, uma vontade de vida, de presença. Sentia necessidade, mas necessidade de quê? Sentou-se, respirou fundo, colocou suas sandálias e foi à cozinha. Preparou seu café, “deve ser fome”, pensou. Comeu desvairadamente, como um cão faminto que reencontra o caminho de casa e é recebido por  sua tigela cheia. Comeu e comeu, estufou-se: frutas, café, leite, pães, massas. Tudo que tinha em casa, mas o vazio não passou. Decidiu então ligar a TV, “essa semana fiquei inerte às leituras para faculdade, devo estar com saudades de minhas séries”. Passou horas a fio e nada do vazio passar. Aquilo já estava o inquietando, oras, como, de repente, um espaço tão grande se formara dentro de si? Decidiu dar uma volta. No caminho viu flores, viu casais, viu animais e como um sopro de vida começou a compreender. Faltava-lhe a mais doce e áspera necessidade do ser humano: amar. Amar a si mesmo, assumir as paixões e entendeu o mais profundo mistério da humanidade: o amor tem mil faces. Amava as flores de uma maneira diferente que amava os cães e essa se diferia da maneira como amava observar os casais apaixonados. Amar significava aceitar sem egoísmo, era dar, independente do grau de amor. Amar era entregar-se de corpo e alma a um corpo que nunca se conheceria por completo, amar era conhecer o corpo mais desconhecido: o próprio. E ele foi enchendo-se, não de si, mas de amor. “Mas amar? E se ninguém me amar de volta?” aquilo começou a incomodá-lo, começou a inquietá-lo. Mas logo aquietou-se: o amor nem sempre é recíproco de maneira racional, como um livro bom, o amor que este lhe entrega é subjetivo, está no seu sentimento de achá-lo agradável. Um belo café, em seu gosto. A brisa do vento, a calmaria. Marcello percebeu que a vida é uma teia de amores, este é o primeiro, os outros sentimentos, variações de graus do amar. Voltou contente para casa, decidiu organizar e limpar-se as prateleiras, ao bater da porta pegou o telefone, o amor já não cabia só dentro de si. Ao início da limpeza, do outro lado da linha alguém atendeu. “Eu te amo” foi a explosão mais bela e leve a qual suas prateleiras perpassaram.

Joaquinzinho, Joaquim, Joaquinzão

Todos os dias, ao se deitar, Joaquim faz uma prece com tom de questionamento: “um dia a mais ou um dia a menos, meu Deus?” E então, lá pelas 5:50 da manhã as forças divinas enviam a resposta: ele acordara mais uma vez, um dia a mais para desfrutar ao passo que possuía um dia a menos dentre os tantos que existiram. Ele entendia perfeitamente isso, era perder algo para ganhar outro algo ainda melhor. Era deixar para trás as amarras do passado, projetando o futuro e aí ele parava mais uma vez, antes de se levantar completamente, o futuro o assustava. Quando criança cria que o futuro nunca existiria, o futuro, oras, era o presente, mas agora, em meio ao calçar das meias via que o futuro era um lobo de boca aberta pronto para abocanhá-lo e que, apenas ele, só ele e mais ninguém, poderia domar seu monstro. O futuro era o fruto, o próprio nome já sugeria isso: futuro e fruto eram parecidos. Fruto do ventre, ou fruto da árvore? Ele não sabia, mas sabia que era seu. E o futuro (ou fruto agora como queiram) era cego, ele não conseguia enxergar a vitória e nem a derrota e ainda o assustavam os que garantiam com unhas e dentes de que a vida é bem escrita e amarrada e que os ganhos estariam certos. Nesse momento, provavelmente já com o café em sua xícara, ele parava e refletia: “mas e se vier um furacão? E se chover ou se eu adoecer? E se eu mudar meu caminho?” A mudança de caminho era um enigma que também sempre o acompanhara. Um dia a mais para viver, um dia a mais para encontrar uma rua até então desconhecida por todos. Era assim que as coisas deveriam ser, mas era difícil de entender. Quando criança queria ser astronauta, um ano depois, professor, hoje aos 32 anos, queria ser pai, mas não é casado e nem tem o interesse em se casar, trabalha como arquiteto e ama o que faz. A vida como ela é, pensa ele sempre que tais lembranças o perseguem. A vida é um palheiro, nós, cria ele, pequenas agulhas tentando se encontrar, as coisas são efêmeras, pequenas para um mundo tão grande. E o presente, passado e futuro talvez não existissem se nós não quiséssemos que esses existissem, e o sonho de ser astronauta talvez ainda existisse, mas as coisas são rápidas e não havia mais tempo para sonhos. Um dia a mais ou um dia a menos, meu Deus? Ele já não sabia, Joaquim sempre fora uma criança, mas aprendeu a correr muito rápido e viu que às vezes, as crianças precisam ficar guardadas no bolso para não serem bombardeadas com as balas diárias da existência humana, ele preservava sua inocência. Mas agora, provavelmente dentro de seu Fiat Uno, carro por escolha, já que odiava coisas que chamassem muita atenção, ele entendia perfeitamente o sentido da vida: era seguir, às vezes os sonhos são para ser somente sonhados e a vida, obviamente vivida. Às vezes é preciso perder para ganhar e ele precisava ganhar a vida. E mesmo que não parecesse, toda sua confusão era paz de espírito, aqueles vinte minutos que passava se perguntando, diariamente, sobre o sentido da vida, era o momento em que sua criança saía: naquele momento, por se questionar e se fazer entender era o astronauta de seu próprio mundo.

Lido 01: A redoma de vidro, de Sylvia Plath

belljar-e1358468246327“Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto. 

Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com maridos e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era Ê Gê, a fantástica editora, outro era feito de viagens a Europa, África e América do Sul, outro era Constantin e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e a cima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar. 

Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.”

  • A redoma de Vidro – pág. 88/89

Chega a ser complicado falar sobre A redoma de vidro. Se você está interessadx pelo livro, já vale o aviso: Sylvia Plath não terá piedade de você em nenhum momento.

Mas Igor, do que se trata, enfim, a obra?

The Bell Jar (ou a redoma de vidro, a quem preferir) nos traz a narração em primeira pessoa de Esther, uma jovem de seus 19 anos, universitária que acaba de conseguir um estágio de três meses em uma renomada revista em Nova York (algo, hoje em dia, como nossa capricho, talvez). Entretanto, mesmo em meio a tanto glamour, a tanta pomposidade, Esther começa a se sentir fora, vazia, não participante de tudo aquilo que está acontecendo em seu redor. A partir dessa premissa começamos a acompanhar a entrada dela na então citada redoma de vidro: a depressão.

Confesso que há tempos não lia um livro tão difícil de se digerir, não que o livro seja ruim, pelo contrário, mas o livro maltrata o leitor. Assim como a personagem principal se mostra decadente, desolada, nós que a acompanhamos entramos no mesmo barco, sentimos por Esther tudo aquilo que ela narra. A experiência da leitura pode assemelhar-se a um barco em alto mar, com ondas gigantes que a todo momento ousam destruir nosso barquinho. Ler A redoma de Vidro é como viver na pele, na mente, no coração de alguém com depressão, é sentir, mesmo que em uma proporção menor, todo poder que essa tal redoma tem sobre as pessoas.

Mas não ache que a depressão é o único tema tratado pela autora. Plath ainda nos bombardeia em determinados momentos com aquela velha dúvida que sempre rodeia nossas mentes em algum momento da vida: será que estou sendo o que deveria ser? Em várias passagens do livro nos deparamos com isso, de como a visão que os outros tem sobre nós pode acabar influenciando, consequentemente, nossas decisões, além de como essas decisões são difíceis e impactantes na vida de cada um.

A Redoma de vidro não é um livro para qualquer momento, advirto que se você está em uma fase ruim de sua vida, evite esta obra, guarde-a para tempos de morangos. É um excelente livro, mas que, como já citado, maltratará em diferentes níveis o leitor.

Mercúrio

Certo dia chuvoso tive a oportunidade de trocar algumas palavras com um dos grandes e sim, é perceptível quando o universo conspira para que você encontre um deles. Falávamos inicialmente sobre os planos para o dia seguinte, horários e todas as coisas burocráticas que a vida em si aparentemente cobra, até que caímos em mercúrio. Confesso que não entendo bem isso dos astros, não por falta de interesse, pelo contrário, me fascinam as línguas que bem compreendem o que os signos nos vêm a acrescentar, porém algo em nosso diálogo me chamou a atenção. O grande dizia algo sobre a rapidez e liquidez das coisas (peço perdão por não trazer-lhe detalhes, mas foi um momento tão especial, tão único, o tempo parecia parar que confesso ser egoísta: quero os detalhes para mim, para compor a colcha de retalhos de minha mente) e como mercúrio retrógrado parecia desestruturar algumas coisas, como as coisas ficam mais lentas e como isso parece atrapalhar as relações.

E então a explosão.

Continuamos a conversar e o ponto de intersecção foi o seguinte: a lentidão muitas vezes vem para acrescentar e colocar em eixos certos tudo aquilo que parecia descarrilhado. E, assim como prosseguiu o grande, a lentidão muitas vezes nos faz perceber o quão parte de um todo somos.

Somos a natureza em vida.

E por sermos natureza, devemos nos ver como parte desta. Precisamos perceber que somos frágeis como uma folha seca, mas também fortes como um cacto em pleno deserto. Precisamos ver que somos constantes lagartas em processo de metamorfose e que as mudanças são nossa fênix que nos transformam em belas borboletas.

Não somos parte de edifícios de concreto ou de um banco forte. Não somos líquidos como as relações parecem ser. Somos carne.

Somos osso.

Somos pó e lama. Somos flores e fragrâncias. Somos seres advindos e partiremos da e para a natureza. Somos a água que corre nos rios

Assim como eles também são parte de nós.

Percebo, após aquela conversa tão enriquecedora que o que falta no mundo é exatamente a ação de mercúrio retrógrado. Precisamos ser mais lentos, dar tempo ao que se inicia, saber lidar com o tempo de cada pessoa, entender que a vida corre seu percurso em seu tempo certo. As coisas não acontecem em vão e nem deixam de acontecer por isso. Tudo tem um motivo, tudo tem um propósito e devemos, principalmente eu, sentir, entender e ter sabedoria para servir a vida e não crer que ela que deve se ajoelhar aos nossos pés.

É necessário reciprocidade para que se siga em frente, para frente e para o bem.

Hoje, depois de escrever estas palavras, acho que entendi  a importância daqueles 20 minutos de conversa. A paciência para o que somos é o que nos leva ao grande encontro.

(Se possível uma pausa, meus caros, quero deixar um agradecimento ao grande. Agradecer pois na simplicidade e profundidade de suas palavras conseguiu me mostrar um grande propósito que até então era turvo em meu caminho. No dia me faltavam palavras, mas acho que elas chegaram. Ao grande, meu grande obrigado).

Sorte ou um feliz 2016

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

Receita de Ano novo – Carlos Drummond de Andrade

***

Lembro-me de um trecho de “Feliz Ano Velho” que muito me comoveu. Neste era retratado a virada do ano, o cara ali, sozinho numa cama de hospital, tendo seu destino totalmente transformado por um ato cometido pelo  mesmo.

Mudar…

O ano virou, mudou e cá eu, em meu silêncio, disse adeus a um dos anos mais conflituosos de minha vida, disse olá a um ano que promete ser grandioso. Mas o outro também não foi?

Na dor, nas dúvidas, nas quedas de 2015, cresci. Tornei-me uma nova roseira, que se podou, que se transformou, dando lugar a rosas lindas e perfumadas, rosas que deixaram o  cheiro da esperança para esse novo ano.

E regredindo mais um pouco, logo em “Feliz Ano Velho”, à vocês que também já o leram, sabem da reabilitação, a mudança que vai ocorrendo, aquela velha questão da aceitação, de aprender com o novo. Acredito que é isso que preciso para esse dois mil e 16.

Pra 2016 é necessário sermos essa fênix, pois o ano não se formará sozinho, veja bem: se me sentar numa cadeira na varanda de minha casa e lá ficar por todo o ano, lá continuarei e nada mudará, então em 31 de dezembro provavelmente gritarei aos quatro ventos “obrigado pelo fim desse ano ruim”, porém o ano não foi ruim, ele seguiu seu curso, eu, nessa situação hipotética, que fui ruim, ruim para mim.

Nesse ano que se inicia, o sentimento de renovação e renascimento invade o meu peito, acho que estou em um bom estágio dessa reabilitação. E é preciso que se faça, que se sinta na pele o sabor da fruta da tentativa, é preciso que se caia, que se levante, conquiste, perca, ganhe, esqueça… É preciso que eu veja em mim a possibilidade de um mundo melhor.

Vejo muitos fazendo grandes votos para o ano que entra: dinheiro, viagens, amores, bons empregos… Mas me desapeguei disso, votei à paz de espírito e  à determinação. Votei em ser a fênix, que hoje ressurge e espera as surpresas, não espera muito o material, mas espera o surpreender que as pequenas coisas podem gerar.

Comprometi-me ainda ao bem, fazer o bem, receber apenas o bem. A me amar mais e amar mais aos que me amam, prometi aproveitar mais a vida em vez de, parafraseando Raul, ficar sentado esperando a morte chegar. Enfim, prometi à vida cumpri-la sem olhar para trás.

E que 2016, assim como “Feliz Ano Velho” seja repleto de aprendizagens, que todos nós possamos enxergar os grandes espíritos que carregamos, que possamos ser a mudança que queremos no mundo.

Que o sonho seja vivo e a vida seja um grande e belo sonho.

E eu tive que te dizer adeus

Ainda não cheguei ao fim, lembro-me que em minha agenda anotei aquele encontro para sexta, minha despedida formal. Minha pois você fica, eu é que vou, eu é que continuarei a relembrar tudo aquilo que senti e omiti por tanto tempo.

Hoje parado em frente a minha estante retirei aquele livro que um dia me fora apresentado: e lembrei-me da alegria que senti. Naquelas páginas, em suas entrelinhas, continha um mundo que era secreto e a mim, logo a mim, foi dado a honra de ser lido. Porque você é assim, essa caixinha de surpresas que há a necessidade da espera para que se possa abrir.

(E isso me encantou).

Eu, infelizmente, tive que dizer adeus. E foi preciso, é preciso pois seguiremos agora caminhos distintos, eu a conhecer o mundo, você a consolidar caminhos.

E me dói um pouco, pois minh’alma fora cativada pela tua. Eu fui cativado por palavras rasgadas em um quadro cujo qual me lembro de cada centímetro.

E agora a água corre seu curso.

E eu a acompanho.

Adeus.

(meu primeiro amor. – Mas será que foi amor?)

Eu espero que as promessas sejam cumpridas e que, independente de qualquer coisa, sigamos nossos caminhos.

Você é minha inspiração, minha luz.

Mas agora me vou.

Adeus.

QUEIMANDO COMO FOGO, GRITANDO COMO CARNE

 

Tal corpo que habito, oh santo espírito, está marcado pelo ódio daqueles que vos rezam. Está marcado pelo desejo de Adão e Caim. Papai, quero que me ouça: havia um homem e eu. Havia um homem despido de pudor. (uma pausa) Mas eu nada implorei (uma pausa).

Um homem que bebeu demais, caminhando por uma rua escura, despido a fronte. (se exalta) Mas foi a mim que o grande pássaro de putas escolheu! E eu nada implorei!

A dor que senti transcendeu a dor que sente uma mãe ao parir seu filho, mas papai, tudo teve seu prefácio. A dor que aquela noite me causou foi a explosão de tudo aquilo que me faziam escutar nas ruas. A dor de minha alma foi maior que a dor da perda – e agora estou perdida de mim mesma.

(quase sussurrando) Já não possuo mais nada.

E tal corpo, papai, foi exposto aos desejos mais profanos. Mas porque papai? Por que a palavra corta como navalha quente? Tudo que eu quero é entender o motivo do uso, pois não sou uma loja para que entrem sem pedir.

(Levanta-se da cadeira)

E eu não sou um objeto

E eu não estarei em tua casa

E eu não aceitarei um copo de bebida em troca de um bom papo.

(Joga o espelho no chão, coloca a mãos sobre os olhos)

E eu odeio os olhares famintos que remontam todas aquelas verdadeiras mentiras que mamãe alertava.

E hoje, a cima de tudo, eu odeio as vozes dos porcos que me gritam na esperança de retorno.

(Uma pausa, quase sussurrando) Será que sou realmente sua filha, papai?

Lembra-te papai: mamãe morreu assim.

Vovó morreu assim.

A mãe de vovó também acabou assim.

(Gritando)

Mas eu não quero. E pai, não sou tua filha. Pois não quero ser filha daquele que oprime, que mata. Pai, eu sou a neta das bruxas que seus servos não queimaram.

Homem eu não sou tua filha, pois não sou filha da prisão e subordinação.

Eu sou filha da liberdade. E a quero. E a grito. E a chamo.

Será que, papai, é pedir muito ter aquilo que já me é direito?