Corra Igor, Corra

"Eu quero fazer silêncio, um silêncio tão doente do vizinho reclamar!" – Chico Buarque

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Experiência em sala de aula #1

“Se recebo dor, se devolvo amor… E quanto mais dor recebo mais percebo que sou indestrutível.” – Pabllo Vittar – Indestrutível

Éramos três. Uma turma de metodologia do ensino do teatro. Um plano de aula para adolescentes de ensino médio. Trinta minutos.

O papel da turma era ser, nesse instante, a dita turma de ensino médio. Alunos de Artes cênicas interpretando uma turma de ensino médio para que um trio aplicasse um plano de aula. E nesse contexto eu me senti incapaz.

Começamos com um exercício de apresentação, que não funcionou como pretendíamos. Como lidar com o imprevisto? (seria a sala de aula o local da performance?)

Aquilo me abalou e eu não soube como prosseguir. Os alunos agiam como alunos e aquilo fez, para mim, uma ponte gritante entre presente e passado. Aquela turma era a mesma turma que, por vezes, tive que estar inserido enquanto aluno. No entanto algo gritava, durante o exercício, dentro de mim: eu não era assim. E, então, a primeira ficha caiu: eu não sou o outro. Meu papel ali não era ser o outro, mas ouvir o outro, entender essa persona outra, conseguir trazê-la, dentro das suas limitações, para a proposta. Falhei.

Em meio as risadas, aos deboches, as inseguranças mútuas, eu me vi caindo da corda. Agradeço, hoje, as minhas colegas de trio. Elas tiveram a força que eu não consegui ter, tomaram em mãos grossas a situação. Já eu comi pelas beiradas.

No momento seguinte eu deveria aplicar um exercício. Já desestabilizado, sem atenção dos alunos, sem a abertura destes para o novo, eu não sabia como fazer. Logo eu, que pensei entender as falas de Viola, de Desgranges, de Boal, de Brecht, de tantos outros… Bem ali eu vi: a teoria e a prática nem sempre andam juntas. E eu não tinha a prática… A prática é navalha que corta, te tira de si para se doar a um outro fechado ao por vir. Eu era um nada naquele instante.

E naquele momento de tentar explicar o exercício, eu, já cansado, me vi calando a voz de outro. Calar a voz. No instante eu vi: manter um discurso na vida prática não é fácil. Calei, logo eu, que defendo a fala do desconhecido, a voz ouvida do que quase não é ouvido…

Desisti.

Depois disso, eu me fiz instante de fora. Observei. Abandonei o barco, eu não tinha mais forças. E com isso diversas vozes vinham até mim: “numa sala de aula real você também abandonaria?” “é assim que você se faz professor?” “você é realmente capaz?”

Eu me senti a pessoa mais incapaz.

Durante esse processo alguns alunos saíram da prática, me senti na obrigação de perguntar se tudo estava bem, e ouvir um “sim, só não quero fazer a aula” foi mais um apunhalar.

Incapaz mais uma vez.

Quando o trabalho acabou, nos sentamos em roda e agora, todos novamente estudantes de Artes Cênicas, pudemos falar. E eu prometi a mim mesmo: eu não vou desmanchar agora. Impossível. Se manter íntegro após ver que você está mais longe do que pensou do ideal criado é impossível.

Ouvindo a fala de meus colegas e, em seguida, ouvindo minha própria fala, eu não consegui, mais uma vez, e me permiti o mar de lágrimas que gritavam para sair. E chorei como uma criança desmamada, uma criança sem um doce, uma nação sem um sonho. Um torcedor vendo o fracasso do seu time do coração.

Mas em menos de dez minutos eu precisava me estabilizar. A aula acabaria e no próximo período começaria outra aula, na qual sou monitor. Eu precisava estar íntegro, mostrar que vale a pena estar ali, tentar ser conforto para indivíduos aos quais eu não sabia como havia sido o dia. Eu precisava sorrir. Espantar os fantasmas. E então eu, ainda em lágrimas, fui ao banheiro e em meio aquela má iluminação joguei água em meu rosto, olhei aqueles olhos inchados no banheiro e disse para mim mesmo, de eu, para eu mesmo: tudo vai dar certo. A próxima aula vai ser melhor. E assim voltei.

Arrumei a sala, apaguei o quadro e quando o primeiro aluno entrou, sorri. Perguntei se tudo estava bem e vi: realmente será diferente. 

Engraçado que um dos alunos me perguntou se tudo estava bem, o que havia acontecido, já que eu estava com cara de choro. Disse calmamente, contendo novamente as lágrimas: tudo está bem, tudo vai ficar bem, obrigado. E recebi um abraço. O afeto que afeta, que salva.

Depois desse dia cheguei a conclusão: ser professor é difícil e eu não estou preparado. Entretanto desistir não está em nenhuma das opções. Eu tentarei, dia a dia, ser melhor. A cada tropeço, a cada dor, respirarei fundo e perceberei: isso me faz mais forte, me permite me recriar. Ser do começo. Ser de novo.

Ainda vale a pena. Construir o afeto vale a pena.

Eu não sei como terminar isso, pois sinto que em mim essa experiência ainda não acabou (e talvez nunca acabe).

Eu só precisava falar sobre isso. E perceber que, sim, eu posso ser um bom professor. Mesmo caindo. Mesmo errando. Mesmo saindo da corda bamba às vezes. Talvez seja exatamente isso, lavar o rosto olhar pra frente e (tentar) fazer, na próxima aula, o melhor do melhor de mim, novamente.

Tem uns fantasmas que a gente não entende bem

Para ler ao som de Maria Bethânia

Eu bebia da vida em goles pequenos

Tropeçava no riso

Abraçava de menos

Quem me leva os meus fantasmas

Sempre que escrevo aqui eu tento ser positivo a respeito do que estou escrevendo, solucionar pequenos problemas, entende? Mas tem algumas coisas que eu não consigo solucionar sozinho.

Eu, assim como você, tenho medo. Medo de pato, medo de aranha e até de cobra. Tenho medo de andar na rua a noite sozinho (acredite, mãe, eu tenho!) Tenho medo de morrer, tenho medo de errar e até mesmo medo de tentar.

Minha mãe sempre me disse que precisamos correr atrás do que a gente quer. Sem medo. O não a gente já tem, mas e o abismo entre o sim e o não? Essa incerteza que vai mudar nossa vida, eu tenho medo é dela.

Eu tive medo de prestar vestibular pra cênicas (eu sempre falo sobre isso, pois dentre minhas conquistas pessoais, minha profissão é a que mais me orgulha) e fico me questionando se não tivesse arriscado. O que seria de mim hoje?

Tive um professor que me disse um dia que o medo pode ser uma forma de “forcinha” pra se realizar o que quer e que ainda te previne de uma queda brusca. Entendi com o tempo um pouquinho disso. Continuo tendo medo de pato, mas não tenho mais medo de tentar, por exemplo, por em prática meus projetos.

Entretando o medo tá revestido em diversas camadas e tem uma área na minha vida que sempre reina: a tal vida amorosa. Eu chorei com Closer. Eu chorei com 500 dias com ela. Eu chorei com A bela Junie. Antes do pôr-do-sol. Com todos esses romances. Eu me sentia parte. Eu tenho medo de tentar, eu  tenho medo do fim. Eu sou inseguro no aspecto amor. Mas o que é o amor? Eu amo tanta coisa de peito aberto, mas quando se trata de uma relação a dois, me dói o medo, a rejeição.

Há alguns dias eu conversava com você, leitor, a respeito do olhar para os lados. Mas vocês não imaginam o quanto é difícil para mim (e uma digressão: uso esse blog para trabalhar meus medos sim. Parece que me entendo quando escrevo e vejo que as coisas são mais tranquilas e fáceis). E aí eu me vejo num quarto com medo de tentar. Sabe, aquele flerte, ou o simples “te achei um cara legal, vamos sair um dia?”. Eu me apavoro no ato de tentar, do que o outro vai pensar, DE COMO ISSO VAI IMPACTAR MINHA VIDA. E nesses momentos eu me vejo num espelho e todos meus defeitos vêm a tona.

Eu só tenho medo de acabar sozinho. Eu tenho medo da solidão. E ela me assombra. 

E esse medo me faz caminhar em passos pequenos, me faz dar pequenos goles. Me faz viver me impedindo de tentar algumas coisas. Eu só queria fechar os olhos e pensar que eu tô numa aula de movimento e linguagem e que ali eu posso fazer tudo, me jogar de corpo e alma. Mas aí eu abro os olhos. E o medo me blinda de mim mesmo.

Quantos encontros perdidos pelo medo. Quantas pessoas passaram pelo medo. Quanto eu deixei pra trás pelo medo.

Eu travo quando encontro a possibilidade de me ser no outro.

Me travo pelo medo de tentar me mostrar ao outro. Da conquista. Do fazer… feliz.

Acho que por hoje é isso. Nós temos medos, eu tenho esses e não achem que o medo de tentar me relacionar é maior que o medo de patos, pois não é. Mas isso me dói; a insegurança. Que algum dia eu mesmo me retire os meus fantasmas do passado.

Olhar para frente nem sempre é a resposta

A gente deveria ser mais aberto as coisas que a vida coloca no nosso caminho. Ontem eu estava assistindo a um documentário lindo, As canções o nome, e um trecho me chamou muito a atenção. Em determinado momento uma das pessoas fala:

Eu passei tanto tempo tendo esperança que ele voltaria que não me permiti olhar para os lados.

E  não quero falar do esperar ele voltar, mas sim do se permitir olhar para os lados. Uma coisa que tenho percebido muito é essa necessidade que está se formando na gente de ser independente dos outros, quando digo isso me refiro a isso de ser super legal e influente em diversos lugares, mas quando alguém chega pra conhecer melhor a gente, as portinhas do legalzão do pedaço se fecham. A gente não permite que as pessoas entrem nas nossas vidas, que pessoas conheçam esse serzinho estranho que tem por trás do ser influente, politizado, desconstruído. E com isso muitas pessoas passam nos lados e a gente fica fazendo a Gisele na passarela da vida e no fim, papum, fica sem ninguém (e quando digo ninguém não me refiro só ao amor, mas em amizade também, hein!).

E por qual motivo? Olha, existem vários motivos que me permeiam e eu só posso falar deles que me habiam(avam), aliás, eles me foram vividos. O primeiro é o se conhecer, você se conhece, logo vê todos os pequenos detalhes ruins e bons. Isso é avassalador. Medo de que as pessoas conheçam as facas que a rosa possui. Mas também tem isso que já disse a cima. Essa coisa de precisar ser cool sempre, mas ter uma preguiça imensa de se aprofundar no outro, me passa agora que tem também o ponto da tecnologia, da rapidez das coisas. Como o tinder, passa pro lado e plau, um like. Muito rápido, muito fácil, ‘passar‘ se torna uma regra e aí aquele tempo que você poderia estar olhando pros lados e conhecendo alguém maravilhoso, se torna perda de tempo…

E isso é ruim. A gente é profundo. Precisa de tempo pra mergulhar nisso. Conhecer alguém exige paciência, vontade… E porque não ter essa vontade? Medo? Acho que a gente precisa ter os braços mais abertos pra vida. Tem tanta coisa que as pessoas podem oferecer, tem tanto que você pode aprender com o outro… E o outro com você também. Dar opotunidade a alguém de mostrar é dar oportunidade pra si próprio de conhecer (tanto alguém como a si próprio).

E pensando sobre tá aí a resposta pro sofrimento de “eu não consigo achar alguém legal/bom o bastante“: se permita. Deu errado? É a vida, meu amor. Do erro também se tira aprendizagem. E de erro(aprendizagem) em erro(aprendizagem) se forma o acerto. Abraçar o outro é se abraçar também. 

Além disso acho que quando a gente olha (se permite olhar) para os lados com os olhos despidos e receptivos, conseguimos nos colorir mais, possibilitamos o devir. Citando mais um trecho de As canções:

É como eu disse: deixei de ser um retrato branco e preto e me colori um pouco.

Bom, acho que por hoje é isso. Eu estou tentando a cada dia me permitir conhecer, deixar meus braços abertos ao que quer entrar. Viver, talvez seja isso. Que vivamos. Que nos deixemos olhar para os lados sem medo da queda.

Sobre o tempo, a palavra, o futuro…

Hoje eu não sei ao certo o que dizer. Há alguns dias me peguei pensando na idade… Esse ano completo vinte anos. Quando eu tinha treze, meu sonho era ter dezesseis. Quando completei dezesseis, meu sonho era ter dezoito. Com dezoito eu só queria voltar pros treze, mas aí o sonho parou: esse ano eu não completo treze, completo vinte. E aí a ficha caiu: o tempo não volta.

Acho que isso pode ser a crise dos vinte batendo à porta, mas porque começamos a nos importar com o tempo logo agora? Parece que com treze, quatorze, quinze… Parece que nessa época tudo é eterno, parece que o tempo inexiste, mesmo gritando em nossa cara que ele… bem, que ele passa.

E é engraçado só agora, com quase vinte perceber e sentir que as coisas são efêmeras e que o tempo que mais importa é o presente. Sempre acho que as minhas leituras vem em momentos propícios, pois bem: comecei a ler Um sopro de vida, de dona Clarice. E eis que cada frase tem me sido um tapa na cara.

E o que tem haver o livro com o post de hoje, Igor? Pois vejamos um trecho:

Na eternidade não existe tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me e ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. O paroxismo da mais fina e  extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia. (Um sopro de vida, p.14)

O tempo não existe… Enxergam o peso disso? O tempo não existe porque ele é agora. Ele é esse ínfimo segundo que digito e apago e digito novamente e ele vai ser um agora diferente quando alguém ler e eu não terei mais o tempo de treze anos, mas tenho meu tempo de agora e isso assusta. Talvez cheguemos a um momento da vida em que o futuro já não encanta tanto. Talvez estejamos tão cansados do amanhã que só desejemos o velho e reconfortante quintal de casa depois da chuva.

Eu não sei bem o que acontece. Talvez eu esteja com medo (mais uma vez), talvez eu esteja descobrindo que me ser é mais difícil do que a inocência do não conhecimento. Talvez eu só queira que o ônibus atrase um pouco pois a parada está próxima e nesse momento as coisas não são tão seguras.

É engraçado esse ato do escrever, esse ato de refletir ao escrever, de desvendar a própria dúvida (pois se escrevo é porque algo não se traduz). Agora, nesse meu hoje efêmero vejo que o talvez é a única certeza. mas eu não posso deixar o talvez me travar, não mais, não agora com quase vinte. Acho que entendi que o agora é o agora e tudo deve ser feito. O medo não compensa a recompensa…

Tudo é confuso, eu disse… Não sei bem onde estou. Só sei que estou com quase vinte anos. E parece que agora os sonhos estão mais palpáveis, mas de suas maneiras e isso assusta também. Daqui dois anos me formo no curso que sempre sonhei (mesmo antes de saber que sonhava, eu já sonhava. O pré-pensamento. O pensamento sem palavras e sem cor – tá aí mais uma referência de Um sopro de vida que super se encaixa nisso tudo), mas não sei se estarei pronto (ou preparado) pra seguir outros sonhos (será que um dia eu estarei?). Daqui um mês apresento um projeto que pode me abrir portas incríveis. E tudo começa a dar voltas em minha cabeça…

Engraçado, pois a palavra agora se torna tão nula… O que eu quero dizer ainda está intraduzível. É um pré-pensamento.

Acho que por hoje é isso. Concluo só que o medo agora é menor.

Vamos nos valorizar, manxs!

De uns tempos pra cá tenho escutado muito sobre relacionamentos (não) abusivos. Isso é um grande avanço. Relacionar-se é uma necessidade humana, mas relacionar-se não combina em nada, como já sabemos, com violência (seja ela qual for).

Porém às vezes a gente se esquece que relacionar-se com alguém exige uma coisinha chamada reciprocidade. Dividir um trecho da vida com alguém é como aquela performance da Marina Abramovic (ver imagem a baixo), se um soltar, se um faltar com essa reciprocidade, essa igualdade, o outro vai ser bombardeado de alguma forma.

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Rest Energy, 1980

Estar com alguém ultrapassa as palavras, ultrapassa o eu. Estar com alguém envolve respeito, envolve o ouvir, envolve o falar. São dois corpos que, juntos, se transformam e se interligam de uma maneira muito pessoal.

E o que tudo isso tem haver com o início do texto, Igor? Muitas, mas muitas vezes mesmo nos permitimos estar em relacionamentos que nos diminuem de formas subjetivas. Quantas vezes nos permitimos ir para lugares em que não nos sentimos a vontade simplesmente para agradar o parceiro? Quantas vezes pensamos duas vezes antes de usar determinada roupa por conta do nosso parceiro (e quantas vezes usamos roupas que nem gostamos só para agradar o parceiro?) Sem contar as vezes em que a pessoa diz gostar de ti, mas não tem coragem de apresentar-te pra família, pros amigos ou sair com você pra um restaurante, por exemplo. O que acontece, por vezes em nossas vidas (talvez não na sua, mas na de muita gente) é que achamos que um relacionamento de qualidade (ou não abusivo) está atrelado simplesmente à ausência de violência física, mas não é por aí.

A violência psicológica tá bem aí batendo na nossa porta toda vez em que a gente se priva ou se submete a situações só pra agradar o outro. E quando fazemos isso, simplesmente permitimos que o outro solte a flexa e nós, sozinhos, mantemos um relacionamento, sofremos caladinhos por medo do término.

(Esse texto tomou uma proporção que eu não esperava, mas vamos lá que é isso aí).

Manxs, relacionamento tem que ter uma coisa, como já disse: reciprocidade. Mas agora eu vejo que só reciprocidade não basta: é preciso que o outro tenha orgulho de quem tem do lado e ter orgulho está associado a você ter a liberdade íntegra. Usar o que quer, não ter medo de dizer não, não ter medo de trocar o mozão pelos amigos uma vez na vida. Esse orgulho ainda tem muito haver em assumir. Se eu tô com alguém é porque gosto e não vejo motivo de esconder o relacionamento. Se o esconder é uma necessidade, alguma coisa tá meio errada nesse rolê. Amor é lindo e deve ser exposto sim!

Acho que por hoje é isso. Vamos nos valorizar. Vamos nos amar e não permitir que abusos passem. Se o cara é abusivo, manda ele embora. E eu te garanto: um dia vai aparecer alguém que vai gostar de você, que vai te assumir, que vai se orgulhar em te olhar  e saber que te tem com ele(a). Vamos viver o amor sendo amor, não em relacionamento abusivo mascarado.

 

Ei, respeita teu tempo!

“O negócio era ser corajosa e ousada e realizar alguma coisa – pensou consigo mesma. Não exatamente mudar o mundo, só um pouco à sua volta. Sair por aí com o diploma com honras de primeiro lugar em duas matérias, muita paixão e a nova máquina de escrever elétrica Smith Corona e trabalhar duro em… alguma coisa. Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Escrever coisas bonitas. Agradar aos amigos, continuar fiel aos próprios princípios, viver plenamente, bem e com paixão. Experimentar coisas novas. Amar e ser amada, se possível. Comer com moderação. Coisas assim.” Um dia.

Hoje, sábado, acordei, tomei meu café, arrumei o quarto (que por um milagre não estava tão desorganizado), escutei umas músicas pra animar o dia e fui, então, começar meu trabalho do dia.

Preciso planejar algumas aulas, então abri uns livros na mesa, preparei o caderno, me sentei e comecei. E aí me veio uma coisa, uma lembrança, um flash de um ano atrás.

Há um ano, como vocês estão cansados de saber, eu comecei a cursar Licenciatura em Artes Cênicas  na UnB e naquela época eu era uma coisa muito imediatista. Em dois meses de aula eu já queria ser uma Fernanda Montenegro da vida, queria ser incrível com uma carreira consolidada, uma independência formada… Coitado do inocente.

Com pouco tempo de aula eu me frustrei muito. Como disse a cima, eu queria o agora, queria na segunda (porque se eu chamo pra segunda, não vem quarta, não vem quinta. Segunda eu tô linda, na quarta eu sou cinza. RESSUSCITA). O problema é que o agora é um processo pra uma coisa que há de chegar (é o tal do vir a ser). A gente precisa usar o agora pra construir o futuro que, em algum instante, vai se tornar presente. Só que eu não entendia.

O semestre acabou, o outro começou e então cursei Interpretação teatral II, com um professor que foi peça mestra no meu entender do presente como construção (Glauber, obrigado). O seguinte aconteceu:

Começamos a estudar Stanislavski. E como desenvolver a técnica sem prestar atenção no meu tempo? Lá pelo meio do semestre eu entendi e compreendi e comecei a viver isso: o hoje. Aproveitar o que sou e o que tenho agora pra começar a construir meu amanhã. Tijolo por tijolo. Ter paciência pra vida. Oras, demorei nove meses pra nascer, deveria eu compreender que as coisas também não caem do céu.

Hoje eu estou conseguindo viver e produzir intensamente no presente. Enxergar o futuro como uma obra que vai sendo construída no agora e não que surge de repente. O negócio, acredito, é ser corajoso e ousado e realizar alguma coisa. E é exatamente isso:

Ousemos no hoje.

Vivamos o hoje.

Criemos e fortaleçamos HOJE.

O amanhã é muito improvável. Respeitemos nosso tempo do agora. Não tenhamos pressa, os caminhos mudam, as ideias mudam, coisas surgem… E não ache que é uma perda de tempo ser o que você é hoje, acredite: haverá um reflexo disso no amanhã.

Realizaremos sonhos? Serei um grande professor-ator-artista? Eu não sei. E nem quero saber agora. O que eu quero é fazer algo, mudar um pouquinho ao meu redor no hoje. Construir meu futuro(presente) tijolo por tijolo. Pensar no amanhã, mas nunca esquecer que existe um agora, um hoje e é nele que estou vivo. É nele que posso me ser na maior completude.

Acho que por hoje é isso. Entendam e respeitem seus tempos. Ele é agora, é um processo. Somos processos em andamento.

 

Continuar ou desistir?

Há algum tempo não dou o devido cuidado a esse espaço aqui. Muitas coisas mudaram, muitas experiências vieram… E o desejo de escrever voltou. Não mais apenas textos, mas tudo aquilo que roda nessa cabeça, que passa pelas mãos e pelos olhos… De uns tempos pra cá eu tenho pensado muito em minha vida acadêmica…

Pois bem, há um ano comecei a cursar artes cênicas, numa boa universidade, foi felicidade que parecia não acabar. Era o meu sonho! Mas no meio do PRIMEIRO SEMESTRE (logo no primeiro) o curso começou a indagar: é isso mesmo que você quer? E eu me peguei pensando: é isso mesmo que eu quero?

Foram dois semestres, desde então, de muitas crises, choros pela madrugada, quase trancamento de matérias (e olha a loucura, as matérias que eu quase tranquei foram as mesmas que eu tirei mensão máxima – a dificuldade, a angústia também são construções)…. Mas continuei… E por quê continuar?

Foi continuar de verdade ou (re)começar?

No fundo a gente sempre sabe quando uma coisa vale a pena, sempre sabe quando um sonho ainda deve ser sonhado. Dentro da gente sempre vai ter, ainda, aquela vozinha que diz não, que diz para, que diz muda… Mas sempre vai ter uma voz maior que diz continue, vai em frente, você chegou até aqui, você sabe que é capaz. O negócio é saber qual voz você vai escutar.

Confesso que por vezes escutei a voz baixa e negativa – e aí eu chorei vendo vídeo de superação, escutando Marília Mendonça, assistindo vídeo de Tente não chorar – mas logo em seguida eu parei, olhei pra mim, olhei pro meu sonho e passei a escutar a outra voz.

Foram dois semestres que provavelmente voltarão em algum momento, mas eu prefiro continuar, cair e levantar, levantar e cair, mudar, refletir e ver que meu sonho é meu. Único. Grande. E pode parecer impossível – ser professor (vide, professor) de teatro – mas é no impossível que eu quero fazer morada, fazer força.

E por hoje é isso. Estar disposto e aberto ao devir, ao que a vida traz. Cair, chorar com música triste por não se achar capaz no que se faz, mas depois levantar e perceber: você chegou até aqui! É seu sonho! Vale a pena continuar!

Tu não te moves de ti

Um azul bem claro e profundo habitou meu coração hoje. Ele veio manso, calmo, alojou-se aos poucos. Eu que nada esperava, continuei, deixei-o. Disse que podia ficar um pouco, ora, visita nova entra e toma um café. E ali ele sentou, e falou.

***

Esse azul bem claro e profundo me trouxe momentos, um momento intenso de quem sou eu? Será que sou? Um momento tão fundo que me fez parar. Todo mundo é um pouco, até vazio pode ser. Mas e eu? O que eu era depois de ter sido?

***

Depois de um tempo de quem sou, esse azul me soltou uma frase, rindo, entre seus dentinhos tão peqenos. Disse que era de Hilda, acreditei. Tu não te moves de ti era a frase. Tu (me eu) não te (me) moves (movo) de ti (mim, eu, agora). Tu não te moves de ti. Eu não me movo de mim… Grande azul que habita o meu peito, nesse momento percebi que sim, sempre sou eu. Se tento fugir  do eu que sou acabo entrando em outro eu que não sou, mas continuo sendo Eu… Que peso carrego por ser eu? Que peso possuo por ser? Eu não me movo de mim. Sempre me sou, mesmo quando não me sei.

***

Decidi expulsar o azul de dentro do meu peito. Me veio a necessidade da agressividade. Fuja daqui, fuja desse sertão exilado que sou de alma. O azul não queria ir embora. Me disse que era o lar mais lindo que possuiu, pois era único. Único… Me sentei. Eu não me movo de mim, e sou único no que sou. Único. Nem uma célula é igual a outra. Único, renovado de criação. Se eu sou único, logo só eu posso me ser. Se só eu posso me ser, que peso carrego? Eu tenho em minhas mãos o poder de ser, não ser ele, mas de ser eu. Não o reflexo do espelho, mas eu. O peso que escorre.

***

Naquela noite choveu. Uma chuva rala e fria, uma chuva que não acabava. O azul dizia estar quente, mas eu sentia frio. Era como se alguma coisa naquele dia tivesse me sido roubada, como uma manta que me tivesse sido tomada. Eu não me movo de mim, mas naquele instante eu já não era mais eu. Eu era outro que continuava sendo eu. Mesmo que eu desejasse, eu não conseguia me mover de mim. Um outro que já não se reconhecia no passado, mas que continuava me sendo. Uma borboleta que sente o amargo da lagarta, mas já não a é. Se uma agulha cai no palheiro e eu a acho, ela é a mesma agulha? E eu sou o mesmo procurador? Ninguém se move de si, mesmo quando o si não se é reconhecido. É um ciclo e o azul continua impregnado dentro do meu peito. Ele ecoa.

O grão e a gota e eu e nós

Quando vejo uma gota de água caindo na janela enquanto chove, paro e me pergunto, será que sou tão forte quanto esta gota? Pois bem, ela caiu ali, naquela janela e luta para não parar. Continua seu percurso e nesse instante percebo: essa gota é. Num meio a tantas outras gotas, tantas juntas formando um temporal, aquela se destaca por ser. Por ser calmaria, por trilhar o caminho oposto, ela é por que tem a fortaleza de continuar seguindo mesmo sabendo que vai chegar a um final.

Eu queria ser igual a uma gota de água ou um grão de areia, saber a grandiosidade da pequenez, pois ora, o que somos se não grãos? E esse é o grande problema, não aceitar essa capacidade. Um homem anda com uma arma nas mãos e se sente maior que um elefante, mas se um elefante tivesse perto dele, com um único chute, o mesmo homem, com a mesma arma seria absolutamente nada. Um homem no chão. O que falta é a compreensão que sozinhos somos grãozinhos tão perdidos, mas ainda assim somos. Temos nomes, objetivos, essências. Mesmo grão somos e fazemos a diferença.

Falta entender que não há um grão maior que outro, todos são iguais. E todos precisam lutar como uma gota de água que cai da janela.

Falta entender que grande mesmo só o amor. Grãos juntos por objetivos compartilhados formam mais amor. E eu queria mesmo ter a força de um grão, queria me ver grão, pequenino, semente que ainda não germinou.

E há quem diga que o grão não é importante, mas sem o grão em conjunto não há a terra que cobre a semente, sem a gota em conjunto não há a água que rega a planta. Preciso entender que o grão luta para o coletivo e o coletivo também faz o grão.

Será que também sou sal da terra? E se o sou, será que o sei?

Nota de abraço n° 1

 

E eu tenho que lhe confessar: seu abraço me acalma até no momento de mais raiva. Eu me fiz pó, me fiz terra, me fiz nada. Fiz-me tudo em um único abraço. Sem nexo eu digo que meu coração estava quebrado, eu lembro da sua dança com outros e eu ali, sozinho bailando em cada pedaço do que restou de mim, eu lembro de você tocando outros cabelos enquanto os meus caíam aos montes por dor de estarem ao vento sozinhos. Eu lembro dos meus olhos, duros, seguindo a caminhada, eles tão neutros, tão frios, tão úmidos enquanto você sorria com os seus. Você foi tudo e eu, mais uma vez, nada. Mas o seu abraço me acalma. Eu sofri calado naquele instante, odiei os homens, odiei as crianças, as mulheres, os padres, os pais eu me odiei, mas você veio. No fim, quando a linha de trem já parecia perdida você veio, quando eu já estava caindo você veio e você veio com meu sustento. Seu abraço me acalma e faz com que os olhos digam algo que a boca não é capaz, seu toque doce, suave que ainda cravado em mim está, deu-me a paz, a paz que você sem nem saber tirou. E repôs e sei que vai tirar novamente.

O teu abraço me fez mais gente, me fez mais eu, talvez não eu de antes, mas um eu melhor. O teu abraço me deu a paz de acreditar em você. Você e você. Éramos eu e você. Você e teu abraço que me agarrou e me ninou, o abraço que me coube e me protegeu do mundo, o abraço que veio quente quando muito frio eu sentia, o abraço que eu queria pra toda vida mas tive por menos de um segundo.

Eu confesso que naquele instante eu queria sussurrar em seus ouvidos “lembra que tu é especial garoto, se eu pudesse te levava pra uma ilha e te faria o homem mais feliz do mundo”. Mas me calei, a boca tremeu. Nosso toque disse muito, eu queria ser seu braço, sua perna, seu cabelo, seu. Queria ser meu e seu na nossa ida ao teatro, queria ser você na dor e nós no jantar. E naquele abraço eu fui tudo ao mesmo tempo que fui nada.

E no fim daquele abraço acho que me perdi um pouco, já que dentro de teus braços tatuei todos meus segredos mais ocultos. No fim, olhar nos teus olhos me deu medo. Medo de ser a última vez e teu rosto tão tristonho, tão sedento de dizer algo me fez partir e eu já não gostava mais dos homens, nem das grávidas nem das flores. Eu já não tinha teu abraço.

E a lembrança tua de outros abraços com outras pessoas e de outros toques me levou de volta à dureza de meus olhos. Mas é isso que acontece,  otempo é efêmero moço. Coube a mim tatuar em minh’alma todas as cores e texturas daquele lar que chamei de teu abraço.