Corra Igor, Corra

"Eu quero fazer silêncio, um silêncio tão doente do vizinho reclamar!" – Chico Buarque

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embuste

Eu queria voltar a escrever como escrevi um dia. Dessa coisa que perfura algo dentro de mim e sai. Sai flor, flor com espinho. Mas eu não consigo. Parece tudo água, que corre e eu não capturo na essência. Tudo foge, tudo evapora e eu não consigo. É efêmero.

Mas não quero falar da escrita, ou de como já não percorro os caminhos que percorria quando bem ou mal, conseguia expor em letras, signos, símbolos e toda essa coisa de semiótica, aquilo que se passava.

Mas dói. Tem alguma coisa que ainda dói. E machuca, fere, é forte. É como um carro em alta velocidade que se depara com outro. Bem de frente. É um acidente entre dois (três, um) corpos.

O acidente que me ocorre todas as vezes que eu vejo. Que eu lembro. A lembrança é um fardo nesse momento.

Você já se sentiu traído? Trocado? Descartado?

Você já sentiu como se uma pedra atingisse em cheio o seu coração e essa pedra, em alta velocidade foi arremessada por alguém que você não esperava?

Eu sei que é só uma noite fria, uma madrugada que passará.

mas ela nesse instante é presente. e eu não sou forte o bastante para a noite.

tenho medos, tenho frio. tenho fome. fome de mim.

e meu único desejo é transformar em borrão tudo isso. mas isto é tatuagem. não há como escapar.

e em meio a dor eu só consigo perceber uma coisa: é hora de me ser.

me reconstruir.

e aprender a dizer não. não quando você pensar em voltar.

será que você pensará nisso?

eu espero que não.

quero encontrar a entrada do paraíso. Na minha glória. Na minha vitória.

Quero o jardim.

eu te peço perdão por não ter sido suficiente. e te perdoo por você não ter sido homem o bastante para a verdade.

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Antídoto

A tarefa mais difícil é dar sem receber.

Passo horas repetindo e repetindo que o mundo precisa de

Afeto.

Mas me esqueço que faço parte do mundo e

Me esqueço que dentro de mim há um algo que pulsa

E que existem anseios, desejos e necessidades.

E mesmo me esquecendo me permito doar-me.

Tiro de mim o que no outro possa vir a ser.

E assim me esvazio.

E me encontro num barco raso, sozinho.

Levanto-me a cada dia colocando as

Expectativas em tudo aquilo

Que eu nem sei ao certo se me traduz.

Hoje eu só queria sair para dançar

Num lugar só meu

Onde eu me escutasse e minha voz fosse

Fortaleza (minha).

Hoje eu não quero me doar

E se me doar, que seja para mim. De eu para eu.

Esse eu que anda meio perdido, anda meio sombra

Sem face.

Eu quero me amar assim como te amo,

Nessas curvas e virgulas e me perder no suor

Do meu próprio gozo.

Eu quero me ser.

falando em flores,eu já te disse que você combina com as rosas?

olá,

hoje eu fugi do papel. mas preciso te escrever. preciso dar-te o que é teu por direito. eu disse que aquela seria a última carta e bem, ela foi. isso que escrevo direciono ao mundo. preciso começar dizendo que sinto sua falta. desde aquele dia frio de julho em que te vi mais homem, mais longe, mais só… e eu me arrependo muito de não ter feito algo. algo antes, algo enquanto éramos um fragmento do outro.

essa semana algo me invadiu e eu não sei como conviver com isso. é um nó no estômago, uma vontade de gritar palavras que me fogem, palavras que eu desconheço, eu quero gritar o adeus. mas ainda temos um laço, um cordão umbilical. mas eu quero terreno novo, esse já está desgastado, só me traz dores de parto, quero logo a coisa viva em meus braços.

nesse momento eu me lembro de um domingo de junho, você e eu dentro do carro, eu me sentia tão bem, o sol batia pela janela e tudo parecia conectado. eu pensava em um nós. tocava uma música serena. doce igual teu beijo. e eu devia ter mandado você parar em qualquer acostamento e te pedido pra descer e dançar comigo. e no fim da dança fazer o pedido que une pessoas. você aceitaria?

ontem sonhei com você. sonhei que íamos ao bar. você estava estressado. eu levava flores, chocolates e um par de alianças. te chamava pelo nome e sobrenome, pedia para que você ficasse de pé, me ajoelhava e fazia o pedido. e prometia: tentaria te fazer o homem mais feliz que existe nesse mundo.

mas eu acordei.

eu sei que vai passar. e foi eterno enquanto durou. amanhã é um novo dia e nossos caminhos seguirão nos levando a novos lugares. e você encontrará um outro alguém e eu encontrarei um outro alguém. e quem sabe daqui dez anos, quando você tiver quase quarenta e eu beirando a casa dos trinta, nós olhemos para o nada numa tarde de domingo e perguntemos ao vento “por onde andará aquele?”

eu não sei.

quero poder te dizer que eu realmente amei. amei muito e bonito e doce. e foi amor porque não houve dor, até agora. acho que agora virou paixão. ou faca de uma ponta só. parece uma cena de Closer. aquela em que a Natalie Portman diz “I don’t love you anymore”. ah, boa era digital que me permite deixar aqui a cena https://www.youtube.com/watch?v=jBZOc1Ddy8w

mas não fique triste. o que sinto não é dor, de fato. é só um pouco de realidade que respiro. a gente não tá pronto pra dizer adeus. pros términos. mas passa. logo se passa e logo se renasce.

amanhã já serei flor nascida e forte.

falando em flores,eu já te disse que você combina com as rosas?

adeus, enquanto ainda consigo andar com as minhas próprias pernas.

Não me grite o silêncio

Sempre que penso em silêncio, me lembro dos sucessos da MPB de 2000. Talvez pela serenidade, calmaria que essas músicas passam, mesmo isso sendo o oposto do que o silêncio me causa.

Eu sou das palavras, eu falo, falo e enquanto meu peito pede, eu falo mais. Não consigo guardar coisas que me fogem, coisas que pedem para ganhar vida. Por isso escrevo. Escrevo para me comunicar com o outro, escrevo para me refazer e me recriar, para que eu não seja para dentro.

(Engraçado pois, em Água Viva, Clarice diz que escreve a este outro para, também, se comunicar de alguma forma com ele, mas enquanto fica presa à escrita, se torna um silêncio).

Voltando ao silêncio. Me agonia todo, me fere. Ele, o silêncio, é um algo que eu gostaria de dominar, pois ele diz muito. Ele fala sem se dizer. Ele é uma entrelinha. Mas eu não o sei. Eu não o suporto. Gritem por favor, berrem, digam, mas não me deixem só com seus silêncios.

Sinto o silêncio frio. Uma noite muito fria, com ventos cortantes. Eu não sei o que se passa contigo no silêncio, eu não sei quem estás sendo dentro desse vazio cheio de algo que não me chega.

Dê um sinal de vida. Peça um tempo. Diga não. Mas não me deixe com o silêncio. Sou bicho ansioso, crio possibilidades em minha mente. O silêncio me permite acreditar no que não deveria. E aí me frustro.

No silêncio eu sou só frustração.

E ele me cansa todo. Me sinto exausto. As coisas não são tão difíceis, basta ser sincero com o que quer que seja. O silêncio vai me consumindo porque ele é em uma dimensão que eu não capturo.

Eu não sei mais, estou cansado. Veja, convivo agora com o silêncio.

Fico com teu silêncio e faço dele palavras que gostaria de ouvir.

Sou mais frágil do que eu.

Sobre deixar(-se) ir

Particularmente, tenho uma grande dificuldade com términos. Não que eu os impeça, deixo que aconteçam, mas é igual mãe quando o filho sai de casa: uma dorzinha fica. E martela, martela e martela.

Há poucos dias tive mais um término. E percebi como é necessário deixar que os outros voem e como é muito importante aprender a voar também. Antes de prosseguir, vou fazer um pedido: abre uma nova guia, abre o youtube e pesquisa a música “binóculos”, de Letuce. Dê o play.

Voltando ao término: foi um caso que durou onze meses e três semanas. Muitas idas e vindas, muitos amores guardados, muita felicidade, angústia, dúvidas… Foi um período de muita aprendizagem, de muitas descobertas, mas não posso negar, de umas afincadas também. E acabou.

Nesse período de onze meses e três semanas (e talvez algumas horas ainda) eu acho que amei um pouco, amei o outro e aprendi por vezes a me amar também. Mas houveram grandes receios de minha parte, eu tinha um medo de permitir a entrada de alguém na minha vida. E agora eu entendo aquela frase de mãe que diz que a gente não quer que alguém veja a bagunça do nosso quarto. E assim sendo, por meu quarto, quarto-coração no caso, ser uma bagunça eu nutria um medo. Medo de que alguém o visse e fugisse. Se eu mostrasse o desajeitado que sou, será que alguém permaneceria?

Porque é isso, a gente cria máscaras pra viver. Desejo diariamente uma imagem de ter nas mãos a vida, de saber sempre o que estou, mas por vezes sou frágil, choro fácil, me dói inteiro pequenas coisas e mostrar isso é difícil. Estar diante do outro é difícil.

e esse término me foi difícil. Mais difícil que alguns outros. Sabe quando você tem diante de si alguém que é luz? Que te faz mais você, que, de alguma forma, te completa? E quando essa parte, essa figura desaparece, parece que junto leva alguma coisa de precioso consigo. E foi aí que eu entendi: as pessoas precisam seguir.

Acompanhe o pássaro, mas não atrapalhe o voo. não tente olhar com as mãos,  estar perto requer outros dons…

Seguir e seguir e seguir. Dói? Sim. Muito. Parece martelo em ponta de faca. Galinha sendo degolada. Mas é preciso, logo passa. Passa porque também precisamos seguir e ir por toda essa trilha que é nossa. Que é única. E que é secreta.

Hoje ainda dói. Foram onze meses e três semanas. Mas fico calmo e acredito no dia seguinte: acabou, mas coisas boas ficam, imagens ficam e a certeza de que se viveu também. As pessoas não morrem dentro de nós.

O fim, hoje, me parece mais um recomeço. Que seja doce, como diz Caio F. E que saibamos, a cima de tudo, nos perdoar. O fim é um ponto, mas depois do ponto a gente inicia um novo parágrafo, um novo capítulo, um novo livro… A gente se refaz.

Cê ainda tá escutando binóculos?

Pois bem, temos que ser assim como afirma letuce, ter coração de espuma. Não atrapalhar. Ser dessas que tem binóculos.

Que o fim seja um recomeço para cada uma das partes. Um recomeço feliz, cheio de descobertas. E que o fim sirva de reflexão também. É o momento de nos sermos um pouquinho mais.

E não, não foram onze meses e três semanas perdidos. Foram, pelo contrário, ganhos. Vivemos o que deveríamos ter vivido. Houve construção.

E acabou, somos pássaros que precisam voar. Não sejamos joão de barro. Vamos borboletear por aí.

E que tenhamos coragem para recomeçar. Voar em novos ares. Não ter medo de revisitar lembranças, mas saber que, visita não é morada fixa. Precisamos nos reconstruir mais uma vez.

Dois anos

Hoje completamos dois anos. Dois anos de comentários, de textos, de likes. Dois anos de vocês comigo. Dois anos de sumiço e volta. Dois anos de vida.

Comecei aqui a escrever no final do meu ensino médio. Aquele sentimento de não saber e até de não pertencer me inundava. Foi um ano difícil. Houve cirurgia, houve prova, houve vestibular, crise, choro, dúvidas… Mas passou. E aqui compartilhei muito do que acontecia. Momento eternizado.

Um ano depois, estava eu na universidade. Eu. Universitário. Artes Cênicas. E mais dúvidas, mais crises, quase desistência… Mas muita descoberta. Eu me descobri um pouquinho mais. O mundo me mostrou um pouquinho mais de sua (ou não) beleza.

Hoje aqui estou. Primeiro dia de férias. Dois anos do blog. Ainda universitário. Artes Cênicas. Peça em processo de montagem. Aprovado na iniciação científica. Pesquisador (ou pseudo, como queiram) de teatro performativo. Professor. Mas ainda assim, chorão, sentimental, quieto, de poucas palavras. Ainda um sonhador.

Confesso que odeio essas introduções que faço nos posts, mas de lá pra cá, de dois mil e quinze para dois mil e dezessete, consegui me ser sem máscaras. Hoje eu não preciso mais da grandiosidade das palavras bem colocadas numa frase. Aquilo não me era de fato. Hoje eu consigo me ser apenas no que flui. Sem muito pensar. Aquilo que emerge e se torna frase. Isso que me sou.

Em dois anos mudamos muito e como é prazeroso perceber essa mudança. Se eu voltasse no tempo e me visse no futuro eu teria orgulho. Estou onde sonhei estar. (Ou estou no caminho para onde quero chegar). E não me  arrependo de ter sonhado e de continuar sonhando. De acreditar mesmo querendo desacreditar. De continuar mesmo querendo às vezes desistir. o sonho acordado é que é realidade, já dizia Clarice em um sopro de vida (se não me engano muito).

E eu acho que a vida é exatamente isso. Clarice (obrigado por me salvar tantas vezes) já havia me avisado: ser apesar de.

Apesar da dificuldade

Apesar dos obstáculos

Apesar de nós mesmos.

Ser apesar de. Cada dia. Levantar-se olhar a janela e acreditar: este é mais um dia para ser apesar de. E nunca desistir. Nunca desacreditar. (Claro que em alguns dias o desistir vai ser um pensamento bem presente, mas basta respirar fundo e pedir mais cinco minutinhos. Tudo vai dar certo!)

Hoje eu sou muito feliz com tudo que passei. Hoje sou muito grato pelo lugar que ocupo. E sou grato por ter aprendido com todos os mestres (e mestres não são só os acadêmicos, a vida é cheia de grandes) que viver cada dia de uma vez sem se esquecer quem se é (ou uma parte do que se é) pode nos levar além…

Hoje eu sou Igor, 19 anos. Graduando em Artes Cênicas. Aceitando todos os desdobramentos. E, a cima de tudo, um sonhador.

Obrigado a todos que nesses dois anos fizeram parte dessa grande colcha de retalhos.

Experiência em sala de aula #1

“Se recebo dor, se devolvo amor… E quanto mais dor recebo mais percebo que sou indestrutível.” – Pabllo Vittar – Indestrutível

Éramos três. Uma turma de metodologia do ensino do teatro. Um plano de aula para adolescentes de ensino médio. Trinta minutos.

O papel da turma era ser, nesse instante, a dita turma de ensino médio. Alunos de Artes cênicas interpretando uma turma de ensino médio para que um trio aplicasse um plano de aula. E nesse contexto eu me senti incapaz.

Começamos com um exercício de apresentação, que não funcionou como pretendíamos. Como lidar com o imprevisto? (seria a sala de aula o local da performance?)

Aquilo me abalou e eu não soube como prosseguir. Os alunos agiam como alunos e aquilo fez, para mim, uma ponte gritante entre presente e passado. Aquela turma era a mesma turma que, por vezes, tive que estar inserido enquanto aluno. No entanto algo gritava, durante o exercício, dentro de mim: eu não era assim. E, então, a primeira ficha caiu: eu não sou o outro. Meu papel ali não era ser o outro, mas ouvir o outro, entender essa persona outra, conseguir trazê-la, dentro das suas limitações, para a proposta. Falhei.

Em meio as risadas, aos deboches, as inseguranças mútuas, eu me vi caindo da corda. Agradeço, hoje, as minhas colegas de trio. Elas tiveram a força que eu não consegui ter, tomaram em mãos grossas a situação. Já eu comi pelas beiradas.

No momento seguinte eu deveria aplicar um exercício. Já desestabilizado, sem atenção dos alunos, sem a abertura destes para o novo, eu não sabia como fazer. Logo eu, que pensei entender as falas de Viola, de Desgranges, de Boal, de Brecht, de tantos outros… Bem ali eu vi: a teoria e a prática nem sempre andam juntas. E eu não tinha a prática… A prática é navalha que corta, te tira de si para se doar a um outro fechado ao por vir. Eu era um nada naquele instante.

E naquele momento de tentar explicar o exercício, eu, já cansado, me vi calando a voz de outro. Calar a voz. No instante eu vi: manter um discurso na vida prática não é fácil. Calei, logo eu, que defendo a fala do desconhecido, a voz ouvida do que quase não é ouvido…

Desisti.

Depois disso, eu me fiz instante de fora. Observei. Abandonei o barco, eu não tinha mais forças. E com isso diversas vozes vinham até mim: “numa sala de aula real você também abandonaria?” “é assim que você se faz professor?” “você é realmente capaz?”

Eu me senti a pessoa mais incapaz.

Durante esse processo alguns alunos saíram da prática, me senti na obrigação de perguntar se tudo estava bem, e ouvir um “sim, só não quero fazer a aula” foi mais um apunhalar.

Incapaz mais uma vez.

Quando o trabalho acabou, nos sentamos em roda e agora, todos novamente estudantes de Artes Cênicas, pudemos falar. E eu prometi a mim mesmo: eu não vou desmanchar agora. Impossível. Se manter íntegro após ver que você está mais longe do que pensou do ideal criado é impossível.

Ouvindo a fala de meus colegas e, em seguida, ouvindo minha própria fala, eu não consegui, mais uma vez, e me permiti o mar de lágrimas que gritavam para sair. E chorei como uma criança desmamada, uma criança sem um doce, uma nação sem um sonho. Um torcedor vendo o fracasso do seu time do coração.

Mas em menos de dez minutos eu precisava me estabilizar. A aula acabaria e no próximo período começaria outra aula, na qual sou monitor. Eu precisava estar íntegro, mostrar que vale a pena estar ali, tentar ser conforto para indivíduos aos quais eu não sabia como havia sido o dia. Eu precisava sorrir. Espantar os fantasmas. E então eu, ainda em lágrimas, fui ao banheiro e em meio aquela má iluminação joguei água em meu rosto, olhei aqueles olhos inchados no banheiro e disse para mim mesmo, de eu, para eu mesmo: tudo vai dar certo. A próxima aula vai ser melhor. E assim voltei.

Arrumei a sala, apaguei o quadro e quando o primeiro aluno entrou, sorri. Perguntei se tudo estava bem e vi: realmente será diferente. 

Engraçado que um dos alunos me perguntou se tudo estava bem, o que havia acontecido, já que eu estava com cara de choro. Disse calmamente, contendo novamente as lágrimas: tudo está bem, tudo vai ficar bem, obrigado. E recebi um abraço. O afeto que afeta, que salva.

Depois desse dia cheguei a conclusão: ser professor é difícil e eu não estou preparado. Entretanto desistir não está em nenhuma das opções. Eu tentarei, dia a dia, ser melhor. A cada tropeço, a cada dor, respirarei fundo e perceberei: isso me faz mais forte, me permite me recriar. Ser do começo. Ser de novo.

Ainda vale a pena. Construir o afeto vale a pena.

Eu não sei como terminar isso, pois sinto que em mim essa experiência ainda não acabou (e talvez nunca acabe).

Eu só precisava falar sobre isso. E perceber que, sim, eu posso ser um bom professor. Mesmo caindo. Mesmo errando. Mesmo saindo da corda bamba às vezes. Talvez seja exatamente isso, lavar o rosto olhar pra frente e (tentar) fazer, na próxima aula, o melhor do melhor de mim, novamente.

Tem uns fantasmas que a gente não entende bem

Para ler ao som de Maria Bethânia

Eu bebia da vida em goles pequenos

Tropeçava no riso

Abraçava de menos

Quem me leva os meus fantasmas

Sempre que escrevo aqui eu tento ser positivo a respeito do que estou escrevendo, solucionar pequenos problemas, entende? Mas tem algumas coisas que eu não consigo solucionar sozinho.

Eu, assim como você, tenho medo. Medo de pato, medo de aranha e até de cobra. Tenho medo de andar na rua a noite sozinho (acredite, mãe, eu tenho!) Tenho medo de morrer, tenho medo de errar e até mesmo medo de tentar.

Minha mãe sempre me disse que precisamos correr atrás do que a gente quer. Sem medo. O não a gente já tem, mas e o abismo entre o sim e o não? Essa incerteza que vai mudar nossa vida, eu tenho medo é dela.

Eu tive medo de prestar vestibular pra cênicas (eu sempre falo sobre isso, pois dentre minhas conquistas pessoais, minha profissão é a que mais me orgulha) e fico me questionando se não tivesse arriscado. O que seria de mim hoje?

Tive um professor que me disse um dia que o medo pode ser uma forma de “forcinha” pra se realizar o que quer e que ainda te previne de uma queda brusca. Entendi com o tempo um pouquinho disso. Continuo tendo medo de pato, mas não tenho mais medo de tentar, por exemplo, por em prática meus projetos.

Entretando o medo tá revestido em diversas camadas e tem uma área na minha vida que sempre reina: a tal vida amorosa. Eu chorei com Closer. Eu chorei com 500 dias com ela. Eu chorei com A bela Junie. Antes do pôr-do-sol. Com todos esses romances. Eu me sentia parte. Eu tenho medo de tentar, eu  tenho medo do fim. Eu sou inseguro no aspecto amor. Mas o que é o amor? Eu amo tanta coisa de peito aberto, mas quando se trata de uma relação a dois, me dói o medo, a rejeição.

Há alguns dias eu conversava com você, leitor, a respeito do olhar para os lados. Mas vocês não imaginam o quanto é difícil para mim (e uma digressão: uso esse blog para trabalhar meus medos sim. Parece que me entendo quando escrevo e vejo que as coisas são mais tranquilas e fáceis). E aí eu me vejo num quarto com medo de tentar. Sabe, aquele flerte, ou o simples “te achei um cara legal, vamos sair um dia?”. Eu me apavoro no ato de tentar, do que o outro vai pensar, DE COMO ISSO VAI IMPACTAR MINHA VIDA. E nesses momentos eu me vejo num espelho e todos meus defeitos vêm a tona.

Eu só tenho medo de acabar sozinho. Eu tenho medo da solidão. E ela me assombra. 

E esse medo me faz caminhar em passos pequenos, me faz dar pequenos goles. Me faz viver me impedindo de tentar algumas coisas. Eu só queria fechar os olhos e pensar que eu tô numa aula de movimento e linguagem e que ali eu posso fazer tudo, me jogar de corpo e alma. Mas aí eu abro os olhos. E o medo me blinda de mim mesmo.

Quantos encontros perdidos pelo medo. Quantas pessoas passaram pelo medo. Quanto eu deixei pra trás pelo medo.

Eu travo quando encontro a possibilidade de me ser no outro.

Me travo pelo medo de tentar me mostrar ao outro. Da conquista. Do fazer… feliz.

Acho que por hoje é isso. Nós temos medos, eu tenho esses e não achem que o medo de tentar me relacionar é maior que o medo de patos, pois não é. Mas isso me dói; a insegurança. Que algum dia eu mesmo me retire os meus fantasmas do passado.

Olhar para frente nem sempre é a resposta

A gente deveria ser mais aberto as coisas que a vida coloca no nosso caminho. Ontem eu estava assistindo a um documentário lindo, As canções o nome, e um trecho me chamou muito a atenção. Em determinado momento uma das pessoas fala:

Eu passei tanto tempo tendo esperança que ele voltaria que não me permiti olhar para os lados.

E  não quero falar do esperar ele voltar, mas sim do se permitir olhar para os lados. Uma coisa que tenho percebido muito é essa necessidade que está se formando na gente de ser independente dos outros, quando digo isso me refiro a isso de ser super legal e influente em diversos lugares, mas quando alguém chega pra conhecer melhor a gente, as portinhas do legalzão do pedaço se fecham. A gente não permite que as pessoas entrem nas nossas vidas, que pessoas conheçam esse serzinho estranho que tem por trás do ser influente, politizado, desconstruído. E com isso muitas pessoas passam nos lados e a gente fica fazendo a Gisele na passarela da vida e no fim, papum, fica sem ninguém (e quando digo ninguém não me refiro só ao amor, mas em amizade também, hein!).

E por qual motivo? Olha, existem vários motivos que me permeiam e eu só posso falar deles que me habiam(avam), aliás, eles me foram vividos. O primeiro é o se conhecer, você se conhece, logo vê todos os pequenos detalhes ruins e bons. Isso é avassalador. Medo de que as pessoas conheçam as facas que a rosa possui. Mas também tem isso que já disse a cima. Essa coisa de precisar ser cool sempre, mas ter uma preguiça imensa de se aprofundar no outro, me passa agora que tem também o ponto da tecnologia, da rapidez das coisas. Como o tinder, passa pro lado e plau, um like. Muito rápido, muito fácil, ‘passar‘ se torna uma regra e aí aquele tempo que você poderia estar olhando pros lados e conhecendo alguém maravilhoso, se torna perda de tempo…

E isso é ruim. A gente é profundo. Precisa de tempo pra mergulhar nisso. Conhecer alguém exige paciência, vontade… E porque não ter essa vontade? Medo? Acho que a gente precisa ter os braços mais abertos pra vida. Tem tanta coisa que as pessoas podem oferecer, tem tanto que você pode aprender com o outro… E o outro com você também. Dar opotunidade a alguém de mostrar é dar oportunidade pra si próprio de conhecer (tanto alguém como a si próprio).

E pensando sobre tá aí a resposta pro sofrimento de “eu não consigo achar alguém legal/bom o bastante“: se permita. Deu errado? É a vida, meu amor. Do erro também se tira aprendizagem. E de erro(aprendizagem) em erro(aprendizagem) se forma o acerto. Abraçar o outro é se abraçar também. 

Além disso acho que quando a gente olha (se permite olhar) para os lados com os olhos despidos e receptivos, conseguimos nos colorir mais, possibilitamos o devir. Citando mais um trecho de As canções:

É como eu disse: deixei de ser um retrato branco e preto e me colori um pouco.

Bom, acho que por hoje é isso. Eu estou tentando a cada dia me permitir conhecer, deixar meus braços abertos ao que quer entrar. Viver, talvez seja isso. Que vivamos. Que nos deixemos olhar para os lados sem medo da queda.

Sobre o tempo, a palavra, o futuro…

Hoje eu não sei ao certo o que dizer. Há alguns dias me peguei pensando na idade… Esse ano completo vinte anos. Quando eu tinha treze, meu sonho era ter dezesseis. Quando completei dezesseis, meu sonho era ter dezoito. Com dezoito eu só queria voltar pros treze, mas aí o sonho parou: esse ano eu não completo treze, completo vinte. E aí a ficha caiu: o tempo não volta.

Acho que isso pode ser a crise dos vinte batendo à porta, mas porque começamos a nos importar com o tempo logo agora? Parece que com treze, quatorze, quinze… Parece que nessa época tudo é eterno, parece que o tempo inexiste, mesmo gritando em nossa cara que ele… bem, que ele passa.

E é engraçado só agora, com quase vinte perceber e sentir que as coisas são efêmeras e que o tempo que mais importa é o presente. Sempre acho que as minhas leituras vem em momentos propícios, pois bem: comecei a ler Um sopro de vida, de dona Clarice. E eis que cada frase tem me sido um tapa na cara.

E o que tem haver o livro com o post de hoje, Igor? Pois vejamos um trecho:

Na eternidade não existe tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me e ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. O paroxismo da mais fina e  extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia. (Um sopro de vida, p.14)

O tempo não existe… Enxergam o peso disso? O tempo não existe porque ele é agora. Ele é esse ínfimo segundo que digito e apago e digito novamente e ele vai ser um agora diferente quando alguém ler e eu não terei mais o tempo de treze anos, mas tenho meu tempo de agora e isso assusta. Talvez cheguemos a um momento da vida em que o futuro já não encanta tanto. Talvez estejamos tão cansados do amanhã que só desejemos o velho e reconfortante quintal de casa depois da chuva.

Eu não sei bem o que acontece. Talvez eu esteja com medo (mais uma vez), talvez eu esteja descobrindo que me ser é mais difícil do que a inocência do não conhecimento. Talvez eu só queira que o ônibus atrase um pouco pois a parada está próxima e nesse momento as coisas não são tão seguras.

É engraçado esse ato do escrever, esse ato de refletir ao escrever, de desvendar a própria dúvida (pois se escrevo é porque algo não se traduz). Agora, nesse meu hoje efêmero vejo que o talvez é a única certeza. mas eu não posso deixar o talvez me travar, não mais, não agora com quase vinte. Acho que entendi que o agora é o agora e tudo deve ser feito. O medo não compensa a recompensa…

Tudo é confuso, eu disse… Não sei bem onde estou. Só sei que estou com quase vinte anos. E parece que agora os sonhos estão mais palpáveis, mas de suas maneiras e isso assusta também. Daqui dois anos me formo no curso que sempre sonhei (mesmo antes de saber que sonhava, eu já sonhava. O pré-pensamento. O pensamento sem palavras e sem cor – tá aí mais uma referência de Um sopro de vida que super se encaixa nisso tudo), mas não sei se estarei pronto (ou preparado) pra seguir outros sonhos (será que um dia eu estarei?). Daqui um mês apresento um projeto que pode me abrir portas incríveis. E tudo começa a dar voltas em minha cabeça…

Engraçado, pois a palavra agora se torna tão nula… O que eu quero dizer ainda está intraduzível. É um pré-pensamento.

Acho que por hoje é isso. Concluo só que o medo agora é menor.