Lido 01: A redoma de vidro, de Sylvia Plath

belljar-e1358468246327“Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto. 

Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com maridos e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro era Ê Gê, a fantástica editora, outro era feito de viagens a Europa, África e América do Sul, outro era Constantin e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e a cima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar. 

Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.”

  • A redoma de Vidro – pág. 88/89

Chega a ser complicado falar sobre A redoma de vidro. Se você está interessadx pelo livro, já vale o aviso: Sylvia Plath não terá piedade de você em nenhum momento.

Mas Igor, do que se trata, enfim, a obra?

The Bell Jar (ou a redoma de vidro, a quem preferir) nos traz a narração em primeira pessoa de Esther, uma jovem de seus 19 anos, universitária que acaba de conseguir um estágio de três meses em uma renomada revista em Nova York (algo, hoje em dia, como nossa capricho, talvez). Entretanto, mesmo em meio a tanto glamour, a tanta pomposidade, Esther começa a se sentir fora, vazia, não participante de tudo aquilo que está acontecendo em seu redor. A partir dessa premissa começamos a acompanhar a entrada dela na então citada redoma de vidro: a depressão.

Confesso que há tempos não lia um livro tão difícil de se digerir, não que o livro seja ruim, pelo contrário, mas o livro maltrata o leitor. Assim como a personagem principal se mostra decadente, desolada, nós que a acompanhamos entramos no mesmo barco, sentimos por Esther tudo aquilo que ela narra. A experiência da leitura pode assemelhar-se a um barco em alto mar, com ondas gigantes que a todo momento ousam destruir nosso barquinho. Ler A redoma de Vidro é como viver na pele, na mente, no coração de alguém com depressão, é sentir, mesmo que em uma proporção menor, todo poder que essa tal redoma tem sobre as pessoas.

Mas não ache que a depressão é o único tema tratado pela autora. Plath ainda nos bombardeia em determinados momentos com aquela velha dúvida que sempre rodeia nossas mentes em algum momento da vida: será que estou sendo o que deveria ser? Em várias passagens do livro nos deparamos com isso, de como a visão que os outros tem sobre nós pode acabar influenciando, consequentemente, nossas decisões, além de como essas decisões são difíceis e impactantes na vida de cada um.

A Redoma de vidro não é um livro para qualquer momento, advirto que se você está em uma fase ruim de sua vida, evite esta obra, guarde-a para tempos de morangos. É um excelente livro, mas que, como já citado, maltratará em diferentes níveis o leitor.