Corra Igor, Corra

"Eu quero fazer silêncio, um silêncio tão doente do vizinho reclamar!" – Chico Buarque

Categoria: contos

Joaquinzinho, Joaquim, Joaquinzão

Todos os dias, ao se deitar, Joaquim faz uma prece com tom de questionamento: “um dia a mais ou um dia a menos, meu Deus?” E então, lá pelas 5:50 da manhã as forças divinas enviam a resposta: ele acordara mais uma vez, um dia a mais para desfrutar ao passo que possuía um dia a menos dentre os tantos que existiram. Ele entendia perfeitamente isso, era perder algo para ganhar outro algo ainda melhor. Era deixar para trás as amarras do passado, projetando o futuro e aí ele parava mais uma vez, antes de se levantar completamente, o futuro o assustava. Quando criança cria que o futuro nunca existiria, o futuro, oras, era o presente, mas agora, em meio ao calçar das meias via que o futuro era um lobo de boca aberta pronto para abocanhá-lo e que, apenas ele, só ele e mais ninguém, poderia domar seu monstro. O futuro era o fruto, o próprio nome já sugeria isso: futuro e fruto eram parecidos. Fruto do ventre, ou fruto da árvore? Ele não sabia, mas sabia que era seu. E o futuro (ou fruto agora como queiram) era cego, ele não conseguia enxergar a vitória e nem a derrota e ainda o assustavam os que garantiam com unhas e dentes de que a vida é bem escrita e amarrada e que os ganhos estariam certos. Nesse momento, provavelmente já com o café em sua xícara, ele parava e refletia: “mas e se vier um furacão? E se chover ou se eu adoecer? E se eu mudar meu caminho?” A mudança de caminho era um enigma que também sempre o acompanhara. Um dia a mais para viver, um dia a mais para encontrar uma rua até então desconhecida por todos. Era assim que as coisas deveriam ser, mas era difícil de entender. Quando criança queria ser astronauta, um ano depois, professor, hoje aos 32 anos, queria ser pai, mas não é casado e nem tem o interesse em se casar, trabalha como arquiteto e ama o que faz. A vida como ela é, pensa ele sempre que tais lembranças o perseguem. A vida é um palheiro, nós, cria ele, pequenas agulhas tentando se encontrar, as coisas são efêmeras, pequenas para um mundo tão grande. E o presente, passado e futuro talvez não existissem se nós não quiséssemos que esses existissem, e o sonho de ser astronauta talvez ainda existisse, mas as coisas são rápidas e não havia mais tempo para sonhos. Um dia a mais ou um dia a menos, meu Deus? Ele já não sabia, Joaquim sempre fora uma criança, mas aprendeu a correr muito rápido e viu que às vezes, as crianças precisam ficar guardadas no bolso para não serem bombardeadas com as balas diárias da existência humana, ele preservava sua inocência. Mas agora, provavelmente dentro de seu Fiat Uno, carro por escolha, já que odiava coisas que chamassem muita atenção, ele entendia perfeitamente o sentido da vida: era seguir, às vezes os sonhos são para ser somente sonhados e a vida, obviamente vivida. Às vezes é preciso perder para ganhar e ele precisava ganhar a vida. E mesmo que não parecesse, toda sua confusão era paz de espírito, aqueles vinte minutos que passava se perguntando, diariamente, sobre o sentido da vida, era o momento em que sua criança saía: naquele momento, por se questionar e se fazer entender era o astronauta de seu próprio mundo.

Quatro graus em cada olho

A visão turva me pertence também, antes de tudo, ela me pertence. Mas me guio, me  seguro e permaneço. Quero que entenda antes de tudo: isto que se seguirá tem haver com a visão. Quatro graus em cada olho distanciava-o de mim.

Em quatro graus eu sempre pensava: não há visão, estamos dançando no escuro. Estou pisando em um buraco cujo qual não tem fim.

Os dias foram cegos. E eu mais ainda.

Quando saímos para dançar, pedi para que se olhasse ao espelho. Parou e ficou. Se olhava como se fosse a primeira vez que o tivesse feito e meu desejo era que me olhasse assim, eu desejava que deixasse as vísceras conversas de lado e me olhasse, por uma vez que fosse, com estes quatro graus em cada olho.

Começamos a caminhar e ele possuía mais desenvoltura que eu, e ele tinha quatro graus em cada olho. Quatro graus que mais pareciam em minha mente quatro palmos de terra. Nunca, por ele, fui olhado sou. Era uma visão turva, mas nisso eu sempre lembrava de como eu via as pessoas: turvas em sua pequenez, levando em conta mais os outros sentidos, o estar presente.

Mas os dias passaram e os quatro graus começaram a turvar os outros sentidos. Já não me ouvia mais, já não me tocava mais, já não me lembrava mais. Foi como a existência humana, curta. E ele se foi, com quatro graus em cada olho.

O problema, pensei, era exatamente esse: saber que existiam quatro graus em cada olho e mesmo assim ter tentado ser óculos aos cegos. O problema foi a visão nítida da expectativa. Nenhuma promessa, nenhuma ilusão, porém meu coração é portador de quatro graus em cada lado e não sabe diferenciar os momentos, não sabe diferenciar as necessidades humanas e muito menos a perda. Meu coração com seus quatro, cinco, dez graus em cada lado simplesmente escureceu.

Ele foi embora com seus quatro graus em cada olho.

Ele foi embora carregando sua cegueira e sua necessidade de amar. E foi embora com sua capacidade de me ensinar a ouvir, a diferenciar a doçura da voz, ele foi embora levando nos olhos a visão que roubara de minh’alma.

Entretanto, na rádio, ainda tocam aquele refrão. E a mim, não mais a visão sobrou, mas sim a voz, apenas a voz que Deus me deu. E só me resta contentar-me com essa dança sozinho.

Essa necessidade de adaptação me assusta. Acho que preciso ter quatro graus em cada olho, assim, seria mais fácil e necessário adaptar-me ao incerto, ao inesperado.

Mas não, meu turvo se encontra no peito, em contra partida meus olhos muito bem enxergam e agora eu vejo o perigo de seguir e não quero.

Ele se foi e levou a coragem crescente que até então me irradiava.

E agora, peito meu, cabe a vós pensar, analisar e infiltrar dois vidros em seus lados, para enxergar. Lave-se como a virgem em sua noite de núpcias, pois o tempo não para e o momento de nosso clímax pode estar para chegar.

O problema é exatamente esse: os quatro graus em cada olho. A visão não era o problema, mas o andar no escuro. Fingir acreditar em alguém que via o caminho, que o guiasse. Talvez, de repente, a visão o voltou e ele enxergou meu ser como é: deformado. Talvez viu em seus quatro graus em cada olho todas as manchas e fissuras que se encontram no meu pequeno cedo peito.

Mas é necessário seguir.

Ele partiu, assim como o passado de nós. E eu fiquei. E acabou pela falta de amor? Não, só era hora de acabar. A dor permanece, mas ela também partirá. Tudo tem seu fim.

(seu fim em quatro graus em cada olho. O fim é essa permanente falta de visão. Com o tempo o fim vai chegando e o que foi, vai se perdendo no turvo dos olhos da alma).

Brasília, teu caos me exemplifica

Querida Brasília,

Começo tal epifania com estas palavras: teu caos me exemplifica. E é assim, sem começo nem final: só acontece. É que eu tento correr, mas os gritos de teus carros não permitem, eles me cansam. Cansam o passo, cansam até mesmo a visão. Estou cego, Brasília, mas mesmo assim vejo. Eu vejo o  que todo mundo vê: concreto e água em forma de céu. Tu és formosa, mas teu caos ainda me exemplifica. Nas tuas árvores tortuosas eu encontro a sombra, mas teu caos ainda assim me exemplifica, pois querida, nele eu encontro o grito. Gritar é natural de teus ônibus, de teus pedestres atrasados, de tuas manifestações. Mas mesmo no grito tu és calada.

Vazio.

Minha amiga, teu caos me exemplifica pois o silêncio é complexo e nele eu mergulho. Nas ruas, nas tesourinhas, tudo é silêncio: é silêncio em meio ao caos.

Solidão.

Pensando bem, minha Brasília, você me cansa. Suas formas cheias de concreto, suas curvas tão conhecidas, seus segredos a pouco descobertos… Pois tudo em ti passa a ser solidão. Vazia. Tão vazia quando está tão cheia, mas o povo está em festa essa noite: a festa da insignificância.

Você é um caos, minha querida. E este me exemplifica, pois dentro de mim tudo é escuridão, é o alvoroço que não é visto. É a formosura de ser sem saber o que é. E é assim que você me aparece:o caos escondido nos rostos vazios de tuas esquinas inexistentes.

Mas percebo agora, ora, depois de uma pausa para um café que a culpa não é sua. Claro, a culpa nunca é do dono, mas sim do objeto. A culpa é do motorista e do passageiro. A culpa é do professor e do aluno. A culpa é minha, assim como um dia foi sua.

Explosão.

Querida Brasília, as palavras começam a me faltar, mas antes de dizer adeus, professo o seguinte: seja mais viva! Tu és formosa. Bata nos teus viventes, mostre-os que da solidão não se faz dança, que do som vazio da alma não se faz par. Brasília, eu me vou agora, mas lembre-se: mesmo no medo, arriscar é importante. É preciso.

Festança.

Faça do teu povo um povo solícito e alegre. O dom do bom dia sem nem conhecer.

Pequenos atos.

A culpa nunca foi tua querida Brasília e agora acho que teu caos não me exemplifica mais, pois teu caos nem teu é. Sempre fora meu. O caos de sair e se perder nesse mar de gente, mas se perder de si e não do caminho. Espero que seus amantes entendam isso: “more em mim, mas nunca se perda de si”. Tu és concreto cidade.

Mas seu povo…

Ah seu povo… Faça-os ser carne.