Não me grite o silêncio

por Igor Passos

Sempre que penso em silêncio, me lembro dos sucessos da MPB de 2000. Talvez pela serenidade, calmaria que essas músicas passam, mesmo isso sendo o oposto do que o silêncio me causa.

Eu sou das palavras, eu falo, falo e enquanto meu peito pede, eu falo mais. Não consigo guardar coisas que me fogem, coisas que pedem para ganhar vida. Por isso escrevo. Escrevo para me comunicar com o outro, escrevo para me refazer e me recriar, para que eu não seja para dentro.

(Engraçado pois, em Água Viva, Clarice diz que escreve a este outro para, também, se comunicar de alguma forma com ele, mas enquanto fica presa à escrita, se torna um silêncio).

Voltando ao silêncio. Me agonia todo, me fere. Ele, o silêncio, é um algo que eu gostaria de dominar, pois ele diz muito. Ele fala sem se dizer. Ele é uma entrelinha. Mas eu não o sei. Eu não o suporto. Gritem por favor, berrem, digam, mas não me deixem só com seus silêncios.

Sinto o silêncio frio. Uma noite muito fria, com ventos cortantes. Eu não sei o que se passa contigo no silêncio, eu não sei quem estás sendo dentro desse vazio cheio de algo que não me chega.

Dê um sinal de vida. Peça um tempo. Diga não. Mas não me deixe com o silêncio. Sou bicho ansioso, crio possibilidades em minha mente. O silêncio me permite acreditar no que não deveria. E aí me frustro.

No silêncio eu sou só frustração.

E ele me cansa todo. Me sinto exausto. As coisas não são tão difíceis, basta ser sincero com o que quer que seja. O silêncio vai me consumindo porque ele é em uma dimensão que eu não capturo.

Eu não sei mais, estou cansado. Veja, convivo agora com o silêncio.

Fico com teu silêncio e faço dele palavras que gostaria de ouvir.

Sou mais frágil do que eu.

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