Sobre deixar(-se) ir

por Igor Passos

Particularmente, tenho uma grande dificuldade com términos. Não que eu os impeça, deixo que aconteçam, mas é igual mãe quando o filho sai de casa: uma dorzinha fica. E martela, martela e martela.

Há poucos dias tive mais um término. E percebi como é necessário deixar que os outros voem e como é muito importante aprender a voar também. Antes de prosseguir, vou fazer um pedido: abre uma nova guia, abre o youtube e pesquisa a música “binóculos”, de Letuce. Dê o play.

Voltando ao término: foi um caso que durou onze meses e três semanas. Muitas idas e vindas, muitos amores guardados, muita felicidade, angústia, dúvidas… Foi um período de muita aprendizagem, de muitas descobertas, mas não posso negar, de umas afincadas também. E acabou.

Nesse período de onze meses e três semanas (e talvez algumas horas ainda) eu acho que amei um pouco, amei o outro e aprendi por vezes a me amar também. Mas houveram grandes receios de minha parte, eu tinha um medo de permitir a entrada de alguém na minha vida. E agora eu entendo aquela frase de mãe que diz que a gente não quer que alguém veja a bagunça do nosso quarto. E assim sendo, por meu quarto, quarto-coração no caso, ser uma bagunça eu nutria um medo. Medo de que alguém o visse e fugisse. Se eu mostrasse o desajeitado que sou, será que alguém permaneceria?

Porque é isso, a gente cria máscaras pra viver. Desejo diariamente uma imagem de ter nas mãos a vida, de saber sempre o que estou, mas por vezes sou frágil, choro fácil, me dói inteiro pequenas coisas e mostrar isso é difícil. Estar diante do outro é difícil.

e esse término me foi difícil. Mais difícil que alguns outros. Sabe quando você tem diante de si alguém que é luz? Que te faz mais você, que, de alguma forma, te completa? E quando essa parte, essa figura desaparece, parece que junto leva alguma coisa de precioso consigo. E foi aí que eu entendi: as pessoas precisam seguir.

Acompanhe o pássaro, mas não atrapalhe o voo. não tente olhar com as mãos,  estar perto requer outros dons…

Seguir e seguir e seguir. Dói? Sim. Muito. Parece martelo em ponta de faca. Galinha sendo degolada. Mas é preciso, logo passa. Passa porque também precisamos seguir e ir por toda essa trilha que é nossa. Que é única. E que é secreta.

Hoje ainda dói. Foram onze meses e três semanas. Mas fico calmo e acredito no dia seguinte: acabou, mas coisas boas ficam, imagens ficam e a certeza de que se viveu também. As pessoas não morrem dentro de nós.

O fim, hoje, me parece mais um recomeço. Que seja doce, como diz Caio F. E que saibamos, a cima de tudo, nos perdoar. O fim é um ponto, mas depois do ponto a gente inicia um novo parágrafo, um novo capítulo, um novo livro… A gente se refaz.

Cê ainda tá escutando binóculos?

Pois bem, temos que ser assim como afirma letuce, ter coração de espuma. Não atrapalhar. Ser dessas que tem binóculos.

Que o fim seja um recomeço para cada uma das partes. Um recomeço feliz, cheio de descobertas. E que o fim sirva de reflexão também. É o momento de nos sermos um pouquinho mais.

E não, não foram onze meses e três semanas perdidos. Foram, pelo contrário, ganhos. Vivemos o que deveríamos ter vivido. Houve construção.

E acabou, somos pássaros que precisam voar. Não sejamos joão de barro. Vamos borboletear por aí.

E que tenhamos coragem para recomeçar. Voar em novos ares. Não ter medo de revisitar lembranças, mas saber que, visita não é morada fixa. Precisamos nos reconstruir mais uma vez.

Anúncios