Experiência em sala de aula #1

por Igor Passos

“Se recebo dor, se devolvo amor… E quanto mais dor recebo mais percebo que sou indestrutível.” – Pabllo Vittar – Indestrutível

Éramos três. Uma turma de metodologia do ensino do teatro. Um plano de aula para adolescentes de ensino médio. Trinta minutos.

O papel da turma era ser, nesse instante, a dita turma de ensino médio. Alunos de Artes cênicas interpretando uma turma de ensino médio para que um trio aplicasse um plano de aula. E nesse contexto eu me senti incapaz.

Começamos com um exercício de apresentação, que não funcionou como pretendíamos. Como lidar com o imprevisto? (seria a sala de aula o local da performance?)

Aquilo me abalou e eu não soube como prosseguir. Os alunos agiam como alunos e aquilo fez, para mim, uma ponte gritante entre presente e passado. Aquela turma era a mesma turma que, por vezes, tive que estar inserido enquanto aluno. No entanto algo gritava, durante o exercício, dentro de mim: eu não era assim. E, então, a primeira ficha caiu: eu não sou o outro. Meu papel ali não era ser o outro, mas ouvir o outro, entender essa persona outra, conseguir trazê-la, dentro das suas limitações, para a proposta. Falhei.

Em meio as risadas, aos deboches, as inseguranças mútuas, eu me vi caindo da corda. Agradeço, hoje, as minhas colegas de trio. Elas tiveram a força que eu não consegui ter, tomaram em mãos grossas a situação. Já eu comi pelas beiradas.

No momento seguinte eu deveria aplicar um exercício. Já desestabilizado, sem atenção dos alunos, sem a abertura destes para o novo, eu não sabia como fazer. Logo eu, que pensei entender as falas de Viola, de Desgranges, de Boal, de Brecht, de tantos outros… Bem ali eu vi: a teoria e a prática nem sempre andam juntas. E eu não tinha a prática… A prática é navalha que corta, te tira de si para se doar a um outro fechado ao por vir. Eu era um nada naquele instante.

E naquele momento de tentar explicar o exercício, eu, já cansado, me vi calando a voz de outro. Calar a voz. No instante eu vi: manter um discurso na vida prática não é fácil. Calei, logo eu, que defendo a fala do desconhecido, a voz ouvida do que quase não é ouvido…

Desisti.

Depois disso, eu me fiz instante de fora. Observei. Abandonei o barco, eu não tinha mais forças. E com isso diversas vozes vinham até mim: “numa sala de aula real você também abandonaria?” “é assim que você se faz professor?” “você é realmente capaz?”

Eu me senti a pessoa mais incapaz.

Durante esse processo alguns alunos saíram da prática, me senti na obrigação de perguntar se tudo estava bem, e ouvir um “sim, só não quero fazer a aula” foi mais um apunhalar.

Incapaz mais uma vez.

Quando o trabalho acabou, nos sentamos em roda e agora, todos novamente estudantes de Artes Cênicas, pudemos falar. E eu prometi a mim mesmo: eu não vou desmanchar agora. Impossível. Se manter íntegro após ver que você está mais longe do que pensou do ideal criado é impossível.

Ouvindo a fala de meus colegas e, em seguida, ouvindo minha própria fala, eu não consegui, mais uma vez, e me permiti o mar de lágrimas que gritavam para sair. E chorei como uma criança desmamada, uma criança sem um doce, uma nação sem um sonho. Um torcedor vendo o fracasso do seu time do coração.

Mas em menos de dez minutos eu precisava me estabilizar. A aula acabaria e no próximo período começaria outra aula, na qual sou monitor. Eu precisava estar íntegro, mostrar que vale a pena estar ali, tentar ser conforto para indivíduos aos quais eu não sabia como havia sido o dia. Eu precisava sorrir. Espantar os fantasmas. E então eu, ainda em lágrimas, fui ao banheiro e em meio aquela má iluminação joguei água em meu rosto, olhei aqueles olhos inchados no banheiro e disse para mim mesmo, de eu, para eu mesmo: tudo vai dar certo. A próxima aula vai ser melhor. E assim voltei.

Arrumei a sala, apaguei o quadro e quando o primeiro aluno entrou, sorri. Perguntei se tudo estava bem e vi: realmente será diferente. 

Engraçado que um dos alunos me perguntou se tudo estava bem, o que havia acontecido, já que eu estava com cara de choro. Disse calmamente, contendo novamente as lágrimas: tudo está bem, tudo vai ficar bem, obrigado. E recebi um abraço. O afeto que afeta, que salva.

Depois desse dia cheguei a conclusão: ser professor é difícil e eu não estou preparado. Entretanto desistir não está em nenhuma das opções. Eu tentarei, dia a dia, ser melhor. A cada tropeço, a cada dor, respirarei fundo e perceberei: isso me faz mais forte, me permite me recriar. Ser do começo. Ser de novo.

Ainda vale a pena. Construir o afeto vale a pena.

Eu não sei como terminar isso, pois sinto que em mim essa experiência ainda não acabou (e talvez nunca acabe).

Eu só precisava falar sobre isso. E perceber que, sim, eu posso ser um bom professor. Mesmo caindo. Mesmo errando. Mesmo saindo da corda bamba às vezes. Talvez seja exatamente isso, lavar o rosto olhar pra frente e (tentar) fazer, na próxima aula, o melhor do melhor de mim, novamente.

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