Sobre o tempo, a palavra, o futuro…

por Igor Passos

Hoje eu não sei ao certo o que dizer. Há alguns dias me peguei pensando na idade… Esse ano completo vinte anos. Quando eu tinha treze, meu sonho era ter dezesseis. Quando completei dezesseis, meu sonho era ter dezoito. Com dezoito eu só queria voltar pros treze, mas aí o sonho parou: esse ano eu não completo treze, completo vinte. E aí a ficha caiu: o tempo não volta.

Acho que isso pode ser a crise dos vinte batendo à porta, mas porque começamos a nos importar com o tempo logo agora? Parece que com treze, quatorze, quinze… Parece que nessa época tudo é eterno, parece que o tempo inexiste, mesmo gritando em nossa cara que ele… bem, que ele passa.

E é engraçado só agora, com quase vinte perceber e sentir que as coisas são efêmeras e que o tempo que mais importa é o presente. Sempre acho que as minhas leituras vem em momentos propícios, pois bem: comecei a ler Um sopro de vida, de dona Clarice. E eis que cada frase tem me sido um tapa na cara.

E o que tem haver o livro com o post de hoje, Igor? Pois vejamos um trecho:

Na eternidade não existe tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me e ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. O paroxismo da mais fina e  extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia. (Um sopro de vida, p.14)

O tempo não existe… Enxergam o peso disso? O tempo não existe porque ele é agora. Ele é esse ínfimo segundo que digito e apago e digito novamente e ele vai ser um agora diferente quando alguém ler e eu não terei mais o tempo de treze anos, mas tenho meu tempo de agora e isso assusta. Talvez cheguemos a um momento da vida em que o futuro já não encanta tanto. Talvez estejamos tão cansados do amanhã que só desejemos o velho e reconfortante quintal de casa depois da chuva.

Eu não sei bem o que acontece. Talvez eu esteja com medo (mais uma vez), talvez eu esteja descobrindo que me ser é mais difícil do que a inocência do não conhecimento. Talvez eu só queira que o ônibus atrase um pouco pois a parada está próxima e nesse momento as coisas não são tão seguras.

É engraçado esse ato do escrever, esse ato de refletir ao escrever, de desvendar a própria dúvida (pois se escrevo é porque algo não se traduz). Agora, nesse meu hoje efêmero vejo que o talvez é a única certeza. mas eu não posso deixar o talvez me travar, não mais, não agora com quase vinte. Acho que entendi que o agora é o agora e tudo deve ser feito. O medo não compensa a recompensa…

Tudo é confuso, eu disse… Não sei bem onde estou. Só sei que estou com quase vinte anos. E parece que agora os sonhos estão mais palpáveis, mas de suas maneiras e isso assusta também. Daqui dois anos me formo no curso que sempre sonhei (mesmo antes de saber que sonhava, eu já sonhava. O pré-pensamento. O pensamento sem palavras e sem cor – tá aí mais uma referência de Um sopro de vida que super se encaixa nisso tudo), mas não sei se estarei pronto (ou preparado) pra seguir outros sonhos (será que um dia eu estarei?). Daqui um mês apresento um projeto que pode me abrir portas incríveis. E tudo começa a dar voltas em minha cabeça…

Engraçado, pois a palavra agora se torna tão nula… O que eu quero dizer ainda está intraduzível. É um pré-pensamento.

Acho que por hoje é isso. Concluo só que o medo agora é menor.

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