Ei, respeita teu tempo!

por Igor Passos

“O negócio era ser corajosa e ousada e realizar alguma coisa – pensou consigo mesma. Não exatamente mudar o mundo, só um pouco à sua volta. Sair por aí com o diploma com honras de primeiro lugar em duas matérias, muita paixão e a nova máquina de escrever elétrica Smith Corona e trabalhar duro em… alguma coisa. Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Escrever coisas bonitas. Agradar aos amigos, continuar fiel aos próprios princípios, viver plenamente, bem e com paixão. Experimentar coisas novas. Amar e ser amada, se possível. Comer com moderação. Coisas assim.” Um dia.

Hoje, sábado, acordei, tomei meu café, arrumei o quarto (que por um milagre não estava tão desorganizado), escutei umas músicas pra animar o dia e fui, então, começar meu trabalho do dia.

Preciso planejar algumas aulas, então abri uns livros na mesa, preparei o caderno, me sentei e comecei. E aí me veio uma coisa, uma lembrança, um flash de um ano atrás.

Há um ano, como vocês estão cansados de saber, eu comecei a cursar Licenciatura em Artes Cênicas  na UnB e naquela época eu era uma coisa muito imediatista. Em dois meses de aula eu já queria ser uma Fernanda Montenegro da vida, queria ser incrível com uma carreira consolidada, uma independência formada… Coitado do inocente.

Com pouco tempo de aula eu me frustrei muito. Como disse a cima, eu queria o agora, queria na segunda (porque se eu chamo pra segunda, não vem quarta, não vem quinta. Segunda eu tô linda, na quarta eu sou cinza. RESSUSCITA). O problema é que o agora é um processo pra uma coisa que há de chegar (é o tal do vir a ser). A gente precisa usar o agora pra construir o futuro que, em algum instante, vai se tornar presente. Só que eu não entendia.

O semestre acabou, o outro começou e então cursei Interpretação teatral II, com um professor que foi peça mestra no meu entender do presente como construção (Glauber, obrigado). O seguinte aconteceu:

Começamos a estudar Stanislavski. E como desenvolver a técnica sem prestar atenção no meu tempo? Lá pelo meio do semestre eu entendi e compreendi e comecei a viver isso: o hoje. Aproveitar o que sou e o que tenho agora pra começar a construir meu amanhã. Tijolo por tijolo. Ter paciência pra vida. Oras, demorei nove meses pra nascer, deveria eu compreender que as coisas também não caem do céu.

Hoje eu estou conseguindo viver e produzir intensamente no presente. Enxergar o futuro como uma obra que vai sendo construída no agora e não que surge de repente. O negócio, acredito, é ser corajoso e ousado e realizar alguma coisa. E é exatamente isso:

Ousemos no hoje.

Vivamos o hoje.

Criemos e fortaleçamos HOJE.

O amanhã é muito improvável. Respeitemos nosso tempo do agora. Não tenhamos pressa, os caminhos mudam, as ideias mudam, coisas surgem… E não ache que é uma perda de tempo ser o que você é hoje, acredite: haverá um reflexo disso no amanhã.

Realizaremos sonhos? Serei um grande professor-ator-artista? Eu não sei. E nem quero saber agora. O que eu quero é fazer algo, mudar um pouquinho ao meu redor no hoje. Construir meu futuro(presente) tijolo por tijolo. Pensar no amanhã, mas nunca esquecer que existe um agora, um hoje e é nele que estou vivo. É nele que posso me ser na maior completude.

Acho que por hoje é isso. Entendam e respeitem seus tempos. Ele é agora, é um processo. Somos processos em andamento.

 

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