Tu não te moves de ti

por Igor Passos

Um azul bem claro e profundo habitou meu coração hoje. Ele veio manso, calmo, alojou-se aos poucos. Eu que nada esperava, continuei, deixei-o. Disse que podia ficar um pouco, ora, visita nova entra e toma um café. E ali ele sentou, e falou.

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Esse azul bem claro e profundo me trouxe momentos, um momento intenso de quem sou eu? Será que sou? Um momento tão fundo que me fez parar. Todo mundo é um pouco, até vazio pode ser. Mas e eu? O que eu era depois de ter sido?

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Depois de um tempo de quem sou, esse azul me soltou uma frase, rindo, entre seus dentinhos tão peqenos. Disse que era de Hilda, acreditei. Tu não te moves de ti era a frase. Tu (me eu) não te (me) moves (movo) de ti (mim, eu, agora). Tu não te moves de ti. Eu não me movo de mim… Grande azul que habita o meu peito, nesse momento percebi que sim, sempre sou eu. Se tento fugir  do eu que sou acabo entrando em outro eu que não sou, mas continuo sendo Eu… Que peso carrego por ser eu? Que peso possuo por ser? Eu não me movo de mim. Sempre me sou, mesmo quando não me sei.

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Decidi expulsar o azul de dentro do meu peito. Me veio a necessidade da agressividade. Fuja daqui, fuja desse sertão exilado que sou de alma. O azul não queria ir embora. Me disse que era o lar mais lindo que possuiu, pois era único. Único… Me sentei. Eu não me movo de mim, e sou único no que sou. Único. Nem uma célula é igual a outra. Único, renovado de criação. Se eu sou único, logo só eu posso me ser. Se só eu posso me ser, que peso carrego? Eu tenho em minhas mãos o poder de ser, não ser ele, mas de ser eu. Não o reflexo do espelho, mas eu. O peso que escorre.

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Naquela noite choveu. Uma chuva rala e fria, uma chuva que não acabava. O azul dizia estar quente, mas eu sentia frio. Era como se alguma coisa naquele dia tivesse me sido roubada, como uma manta que me tivesse sido tomada. Eu não me movo de mim, mas naquele instante eu já não era mais eu. Eu era outro que continuava sendo eu. Mesmo que eu desejasse, eu não conseguia me mover de mim. Um outro que já não se reconhecia no passado, mas que continuava me sendo. Uma borboleta que sente o amargo da lagarta, mas já não a é. Se uma agulha cai no palheiro e eu a acho, ela é a mesma agulha? E eu sou o mesmo procurador? Ninguém se move de si, mesmo quando o si não se é reconhecido. É um ciclo e o azul continua impregnado dentro do meu peito. Ele ecoa.

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