Nota de abraço n° 1

por Igor Passos

 

E eu tenho que lhe confessar: seu abraço me acalma até no momento de mais raiva. Eu me fiz pó, me fiz terra, me fiz nada. Fiz-me tudo em um único abraço. Sem nexo eu digo que meu coração estava quebrado, eu lembro da sua dança com outros e eu ali, sozinho bailando em cada pedaço do que restou de mim, eu lembro de você tocando outros cabelos enquanto os meus caíam aos montes por dor de estarem ao vento sozinhos. Eu lembro dos meus olhos, duros, seguindo a caminhada, eles tão neutros, tão frios, tão úmidos enquanto você sorria com os seus. Você foi tudo e eu, mais uma vez, nada. Mas o seu abraço me acalma. Eu sofri calado naquele instante, odiei os homens, odiei as crianças, as mulheres, os padres, os pais eu me odiei, mas você veio. No fim, quando a linha de trem já parecia perdida você veio, quando eu já estava caindo você veio e você veio com meu sustento. Seu abraço me acalma e faz com que os olhos digam algo que a boca não é capaz, seu toque doce, suave que ainda cravado em mim está, deu-me a paz, a paz que você sem nem saber tirou. E repôs e sei que vai tirar novamente.

O teu abraço me fez mais gente, me fez mais eu, talvez não eu de antes, mas um eu melhor. O teu abraço me deu a paz de acreditar em você. Você e você. Éramos eu e você. Você e teu abraço que me agarrou e me ninou, o abraço que me coube e me protegeu do mundo, o abraço que veio quente quando muito frio eu sentia, o abraço que eu queria pra toda vida mas tive por menos de um segundo.

Eu confesso que naquele instante eu queria sussurrar em seus ouvidos “lembra que tu é especial garoto, se eu pudesse te levava pra uma ilha e te faria o homem mais feliz do mundo”. Mas me calei, a boca tremeu. Nosso toque disse muito, eu queria ser seu braço, sua perna, seu cabelo, seu. Queria ser meu e seu na nossa ida ao teatro, queria ser você na dor e nós no jantar. E naquele abraço eu fui tudo ao mesmo tempo que fui nada.

E no fim daquele abraço acho que me perdi um pouco, já que dentro de teus braços tatuei todos meus segredos mais ocultos. No fim, olhar nos teus olhos me deu medo. Medo de ser a última vez e teu rosto tão tristonho, tão sedento de dizer algo me fez partir e eu já não gostava mais dos homens, nem das grávidas nem das flores. Eu já não tinha teu abraço.

E a lembrança tua de outros abraços com outras pessoas e de outros toques me levou de volta à dureza de meus olhos. Mas é isso que acontece,  otempo é efêmero moço. Coube a mim tatuar em minh’alma todas as cores e texturas daquele lar que chamei de teu abraço.

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