AMOR

por Igor Passos

Marcello acordou às 9:20 daquele sábado. Mas não era o mesmo sábado, a luz não era a mesma, o colchão de sua cama não era o mesmo, seu olhar não era o mesmo. Sentia dentro de si um vazio, uma vontade de vida, de presença. Sentia necessidade, mas necessidade de quê? Sentou-se, respirou fundo, colocou suas sandálias e foi à cozinha. Preparou seu café, “deve ser fome”, pensou. Comeu desvairadamente, como um cão faminto que reencontra o caminho de casa e é recebido por  sua tigela cheia. Comeu e comeu, estufou-se: frutas, café, leite, pães, massas. Tudo que tinha em casa, mas o vazio não passou. Decidiu então ligar a TV, “essa semana fiquei inerte às leituras para faculdade, devo estar com saudades de minhas séries”. Passou horas a fio e nada do vazio passar. Aquilo já estava o inquietando, oras, como, de repente, um espaço tão grande se formara dentro de si? Decidiu dar uma volta. No caminho viu flores, viu casais, viu animais e como um sopro de vida começou a compreender. Faltava-lhe a mais doce e áspera necessidade do ser humano: amar. Amar a si mesmo, assumir as paixões e entendeu o mais profundo mistério da humanidade: o amor tem mil faces. Amava as flores de uma maneira diferente que amava os cães e essa se diferia da maneira como amava observar os casais apaixonados. Amar significava aceitar sem egoísmo, era dar, independente do grau de amor. Amar era entregar-se de corpo e alma a um corpo que nunca se conheceria por completo, amar era conhecer o corpo mais desconhecido: o próprio. E ele foi enchendo-se, não de si, mas de amor. “Mas amar? E se ninguém me amar de volta?” aquilo começou a incomodá-lo, começou a inquietá-lo. Mas logo aquietou-se: o amor nem sempre é recíproco de maneira racional, como um livro bom, o amor que este lhe entrega é subjetivo, está no seu sentimento de achá-lo agradável. Um belo café, em seu gosto. A brisa do vento, a calmaria. Marcello percebeu que a vida é uma teia de amores, este é o primeiro, os outros sentimentos, variações de graus do amar. Voltou contente para casa, decidiu organizar e limpar-se as prateleiras, ao bater da porta pegou o telefone, o amor já não cabia só dentro de si. Ao início da limpeza, do outro lado da linha alguém atendeu. “Eu te amo” foi a explosão mais bela e leve a qual suas prateleiras perpassaram.

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