Mercúrio

por Igor Passos

Certo dia chuvoso tive a oportunidade de trocar algumas palavras com um dos grandes e sim, é perceptível quando o universo conspira para que você encontre um deles. Falávamos inicialmente sobre os planos para o dia seguinte, horários e todas as coisas burocráticas que a vida em si aparentemente cobra, até que caímos em mercúrio. Confesso que não entendo bem isso dos astros, não por falta de interesse, pelo contrário, me fascinam as línguas que bem compreendem o que os signos nos vêm a acrescentar, porém algo em nosso diálogo me chamou a atenção. O grande dizia algo sobre a rapidez e liquidez das coisas (peço perdão por não trazer-lhe detalhes, mas foi um momento tão especial, tão único, o tempo parecia parar que confesso ser egoísta: quero os detalhes para mim, para compor a colcha de retalhos de minha mente) e como mercúrio retrógrado parecia desestruturar algumas coisas, como as coisas ficam mais lentas e como isso parece atrapalhar as relações.

E então a explosão.

Continuamos a conversar e o ponto de intersecção foi o seguinte: a lentidão muitas vezes vem para acrescentar e colocar em eixos certos tudo aquilo que parecia descarrilhado. E, assim como prosseguiu o grande, a lentidão muitas vezes nos faz perceber o quão parte de um todo somos.

Somos a natureza em vida.

E por sermos natureza, devemos nos ver como parte desta. Precisamos perceber que somos frágeis como uma folha seca, mas também fortes como um cacto em pleno deserto. Precisamos ver que somos constantes lagartas em processo de metamorfose e que as mudanças são nossa fênix que nos transformam em belas borboletas.

Não somos parte de edifícios de concreto ou de um banco forte. Não somos líquidos como as relações parecem ser. Somos carne.

Somos osso.

Somos pó e lama. Somos flores e fragrâncias. Somos seres advindos e partiremos da e para a natureza. Somos a água que corre nos rios

Assim como eles também são parte de nós.

Percebo, após aquela conversa tão enriquecedora que o que falta no mundo é exatamente a ação de mercúrio retrógrado. Precisamos ser mais lentos, dar tempo ao que se inicia, saber lidar com o tempo de cada pessoa, entender que a vida corre seu percurso em seu tempo certo. As coisas não acontecem em vão e nem deixam de acontecer por isso. Tudo tem um motivo, tudo tem um propósito e devemos, principalmente eu, sentir, entender e ter sabedoria para servir a vida e não crer que ela que deve se ajoelhar aos nossos pés.

É necessário reciprocidade para que se siga em frente, para frente e para o bem.

Hoje, depois de escrever estas palavras, acho que entendi  a importância daqueles 20 minutos de conversa. A paciência para o que somos é o que nos leva ao grande encontro.

(Se possível uma pausa, meus caros, quero deixar um agradecimento ao grande. Agradecer pois na simplicidade e profundidade de suas palavras conseguiu me mostrar um grande propósito que até então era turvo em meu caminho. No dia me faltavam palavras, mas acho que elas chegaram. Ao grande, meu grande obrigado).

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