QUEIMANDO COMO FOGO, GRITANDO COMO CARNE

por Igor Passos

 

Tal corpo que habito, oh santo espírito, está marcado pelo ódio daqueles que vos rezam. Está marcado pelo desejo de Adão e Caim. Papai, quero que me ouça: havia um homem e eu. Havia um homem despido de pudor. (uma pausa) Mas eu nada implorei (uma pausa).

Um homem que bebeu demais, caminhando por uma rua escura, despido a fronte. (se exalta) Mas foi a mim que o grande pássaro de putas escolheu! E eu nada implorei!

A dor que senti transcendeu a dor que sente uma mãe ao parir seu filho, mas papai, tudo teve seu prefácio. A dor que aquela noite me causou foi a explosão de tudo aquilo que me faziam escutar nas ruas. A dor de minha alma foi maior que a dor da perda – e agora estou perdida de mim mesma.

(quase sussurrando) Já não possuo mais nada.

E tal corpo, papai, foi exposto aos desejos mais profanos. Mas porque papai? Por que a palavra corta como navalha quente? Tudo que eu quero é entender o motivo do uso, pois não sou uma loja para que entrem sem pedir.

(Levanta-se da cadeira)

E eu não sou um objeto

E eu não estarei em tua casa

E eu não aceitarei um copo de bebida em troca de um bom papo.

(Joga o espelho no chão, coloca a mãos sobre os olhos)

E eu odeio os olhares famintos que remontam todas aquelas verdadeiras mentiras que mamãe alertava.

E hoje, a cima de tudo, eu odeio as vozes dos porcos que me gritam na esperança de retorno.

(Uma pausa, quase sussurrando) Será que sou realmente sua filha, papai?

Lembra-te papai: mamãe morreu assim.

Vovó morreu assim.

A mãe de vovó também acabou assim.

(Gritando)

Mas eu não quero. E pai, não sou tua filha. Pois não quero ser filha daquele que oprime, que mata. Pai, eu sou a neta das bruxas que seus servos não queimaram.

Homem eu não sou tua filha, pois não sou filha da prisão e subordinação.

Eu sou filha da liberdade. E a quero. E a grito. E a chamo.

Será que, papai, é pedir muito ter aquilo que já me é direito?

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