Quatro graus em cada olho

por Igor Passos

A visão turva me pertence também, antes de tudo, ela me pertence. Mas me guio, me  seguro e permaneço. Quero que entenda antes de tudo: isto que se seguirá tem haver com a visão. Quatro graus em cada olho distanciava-o de mim.

Em quatro graus eu sempre pensava: não há visão, estamos dançando no escuro. Estou pisando em um buraco cujo qual não tem fim.

Os dias foram cegos. E eu mais ainda.

Quando saímos para dançar, pedi para que se olhasse ao espelho. Parou e ficou. Se olhava como se fosse a primeira vez que o tivesse feito e meu desejo era que me olhasse assim, eu desejava que deixasse as vísceras conversas de lado e me olhasse, por uma vez que fosse, com estes quatro graus em cada olho.

Começamos a caminhar e ele possuía mais desenvoltura que eu, e ele tinha quatro graus em cada olho. Quatro graus que mais pareciam em minha mente quatro palmos de terra. Nunca, por ele, fui olhado sou. Era uma visão turva, mas nisso eu sempre lembrava de como eu via as pessoas: turvas em sua pequenez, levando em conta mais os outros sentidos, o estar presente.

Mas os dias passaram e os quatro graus começaram a turvar os outros sentidos. Já não me ouvia mais, já não me tocava mais, já não me lembrava mais. Foi como a existência humana, curta. E ele se foi, com quatro graus em cada olho.

O problema, pensei, era exatamente esse: saber que existiam quatro graus em cada olho e mesmo assim ter tentado ser óculos aos cegos. O problema foi a visão nítida da expectativa. Nenhuma promessa, nenhuma ilusão, porém meu coração é portador de quatro graus em cada lado e não sabe diferenciar os momentos, não sabe diferenciar as necessidades humanas e muito menos a perda. Meu coração com seus quatro, cinco, dez graus em cada lado simplesmente escureceu.

Ele foi embora com seus quatro graus em cada olho.

Ele foi embora carregando sua cegueira e sua necessidade de amar. E foi embora com sua capacidade de me ensinar a ouvir, a diferenciar a doçura da voz, ele foi embora levando nos olhos a visão que roubara de minh’alma.

Entretanto, na rádio, ainda tocam aquele refrão. E a mim, não mais a visão sobrou, mas sim a voz, apenas a voz que Deus me deu. E só me resta contentar-me com essa dança sozinho.

Essa necessidade de adaptação me assusta. Acho que preciso ter quatro graus em cada olho, assim, seria mais fácil e necessário adaptar-me ao incerto, ao inesperado.

Mas não, meu turvo se encontra no peito, em contra partida meus olhos muito bem enxergam e agora eu vejo o perigo de seguir e não quero.

Ele se foi e levou a coragem crescente que até então me irradiava.

E agora, peito meu, cabe a vós pensar, analisar e infiltrar dois vidros em seus lados, para enxergar. Lave-se como a virgem em sua noite de núpcias, pois o tempo não para e o momento de nosso clímax pode estar para chegar.

O problema é exatamente esse: os quatro graus em cada olho. A visão não era o problema, mas o andar no escuro. Fingir acreditar em alguém que via o caminho, que o guiasse. Talvez, de repente, a visão o voltou e ele enxergou meu ser como é: deformado. Talvez viu em seus quatro graus em cada olho todas as manchas e fissuras que se encontram no meu pequeno cedo peito.

Mas é necessário seguir.

Ele partiu, assim como o passado de nós. E eu fiquei. E acabou pela falta de amor? Não, só era hora de acabar. A dor permanece, mas ela também partirá. Tudo tem seu fim.

(seu fim em quatro graus em cada olho. O fim é essa permanente falta de visão. Com o tempo o fim vai chegando e o que foi, vai se perdendo no turvo dos olhos da alma).

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