O amor é uma obra surrealista

por Igor Passos

Todos somos criadores, artistas da vida. Em cada momento que se passa desenhamos, modelamos, poetizamos as ruas estreitas e cinzas e paradas por onde passamos e nesse meio encontramos o amor.

O significado de amor está além do que minhas palavras podem expressar, cada um tem um jeito de amar… Amar é para os fracos, para os que não tem vez, amor é para quem precisa dividir e isso é difícil: dividir. Amor acalma a alma do oprimido, do sofredor. Amor tira e dá o sono, amor dá a leveza e o peso de ser. O amor se faz amar e amar é o mais intenso dos sentimentos. O amor é tão complexo que nunca sei se amei ou se vou amar, só sei que quero ser fraco o bastante para ser artista desse sentimento.

Uma digressão para o entendimento: aquela primeira paixão. O nervosismo, o frio na barriga e aquela sensação de querer sumir ao mesmo tempo de querer berrar ao mundo à todos pulmões que se ama… Aquela quebra entre ser só e querer ser dois. E aí está: a arte imperfeita, querer ser dois.

É por isso que o amor é uma obra surrealista, levando em conta o significado de amor, amar é entregar-se, mas como se entregar a um alguém quando este não corresponde ao MEU amor?

Silêncio.

Amar é individual. Quando se ama se quebra regras e cria modos. Cada um ama da maneira que acha certo e esse amar é único. João não pode exigir que Maria o ame do jeito que ele quer. Maria o ama da maneira a qual o amor deixou-a moldar.

O amor é uma obra surrealista.

Quando se ama é necessário fé. Paciência. Respeito. União. E tudo isso tem haver em aceitar e tentar entender a obra do outro. Amar é isso, viver e aprender. Ver nos mais íntimos detalhes, beleza e desejo. O amor é uma troca de desejos e amar é ser capaz de lutar para entendê-los sem nada cobrar.

O amor é livre e gratuito.

A obra surrealista é o amor.

Silêncio ao público.

Amar é a arte mais preciosa e é necessário entender: eu amo você da minha forma, sente-se que eu explico, assim como quero que você explique a sua.

Enquanto há dúvidas e sombras, não há amor. Há qualquer outra coisa, mas não amor. O amor é limpo. É transparente. Enquanto há o desejo de moldar no outro a sua própria forma de amor, não é amor, é uma obra inacabada que ainda não chegou ao seu clímax.

Paredes. Eco.

O amor continua sendo uma obra surrealista.

Pulemos ao futuro: amar é isso – concluir uma obra sem medo de não aceitação, é olhar para o outro e ter certeza que ele também tem alguma arte para mostrar. Amar é ser artista e dividir experiências ao mesmo tempo que as ganha. Ser amado é aceitar uma nova maneira de arte, uma nova maneira de ver o mundo.

E agora eu entendo: amar é simplesmente isso, aceitar o outro com todas suas imperfeições. É tentar fazer desaparecer a tristeza da vida do amado e com isso se sentir bem. É ter a certeza de que ainda são tempos de morangos e perceber que a vida não tem sentido algum sem dividir tão nobre sentimento. Amar é aprender com as linhas do amado. Amar é saber se encontrar ao mesmo tempo que consegue guiar o tão cego artista.

O amor é uma obra surrealista?

O amor continua sim sendo essa obra surrealista. Talvez minhas palavras sejam totalmente vãs, pois o amor é isso: óticas diferentes, pontos de vistas diferentes. Mas se tem algo que sempre será, mesmo antes de ser é isso: o amor necessita de diálogo.

Livre arbítrio. 

Quando se ama é preciso se sentar e olhar a obra do outro. E tentar entendê-la. Tentar encaixá-la naquela obra que você mesmo criou.

O mal do mundo é exatamente esse: querer achar que um único meio é o correto e que a cobrança é inevitável. Mas muito pelo contrário. A felicidade se encontra no bater de assas de quem dá a liberdade. O que é seu sempre fica e com o amor não é diferente.

Aceitar e respeitar. 

(Silêncio tão profundo que se assemelha a morte. Talvez não estejamos realmente prontos para sermos artistas).

Anúncios