Brasília, teu caos me exemplifica

por Igor Passos

Querida Brasília,

Começo tal epifania com estas palavras: teu caos me exemplifica. E é assim, sem começo nem final: só acontece. É que eu tento correr, mas os gritos de teus carros não permitem, eles me cansam. Cansam o passo, cansam até mesmo a visão. Estou cego, Brasília, mas mesmo assim vejo. Eu vejo o  que todo mundo vê: concreto e água em forma de céu. Tu és formosa, mas teu caos ainda me exemplifica. Nas tuas árvores tortuosas eu encontro a sombra, mas teu caos ainda assim me exemplifica, pois querida, nele eu encontro o grito. Gritar é natural de teus ônibus, de teus pedestres atrasados, de tuas manifestações. Mas mesmo no grito tu és calada.

Vazio.

Minha amiga, teu caos me exemplifica pois o silêncio é complexo e nele eu mergulho. Nas ruas, nas tesourinhas, tudo é silêncio: é silêncio em meio ao caos.

Solidão.

Pensando bem, minha Brasília, você me cansa. Suas formas cheias de concreto, suas curvas tão conhecidas, seus segredos a pouco descobertos… Pois tudo em ti passa a ser solidão. Vazia. Tão vazia quando está tão cheia, mas o povo está em festa essa noite: a festa da insignificância.

Você é um caos, minha querida. E este me exemplifica, pois dentro de mim tudo é escuridão, é o alvoroço que não é visto. É a formosura de ser sem saber o que é. E é assim que você me aparece:o caos escondido nos rostos vazios de tuas esquinas inexistentes.

Mas percebo agora, ora, depois de uma pausa para um café que a culpa não é sua. Claro, a culpa nunca é do dono, mas sim do objeto. A culpa é do motorista e do passageiro. A culpa é do professor e do aluno. A culpa é minha, assim como um dia foi sua.

Explosão.

Querida Brasília, as palavras começam a me faltar, mas antes de dizer adeus, professo o seguinte: seja mais viva! Tu és formosa. Bata nos teus viventes, mostre-os que da solidão não se faz dança, que do som vazio da alma não se faz par. Brasília, eu me vou agora, mas lembre-se: mesmo no medo, arriscar é importante. É preciso.

Festança.

Faça do teu povo um povo solícito e alegre. O dom do bom dia sem nem conhecer.

Pequenos atos.

A culpa nunca foi tua querida Brasília e agora acho que teu caos não me exemplifica mais, pois teu caos nem teu é. Sempre fora meu. O caos de sair e se perder nesse mar de gente, mas se perder de si e não do caminho. Espero que seus amantes entendam isso: “more em mim, mas nunca se perda de si”. Tu és concreto cidade.

Mas seu povo…

Ah seu povo… Faça-os ser carne.

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