O espetáculo nós e as diversas relações e discursos do eu

PONTO INICIAL: O texto acontece sem muitas conexões. Foi constituído a partir de notas. Notas sobre pontos, sobre percepções. Bom apetite.

Chego ao teatro, me sento. Respiro fundo, como de costume. Começo a observar o cenário, a iluminação. Aos poucos vou me acomodando enquanto espectador, deixando adormecer minha profissão, meus conceitos, meus achismos enquanto ator, professor-performer, acadêmico. Estou ali para receber.

A plateia, como em um roteiro ensaiado à finco, faz silêncio sem nenhum sinal.

Comendo a mesma comida

Bebendo a mesma bebida

Respirando o mesmo ar

Estamos todos ali. Respirando o mesmo ar. Como num parar do tempo, tudo se suspende. A luz baixa e o eco da voz me colocam neste lugar: lugar de suspensão. O primeiro estranhamento que deixo adormecido, pois sei que este não é o momento de buscar uma logicidade no que estou vendo.

É interessante acompanhar os lugares em que o Galpão se coloca em Nós. A repetição, a alteração de ritmos, os estados e atitude em crescente nos deslocam ao caos. Talvez o caos cotidiano. O caos formado pela estagnação. O caos formado pelo discurso vazio do ser, pelo verbo sem ação. Pela fala construída nas próprias vivências, no rodear ao umbigo e a incapacidade de diálogo com o outro. Pela repetição do velho atualizado no presente. O caos que leva ao caos não o objeto do discurso, mas o próprio objeto falante. Nós entramos em caos. A cada dia mais caminhamos em círculos em diversas maneiras sem, de fato, agir em prol de. Discursos e discursos e discursos. A repetição que gera uma singularidade, pois se dá no presente agora, mas que carrega em seu fundo uma estagnação. Um ser que falha seu sistema. A pane dos discursos. Eis a primeira fissura.

Do que vocês estão falando, gente?

A delicadeza e sutileza com que os atores permeiam entre o drama e o cômico surpreende. É como uma onda que quebra no mar, não há prefácio, mas sabe-se que em algum momento vai quebrar. E atinge em cheio. Quebra o riso, faz doer a ferida. E logo em seguida, o riso se estabelece novamente. Ora, estamos em um, mais uma vez, caos. Mas no meio do caos existem máscaras, o sorriso é precioso. Fala-se da realidade dos dois lados. De dentro do furacão e de suas bordas. Claramente as bordas fazem mais cócegas que o olho do furacão.

E o riso se dá por aproximação. São pessoas como a gente. É possível se ver nas figuras – figuras essas que permeiam devires-outros. Permeiam-se e permeiam o desconhecido.

Falando em um devir-outro, vale citar em específico uma cena. Antecede a cena um número quase, se não de, desbunde. Alegria, performatividade carnavalesca, o libertar-se.

Se quiser fumar eu fumo,

Se quiser beber eu bebo

Não interessa a ninguém.

De repente, um barulho forte. Tiro? Bomba? Ataque? Eis que entra um homem alegando ser apenas um corpo morto. Um corpo que já não habita mais as instituições, que não se habita mais. E, em meio ao discurso, a aproximação. Coloca à tona questões de guerra, questões de ataques. Enquanto espectador, sou deslocado ao local do outro. e volto ao parágrafo do caos. Identifico em mim o caos. O discurso vazio. O corpo dócil. O corpo morto que não se habita mais enquanto outros corpos, em realidade e não em metáfora, morrem. Enquanto vidas se perdem de todas as formas possíveis.

Na mesma cena, uma mulher entra.

Um manifesto pela liberdade do meu corpo

E, nua, assim como o homem que morto que já não se habita mais, fala-vive-acontece um texto sobre o nosso presente. E faz vir-a-ser diversas coisas. As coisas interligadas, o efeito dominó da vida. A morte diária, as perdas…

Em meio a tudo isso, o risco de batom vermelho. A navalha. Mais uma fissura. Um acontecimento que emerge, quase enquanto rizoma, diversas camadas que nos perpassam diariamente, e eu ali, assistindo. Sabendo que acontece, mas sem nada fazer. Mais uma vez o discurso vazio, o meu discurso vazio.

Um salto: em diversas cenas, principalmente as de conflito, um dos atores sempre porta um celular. Tira retratos. Selfies. Filma. A liquidez dos momentos, a

[esse texto foi iniciado em 2017 e nunca concluí. O publico agora pois existem coisas interessantes no não concluído. A flutuação permite um mergulho.]

 

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O que pode a arte na escola? Algumas reflexões (#tcc002)

I.

A potência do corpo escorre pelas fissuras produzidas nas formas rígidas, disciplinadoras, pelas rachaduras da cidade de concreto – Sertão. Quando se faz secreção e se percorre lugares do além-limite, quando ultrapassada a linha do dito possível, o corpo se (re)territorializa em outras possibilidades de ser. Torna-se corpo nômade, máquina de guerra[1]. A secreção que escorre produz lagos e rios e mares que vão compondo e decompondo[2] os espaços, movimentam o espaço-corpo, produzem novas formas de operar o real.

Uma questão que me acompanha é: o que moveu os alunos a quererem fazer em um curto período tal trabalho? Desejo é algo que me parece justificável. E aqui não me refiro ao desejo que se encerra em algo, mas sim que transborda em si. Desejo que é potência, desejo que é fruição inacabável. Produção de si e do mundo. Desejo que, ao mover para ação, cria espaço para movimento de afetos.

Na montagem de um espetáculo, um espaço-tempo se produz. E esse espaço-tempo altera a forma de operar na instituição escolar. As relações se tornam horizontais, em vez de grupos estratificados, temos redes, temos manadas, bandos que nas inter-relações produzem conhecimentos outros. Segundo Heidegger, a filosofia surge do espanto. Aqui ouso comparar: o espanto com o desconhecido engendra diferentes formas de se lidar com o mundo, consigo, com o outro.

II.

Ao enxergar o espaço escolar a partir de outras óticas, produz-se novas escolas, ao enxergar-se como pertencente, reestabelece-se vínculos afetivos. E se o indivíduo se enxerga e se coloca como parte do espaço, o espaço modifica-se revelando a povoação de vozes que formam – in-formam, deformam, derivam – este. Assim, a carne-corpo contamina o espaço com toda sua historicidade, vivências, cicatrizes e desassossegos, a escola antes séria e vencedora, agora brinca e fracassa, perde para ganhar.

Qual o lugar do fracasso brincante na escola?

III.

A estrutura não suporta o riso, o real ficcionalizado, o domínio discursivo. Dentro das paredes – que aos poucos vão se rachando – busca-se sempre a aprovação. Deposita-se nos corpos os sonhos já exaustos de perfeição, de vitórias, de conquistas materiais. Mas o que se ganha? Qual a linha de chegada? No mesmo sentido, gera-se conflito: o corpo já não suporta a higienização, quer o imundo, a lama, quer quebrar o rígido. Almeja produzir para si um corpo sem órgão[3]. Quer balbuciar, gritar, sussurrar um novo vocabulário. E fala-se com a voz, fala-se com os membros, com o pensamento. E aqui a palavra – palavra-signo, palavra-corpo, palavra-pensamento – delira. Produz-se outros modos de dizer, de comunicar, de conta(r)minar (a si, ao outro, ao mundo). Apossa-se do discurso.

IV.

Após a apresentação ouve-se: “eles estavam em casa” e, ainda, “improvisaram muito, eles mesmos afirmaram”. Tais falas revelam o engendrar de um estado de tensão naqueles que assistem e ocupam seus lugares pré-estabelecidos (o professor, o avaliador, etc). Os profissionais esperam estórias, maquiagens do real, esperam o cronometrado, o belo discurso que alivia a vibratilidade dos corpos (ROLNIK). Estar em casa traz consigo não só a comodidade, mas a história. Habitam na casa todos os mistérios. É o lugar mais íntimo e, portanto, de difícil acesso e compreensão. “Porque a casa é o nosso canto do mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acepção do termo.” (BACHELARD. 1989, p.24). Quando os alunos se apossam de seus discursos, de seus lugares, de suas questões e as apresentam, jogam com elas, quando abrem as portas de suas casas e nos empurram para dentro, produzem feridas na grande estrutura, em nós. Ao apresentar suas vidas através das (e misturadas as) linguagens, comem sem etiqueta. Riem à mesa, falam com a boca cheia.  E a partir disso, podem locomover, podem refletir. Ao possuírem seus discursos, movimentam seus imaginários: representam e apresentam o que vivem, o que entendem e daí, podem refletir, modificar, compor e decompor. O apossamento do discurso é o primeiro passo para o movimento antropofágico. Engole-se tudo isso, mas regurgita-se o que queremos criar sobre e a partir de nós mesmos. Brasilidade pura, samba do crioulo doido. Mas a instituição colonial não aceita o grito dos Racionais Mcs. Querem o Mozart à brasileira. E isso não é de hoje. Anita Mafalti, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Hilda Hilst, Paulo Freire… Produzir a partir do Brasil gera tremores.

V.

Na escola estamos dispostos ao bem-viver ou ao viver-bem? Atualmente, a Vida importa, de fato, no que propomos enquanto educação?

[1] Conceito utilizado pelos pensadores Guilles Deleuze e Félix Guattari no quinto volume de Mil Platôs.
[2] “Cada vez que um corpo encontra outro, há relações que compõe e relações que decompõe […]. Mas a natureza combina todas as relações em um só tempo. Logo, na natureza, em geral, o que não para é que todo tempo há composições e decomposições de relações. Todo tempo, pois, finalmente, finalmente, as decomposições são como o contrário das composições. Não há nenhuma razão de privilegiar a composição de relações sobre a decomposição já que as duas vão sempre juntas.” (DELEUZE, 1981)
[3] GUATTARI, F. DELEUZE, G. Como criar para si um corpo sem órgãos. Mil Platôs, v.3

Sobre a escrita (#tcc001)

Escrever é percorrer lugares até então desconhecidos. Virtualidades que se atualizam. Tremores e rumores. Possibilidade de espantos. Entre as leituras, a reflexão e o teclar das palavras, existem tensões enormes, uma corrida no (v)entre do (in)dizível. Potência.

E é potente poder expressar de forma (quase sempre) compreensível aquilo que vai (es)correndo pelo corpo.  Mesmo que só se capturem rastros desses pensamentos, é incrível ver na tela a concretude de algo que parecia até então simples pulsão. Ou melhor: a pulsão faz surgir o possível.

E escrever vai alargando os possíveis, vai mudando os sentidos, vai alterando e produzindo outros modos de enxergar e lidar com o que se quer dizer. Escrever e reescrever é um modo de agir no mundo.

A cada palavra, uma gama de caminhos novos se abrem.

Quanto mais escrevo, mais vou adentrando naquilo que me propus. A escrita é um modo de jogar-se em um labirinto cheio de mistérios.

E a Vida, para existir, precisa de mistérios. Escrever para renovar os mistérios da vida.

Você entrou no mar hoje?

Feche os olhos e imagine o mar. O mar cheio de ondas, profundo. O mar com temperaturas, com texturas, com cores… Com vidas. Dentro desse mar não existem concretudes eternas: existem andanças. Andanças que levam à encontros, acontecimentos, acidentes, afetos. Você entra no mar. Sente a água percorrer seu corpo e eis que você se torna mar, se permite. E sendo mar, você, ainda, se é mais um pouco. Encontra outras formas de ser e existir. Você acontece mundo.

Sem pontos de chegada, sem pontos de partida. Uma grande teia de ondas e lugares e deixar-se ir. Ou melhor, permitir-se ir e saber-encontrar o modo de agir nessa imensidão de potências.

Está aí um grande desejo: fazer do mundo um mar. Entrar de peito aberto, sem medo. Silenciar para sentir.

A CAMINHADA

Gosto de caminhar, mas uma caminhada leve, uma caminhada minha. Caminhada-contato. A cada passo sinto, aos poucos, o contato com algo maior, uma conexão entre o eu e o sagrado, o natural, meu eu anterior. E as cores se misturam ao vento, eu recebo. O movimento de meu corpo se funde aos pássaros que cortam o vento que assobia uma bela melodia: dançamos como crianças. Fecho meus olhos e já não estou em mim. Estou no todo e o todo me está. Estamos um. É um grande e forte retorno que me desconecta disto, dos contornos, me floresce expansão. Me sinto, por fim, parte de algo. Algo que foge à palavras ou definições, algo que é e por ser já se justifica.

A dança da vida me mostra a cada caminhada que há sempre o que descobrir. O rio sempre será um novo rio agora, agora, agora.

[26 de janeiro de 2018]

notas-pensamentos-momentos sobre performance (um texto frágil e por vezes sem sentido)

O corpo é mais potente do que se acredita ser no dia a dia. A linguagem dos símbolos, das palavras às vezes toma esse espaço da potência – agora mesmo tiro do corpo e levo à letra uma energia de presença que, mesmo grande, não traduz onde um pulo pode chegar. E como o corpo me faz e estrutura-emerge-faz brilhar um eu-corpo, logo, sou mais potente do que acredito ser no dia a dia. Quero as dobras que escondo diariamente – as dez faces, os tantos sentidos. Quero o cheiro, o toque, a audição a audiçãotoquegestocheiro. Quero o peso-leve do chegar num lugar inalcançável – que nunca se chega, mas devém.

***

Na performance busco esse espaço. O espaço entre as coisas – ou o borrão entre as coisas, o “e” em vez de “ou”. Dentro delas. Por fora delas. Junto delas. A potência das coisas… Como diria Spinoza, a felicidade. Busco a fissura do ser e do não ser, o lugar político do corpo e o não lugar também: lugar político que emerge o desejo instantâneo – faz emergir o estranhamento. Micropolíticas surgem ou se revelam? Olhar para alguém e perceber um corpo outro. Outo mas, por ser outro, carrega algo que nos liga. No momento performance, eu busco essa desterritorialização da máquina. Territorializando-me no lugar de percepção. Percepção do mundo criado, do mundo acontecendo.

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Busco o deslocamento de sentido: todo signo foi criado e se foi criado pode ser recriado. Reestruturado. Destruído. Incorporado, deixado de lado. Na verdade não quero o signo, quero o encontro com a coisa. O que ela tem a me dizer? Ultrapasso o tempo cronológico, dilato e aumento o contato: eu e coisa – coisa e coisa – em contato que cria o mundo – transforma o desmundo em algo possível.

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Busco o afeto no encontro e a formulação, neste encontro, de corpos outros – meu corpo sendo espaço poroso de contato. Corpo subjétil. Corpo semente-terra – que quebram e inserem uma nova realidade momentânea, efêmera, mas que se estende em algum lugar da dobra tempo-virtual. Busco a fricção e o questionamento. O devir talvez. As aproximações deleuzianas.

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Quero, com a performance, mostrar a mim que a linha limita uma nuance. Existe a linha dentro da linha e o círculo que pode ser linha também. A crueldade de Artaud.

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É a formação de presença. De questionamentos. Usufruir a potência do Ser. Ser de fato, um Ser. Verdade e mostra e regressão!

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Com a performance eu busco uma potência do que eu posso vir a ser naquele instante, em mim e no outro. Desestruturar Meu Corpo e chegar próximo ao CsO. Andar com os olhos, cheirar com o estômago. Criar-merecriando-ação-corpo-palavra-semsentido.

***

No fim, quero o fluxo. Se alguém perguntar: isso é arte? Isso faz sentido? Se alguém afirmar, nada entendi. Tudo bem, acessei algo. Desloquei algo. Sigo.

***

mas não leve a sério nada disso. são palavras frágeis e frases sem sentido… foi isso que ouvi no fim. 

a confiança

a confiança é uma coisa muito frágil. quando se quebra fica com medo de voltar a ser o que era, tenta ir com calma mas se assusta a cada sinal de falha.

Perder a confiança em alguém me entristece, me desgasta: não consigo perdoar por completo, fico num fio de nilon esticado no ar.

e não perdoar é meu maior pecado e nesse instante percebo a dimensão de Deus, deus que deve ser Deus só por perdoar. A cada dia um pouco mais, sem quebrar sua confiança.

infelizmente não sou deus e desaprendo muitas coisas quando a confiança é quebrada. levo tempo pra voltar e geralmente nunca volto igual, quando volto fico na penumbra.

o sol volta a nascer e a brilhar, mas eu evito olhá-lo ao lado de quem um dia o tirou de mim.

é como descobrir um segredo: a outra pessoa é capaz. E isso é um espanto, espanto de alma que descobre ser vulnerável na capacidade do outro.

sem a confiança a alma fica presa, fica com medo de se doar. demora pra conseguir olhar com os mesmos olhos doces.

mas vou seguindo e reconstruindo. com o medo que persegue cada passo, mas um dia vai embora. e eu seguirei refeito.

falando em flores,eu já te disse que você combina com as rosas?

olá,

hoje eu fugi do papel. mas preciso te escrever. preciso dar-te o que é teu por direito. eu disse que aquela seria a última carta e bem, ela foi. isso que escrevo direciono ao mundo. preciso começar dizendo que sinto sua falta. desde aquele dia frio de julho em que te vi mais homem, mais longe, mais só… e eu me arrependo muito de não ter feito algo. algo antes, algo enquanto éramos um fragmento do outro.

essa semana algo me invadiu e eu não sei como conviver com isso. é um nó no estômago, uma vontade de gritar palavras que me fogem, palavras que eu desconheço, eu quero gritar o adeus. mas ainda temos um laço, um cordão umbilical. mas eu quero terreno novo, esse já está desgastado, só me traz dores de parto, quero logo a coisa viva em meus braços.

nesse momento eu me lembro de um domingo de junho, você e eu dentro do carro, eu me sentia tão bem, o sol batia pela janela e tudo parecia conectado. eu pensava em um nós. tocava uma música serena. doce igual teu beijo. e eu devia ter mandado você parar em qualquer acostamento e te pedido pra descer e dançar comigo. e no fim da dança fazer o pedido que une pessoas. você aceitaria?

ontem sonhei com você. sonhei que íamos ao bar. você estava estressado. eu levava flores, chocolates e um par de alianças. te chamava pelo nome e sobrenome, pedia para que você ficasse de pé, me ajoelhava e fazia o pedido. e prometia: tentaria te fazer o homem mais feliz que existe nesse mundo.

mas eu acordei.

eu sei que vai passar. e foi eterno enquanto durou. amanhã é um novo dia e nossos caminhos seguirão nos levando a novos lugares. e você encontrará um outro alguém e eu encontrarei um outro alguém. e quem sabe daqui dez anos, quando você tiver quase quarenta e eu beirando a casa dos trinta, nós olhemos para o nada numa tarde de domingo e perguntemos ao vento “por onde andará aquele?”

eu não sei.

quero poder te dizer que eu realmente amei. amei muito e bonito e doce. e foi amor porque não houve dor, até agora. acho que agora virou paixão. ou faca de uma ponta só. parece uma cena de Closer. aquela em que a Natalie Portman diz “I don’t love you anymore”. ah, boa era digital que me permite deixar aqui a cena https://www.youtube.com/watch?v=jBZOc1Ddy8w

mas não fique triste. o que sinto não é dor, de fato. é só um pouco de realidade que respiro. a gente não tá pronto pra dizer adeus. pros términos. mas passa. logo se passa e logo se renasce.

amanhã já serei flor nascida e forte.

falando em flores,eu já te disse que você combina com as rosas?

adeus, enquanto ainda consigo andar com as minhas próprias pernas.

Experiência em sala de aula #1

“Se recebo dor, se devolvo amor… E quanto mais dor recebo mais percebo que sou indestrutível.” – Pabllo Vittar – Indestrutível

Éramos três. Uma turma de metodologia do ensino do teatro. Um plano de aula para adolescentes de ensino médio. Trinta minutos.

O papel da turma era ser, nesse instante, a dita turma de ensino médio. Alunos de Artes cênicas interpretando uma turma de ensino médio para que um trio aplicasse um plano de aula. E nesse contexto eu me senti incapaz.

Começamos com um exercício de apresentação, que não funcionou como pretendíamos. Como lidar com o imprevisto? (seria a sala de aula o local da performance?)

Aquilo me abalou e eu não soube como prosseguir. Os alunos agiam como alunos e aquilo fez, para mim, uma ponte gritante entre presente e passado. Aquela turma era a mesma turma que, por vezes, tive que estar inserido enquanto aluno. No entanto algo gritava, durante o exercício, dentro de mim: eu não era assim. E, então, a primeira ficha caiu: eu não sou o outro. Meu papel ali não era ser o outro, mas ouvir o outro, entender essa persona outra, conseguir trazê-la, dentro das suas limitações, para a proposta. Falhei.

Em meio as risadas, aos deboches, as inseguranças mútuas, eu me vi caindo da corda. Agradeço, hoje, as minhas colegas de trio. Elas tiveram a força que eu não consegui ter, tomaram em mãos grossas a situação. Já eu comi pelas beiradas.

No momento seguinte eu deveria aplicar um exercício. Já desestabilizado, sem atenção dos alunos, sem a abertura destes para o novo, eu não sabia como fazer. Logo eu, que pensei entender as falas de Viola, de Desgranges, de Boal, de Brecht, de tantos outros… Bem ali eu vi: a teoria e a prática nem sempre andam juntas. E eu não tinha a prática… A prática é navalha que corta, te tira de si para se doar a um outro fechado ao por vir. Eu era um nada naquele instante.

E naquele momento de tentar explicar o exercício, eu, já cansado, me vi calando a voz de outro. Calar a voz. No instante eu vi: manter um discurso na vida prática não é fácil. Calei, logo eu, que defendo a fala do desconhecido, a voz ouvida do que quase não é ouvido…

Desisti.

Depois disso, eu me fiz instante de fora. Observei. Abandonei o barco, eu não tinha mais forças. E com isso diversas vozes vinham até mim: “numa sala de aula real você também abandonaria?” “é assim que você se faz professor?” “você é realmente capaz?”

Eu me senti a pessoa mais incapaz.

Durante esse processo alguns alunos saíram da prática, me senti na obrigação de perguntar se tudo estava bem, e ouvir um “sim, só não quero fazer a aula” foi mais um apunhalar.

Incapaz mais uma vez.

Quando o trabalho acabou, nos sentamos em roda e agora, todos novamente estudantes de Artes Cênicas, pudemos falar. E eu prometi a mim mesmo: eu não vou desmanchar agora. Impossível. Se manter íntegro após ver que você está mais longe do que pensou do ideal criado é impossível.

Ouvindo a fala de meus colegas e, em seguida, ouvindo minha própria fala, eu não consegui, mais uma vez, e me permiti o mar de lágrimas que gritavam para sair. E chorei como uma criança desmamada, uma criança sem um doce, uma nação sem um sonho. Um torcedor vendo o fracasso do seu time do coração.

Mas em menos de dez minutos eu precisava me estabilizar. A aula acabaria e no próximo período começaria outra aula, na qual sou monitor. Eu precisava estar íntegro, mostrar que vale a pena estar ali, tentar ser conforto para indivíduos aos quais eu não sabia como havia sido o dia. Eu precisava sorrir. Espantar os fantasmas. E então eu, ainda em lágrimas, fui ao banheiro e em meio aquela má iluminação joguei água em meu rosto, olhei aqueles olhos inchados no banheiro e disse para mim mesmo, de eu, para eu mesmo: tudo vai dar certo. A próxima aula vai ser melhor. E assim voltei.

Arrumei a sala, apaguei o quadro e quando o primeiro aluno entrou, sorri. Perguntei se tudo estava bem e vi: realmente será diferente. 

Engraçado que um dos alunos me perguntou se tudo estava bem, o que havia acontecido, já que eu estava com cara de choro. Disse calmamente, contendo novamente as lágrimas: tudo está bem, tudo vai ficar bem, obrigado. E recebi um abraço. O afeto que afeta, que salva.

Depois desse dia cheguei a conclusão: ser professor é difícil e eu não estou preparado. Entretanto desistir não está em nenhuma das opções. Eu tentarei, dia a dia, ser melhor. A cada tropeço, a cada dor, respirarei fundo e perceberei: isso me faz mais forte, me permite me recriar. Ser do começo. Ser de novo.

Ainda vale a pena. Construir o afeto vale a pena.

Eu não sei como terminar isso, pois sinto que em mim essa experiência ainda não acabou (e talvez nunca acabe).

Eu só precisava falar sobre isso. E perceber que, sim, eu posso ser um bom professor. Mesmo caindo. Mesmo errando. Mesmo saindo da corda bamba às vezes. Talvez seja exatamente isso, lavar o rosto olhar pra frente e (tentar) fazer, na próxima aula, o melhor do melhor de mim, novamente.