POTLACH OU O PODER DE PERDER: UMA ANÁLISE DO PROCESSO ENSAIO À CLARICE

POTLACH OU O PODER DE PERDER: UMA ANÁLISE DO PROCESSO ENSAIO À CLARICE[1]

Igor Passos[2]

Tenho um amigo, chamado Job, que é garimpeiro. Há 25 anos, ele procura diamantes, pedras preciosas, riquezas, mas nada encontra. Outro dia conversando sobre nossas semelhanças, me lembrei de um relato do antropólogo Marcel Mauss a respeito de uma festa dos ameríndios que se chamava Potlach. A melhor tradução figurada para essa palavra ameríndia é “o poder de perder”. No Potlach os ameríndios exibiam suas riquezas, joias, troféus, e depois punham fogo em tudo, simplesmente destruíam. Para eles, quanto mais você destruísse riquezas, mais poder você detinha. Faziam o contrario de nossos ricos de hoje, que compram sem parar, mas não gastam o que compram. Você já imaginou Antônio Ermírio comprando uma mansão só para incendiá-la? (HILST, H. 2013, p.157)

 

  1. Das motivações, das escolhas, do terreno fecundado

Na primeira vez que me matriculei em Direção Teatral 1 – 1º semestre de 2018 – não sabia ao certo o que faria. Dentro de mim havia uma vontade antiga de trabalhar com os escritos de Clarice Lispector e Hilda Hilst, tecer uma teia com os temas centrais destas. Durante o tempo em que estive na disciplina, esbocei um projeto que se denominava A descoberta do mundo, mas acabei, duas ou três semanas após retirando a matéria para, no lugar, fazer Interpretação 4. A meu ver, uma escolha sábia para o momento a qual vivia.

Na trajetória em Interpretação 4, desenvolvi uma ação denominada Me ajude a chegar e no caminho conte uma história. O programa performativo se consistia em:

  • Escolher um espaço público com o qual se tenha um laço afetivo;
  • Ao chegar no local, vendar os olhos;
  • Segurar um cartaz com os dizeres da ação;
  • Esperar até que alguém aceite o convite e me leve consigo para contar uma história.

Vários desconhecidos aceitaram, escutei várias histórias, movimentei meu imaginário em diversas direções. A ação me despertou interesse por histórias (e estórias) e como relatos vão se fundindo, vão produzindo outros relatos, ficções de mim, do outro, dos mundos. Ao fim do semestre comecei a pensar e planejar minimamente quais caminhos eu gostaria de percorrer e pesquisar em Direção. Estou no final do curso e venho, há cerca de um ano e meio pesquisando performance e teatro performativo, logo, me pareceu muito interessante trabalhar nestas perspectivas, já que em meu TCC pretendo pesquisar performance nos espaços escolares. Logo, todas as linhas que foram tecidas anteriormente se encontraram: vi que era possível trabalhar com Clarice ou Hilda em uma perspectiva performativa. A ação que desenvolvi em Interpretação 4 também foi de suma importância para que Ensaio à Clarice se tornasse possível.

Decidi, portanto, iniciar um processo colaborativo em que trechos de obras da Clarice Lispector (trabalhamos com A hora da Estrela, Água viva e a crônica Mineirinho) seriam o motor de experimentação, a partir, também, dos questionamentos “como o texto causa desassossegos?” e “como posso corporificar as marcas ativadas pelo texto?”. Portanto, o trabalho seria composto por: Leitura de textos da Clarice. Busca por memórias que o texto evocava. Improvisos a partir do material levantado e produção de um roteiro-base.

Escolher jogar e brincar a partir de Clarice foi de suma importância para minha trajetória artística. Lembro-me com frescor da primeira vez que tive um livro da autora em minhas mãos: foi por acaso. Eu, rato cego de biblioteca que era, fuçando as prateleiras das estantes do acervo da escola, encontro um livro de capa verde água. O título me chama a atenção: aprendendo a viver. Aos doze anos aquilo me causou um espanto. Existia maneira de aprender a viver ou era simplesmente ir vivendo? Comecei a folear e me deparei com uma crônica de uma menina que, ao conseguir, depois de muito esforço ter em suas mãos o livro Reinações de Narizinho, descobre um lado secreto do mundo. “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante” (LISPECTOR, 2016, p.396). Ou então a dor que foi, depois de ler e reler algumas vezes o conto Se eu fosse eu, entender minimamente a complexidade que é existir. Clarice foi a mulher que me acompanhou em boa parte de minha trajetória. Que me fez ser mais eu. Entender que o mundo e as gentes e a vida delira e se refaz diariamente, que tudo é um fluxo, que tudo é passagem, que tudo é composição e decomposição: foi lendo Clarice que o véu me foi retirado, entendi: nascemos e morremos centenas de vezes.

Entretanto, ao longo dos encontros a relação com o texto clariciano se dava de formas distintas, já que as frentes de envolvimento com a obra da autora eram várias. Nenhum dos quatro atores que trabalharam comigo haviam lido Clarice, então tudo para eles era muito novo. O que foi de suma importância para a pluralidade das leituras do trabalho. Cada um se relacionou de uma forma diferente com os trechos trabalhados, em cada um os fragmentos falaram de uma maneira. Os entendimentos foram para além do que eu imaginei. O estranhamento com o novo possibilitou uma diversidade maior de respostas ao jogo, de relações com os textos.

Durante o processo, escutar promoveu a possibilidade de diálogo entre o grupo. Para além: escutar e permitir que o outro também ouvisse gerou um espaço propício à experiência

[…] a abertura que a experiência dá é a abertura do possível, mas também do impossível, do surpreendente, do que não pode ser. Por isso a experiência sempre supõe uma aposta pelo que não se sabe, pelo que não se pode, pelo que não se quer. A experiência é um talvez. Ou o que é o mesmo, a experiência é livre, é o lugar da liberdade. (LARROSA, J. 2011, p. 19)

Ou seja, percebo que ouvir os atores – para além da escuta com os ouvidos, mas ouvir os gestos, ouvir os improvisos, ouvir os detalhes –  possibilitou ao coletivo um estado de abertura ao mundo, de abertura ao outro, de abertura aos, até então, impossíveis de nós mesmos: no instante em que ouço, me sou, mas não me restrinjo a mim. O que vem do outro me atravessa, me contamina. Não se busca uma resposta de imediato, mas deixo que aconteça em mim a potência do que o outro diz. Escuto. Reverbero. Atravesso barreiras. Alargo o meu mundo possível.

  1. Do parto ou de como par(t)ir no meio do caminho

Tudo, para existir, precisa nascer. E nada nasce do acaso. As gestações na produção de uma obra são inúmeras. Inúmeras e singulares. Dirigir perpassa o feminino: o feminino que luta, o feminino que gera vida, o feminino que carrega, o feminino que cuida, mas que também educa. Para que acontecesse o processo de direção foi preciso um devir-mulher[3].

Pensar em um processo de direção foi pensar em um filho que poderia crescer em meu ventre. Houve toda uma transformação na forma de lidar com o fazer teatral, com o meu posicionamento no mundo, com o cuidado que tenho para com as coisas – existo, mas para além de existir coexisto: nos atores, no cenário, no figurino, na dramaturgia e eles coexistem em mim. Geramos um vínculo que nos uniu como que por um cordão umbilical. É preciso lembrar (na verdade, nunca poderíamos ter esquecido, essencialmente disso) que esse é um trabalho estético. Uma aisthesis, logo, segundo Maria Beatriz de Medeiros, “um estar aberto ao mundo, aberto ao sensível do/no mundo e deixar-se contaminar” (2005, p.13).

E nesse caminho, é preciso par(t)ir muitas vezes. Pare-se e parte-se. Parir e partir. Abandonar, acolher. O papel de diretor é atravessado por Medeias tantas, por Noras tantas, assim como por diversas Mães Coragem. O papel de direção é uma grande solidão povoada por diversas vozes.

Uma visão feminina e também uma visão matriarcal do processo se fez necessária. Segundo Leonardo Boff (2002, p.54) no matriarcado, “a natureza não é vista como um meio a ser conquistado, mas como uma totalidade da qual cada ser humano é parte e parcela e com a qual deve viver em harmonia, no respeito e na veneração.” Em contra partida, a respeito do patriarcado afirma:

O patriarcado não pode ser entendido apenas como dominação binária macho-fêmea, mas como uma complexa estrutura política piramidal de dominação e hierarquização, estrutura estratificada por gênero, raça, classe, religião e outras formas de dominação de uma parte sobre a outra. (BOFF, L. 2002, p.55)

Logo, ao pensar a direção, reformulo a maneira de entender a produção artística. A relação e os frutos desta se tornam mais relevantes que o resultado. O resultado é uma consequência e não a finalidade. Aqui cabe mais um adendo: o resultado enquanto consequência também foge a um tempo Cronos. Pelo contrário: o tempo se faz Aion, criança que brinca. Se faz presença e não sentido. Os frutos vão surgindo não por demanda, mas por acidentes – acidentes bonitos, momentos preciosos que são captados no acaso[4]. E nessa criança que brinca, ainda em paralelo com o matriarcado, nós que participamos do processo, tecemos uma relação horizontal, em que todos são parte importante e essencial para o processo. Não corpos a serem conquistados para que se chegue em um resultado, em um produto final delimitado. Mas sim, corpos que desabrocham e, neste devir-mulher, parem tantos corpos outros – possibilidades de existências e criações.

            Ao lidar com o processo nessa perspectiva matriarcal, processual, nos abrimos para a criação. Fazemo-nos criação. Tornamo-nos propícios à experiência. Parimos partes de nós mesmos que se manifestam de maneiras outras: devimos mundos.

  1. Onde cabe o fracasso?

Um ponto de partida: busca-se o produto (se valorado, melhor), mas o processo, onde cabe? O processo numa lógica capitalista-patriarcal é podado. Num movimento (colonialista) tenta-se enquadrar e forçar os caminhos em uma forma-discurso que nem sempre emerge, mas institui-se. Veja: prazos e valores são impostos, são cobradas finalidades, linhas retas de início, meio e fim. Preocupa-se mais com o término, já que o produto é, a partir dessa lógica, o modo de se comprovar sucesso. Mesmo que nada mude, nada altere e nada se reflita. O processo precisa ser for(ç)jado para o sucesso. O fracasso deve ser excluído.

Onde cabe o fracasso? O deslizar? O contaminar-se e, por contaminação, desviar da linha reta e produzir linhas de fuga? No sucesso nem sempre há espaço para a diferença, para a aparente falha, para o questionamento. Pois no sucesso as bordas já estão decalcadas – passo a passo, inteligível caminho já testado. E tudo vai se tornando superfície, horas contadas, passos pré-estabelecidos. No produto final do sucesso não há espaço para o lançar-se ao mar: tudo já começa com o finito movimento do fim, tudo só é quando falsamente está pronto.

Nesse movimento dos resultados como prioridade, não há espaço para o desassossego: desassossegar o roteiro é fracasso, deixar as fissuras abrirem, permitir espaços propícios a encontros, é perda de tempo, perda de produção, logo, perda de lucro, de notas, de aprovações…

O que é ser bem-sucedido na matéria de direção? Desde meu ingresso na universidade, há três anos atrás, essa é uma matéria cobiçada, como um pódio. Pensar nessa lógica do resultado como sucesso, demonstra o como temos trabalhado e produzido em um modo capitalista de conexões. Se desde o início do processo me conecto apenas com o resultado, acabo por violentar o processo para que ele caiba em um molde que acredito almejar: Crio evento no facebook. Convido pessoas para a “estreia”, torço pelos aplausos. Os acasos causados pelo caminho são excluídos. Não posso errar. Preciso controlar o tempo, controlar as peças e não jogar com. A – falsa e inexistente – perfeição é o lugar de desejo. O desistir, o fim, o aborto, são mal vistos. Isso tem ligação a uma lógica falogocentrista. E gera-se um questionamento, enquanto artistas estamos dispostos a estar abertos ao outro ou simplesmente pensamos no nosso resultado final? Nesse sentido, onde está o fracasso?:

A afirmação falogocentrista enaltece a figura masculina, a única capaz de ração na sociedade ocidental. Ela tem nos levado, atualmente, ao capitalismo exacerbado, ao caos, ao terror. No início era a estética, e nessa estética está compreendido um reconhecer o outro como ser responsável, como um igual, logo, como nós […] parte do nós e o nós ele-mesmo, sem o qual o eu não existe. Estar aberto ao mundo sensível significa não só buscar uma compreensão via falatório hipócrita, mas, sobretudo, via compreensão do universo do outro com um colocar-se no lugar, no tempo e nas crenças do outro. (MEDEIROS, Maria, B. 2005, p.14)

E quando tentamos fugir desse sistema, fracassamos. Refleti muito sobre isso e por conta desses questionamentos que me atravessaram decidi não apresentar no cometa cenas. Apresentar sem antes entender o que é de fato ser diretor ou o que é um processo artístico para mim seria uma forma de cessar a vibratilidade do meu corpo. Seria ganhar uma menção e seguir, sendo que existiam questões que me inquietavam. Deveríamos, enquanto artistas e acadêmicos (e alguns, professores) movimentar o pensamento, fazer delirar o verbo. Buscar o porquê fazemos e por quais motivos e caminhos fazemos.

 Após o processo, um grande questionamento me tomou: o que faz de alguém um bom diretor? Um dos meus atores sempre entrava em cena com uma grande tensão. Era clara sua necessidade de agradar e sua racionalização constante do que fazia. Fui notando que para camuflar sua insegurança e racionalização em uma determinada cena, ele andava, desfilava, de uma lado para o outro. E além de se apoiar nessa ação, não havia expressão alguma em seu rosto. Certo dia pedi para que ele fizesse a cena parado. E então, o verbo se fez carne: uma energia contaminou a cena e do rosto dele saíram expressões magníficas. Ao fim do ensaio, a colega de cena, que também é sua colega de classe, veio até mim e disse que algo muito incrível havia acontecido, pois nem nas aulas ele conseguia expressar-se da forma como ele se expressou nesse dia. Outra atriz, assim que anunciei que abarcaríamos o processo, veio me agradecer dizendo que durante os ensaios ela conseguira encontrar lugares enquanto atriz que nunca pensou ser possível. Pequenas pistas que me possibilitam pensar respostas possíveis para o questionamento[5].

  • A direção como forma de tecido:

Dirigir exige paciência, exige cuidado, exige um olhar delicado para com o que vai se formando. O diretor é como um tecelão, vai tecendo fio a fio, vai formando redes. Tece-se aos poucos núcleos, potências que nascem a partir de uma trajetória – já que não nos deslocamos de nós, usando de Hilda Hilst, “Tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti” (2001, p.132) – e que na linguagem artística ganha outras proporções, atravessa o vivido e produz o possível de. O processo de direção se aproxima, portanto, da escrita:

Decerto que escrever não é impor uma forma (de expressão) a uma matéria, a do vivido. A literatura tem que ver, em contrapartida, com o informe, com o inacabado […]. Escrever é uma questão de devir, sempre inacabado, sempre a fazer-se, que extravasa toda a matéria vivível ou vivida. É um processo, quer dizer, uma passagem de Vida que atravessa o vivível e o vivido. (DELEUZE, G. 1993, p. 11)

Dirigir é permitir que o verbo se torne carne, é engendrar um espaço de devir. Quando entramos na sala para ensaiar, nunca sabemos ao certo o que sairá de lá. Vamos brincando com o que temos, vamos nos abrindo ao espaço que se cria. O que vai se formando do jogo pode ser aceito ou não. O que é aceito vai formando um tecido, tecido este que vai in-formando e compondo o que possa vir a ser a obra. Vamos formando-nos. Vamos nos criando em cena. Criando um novo corpo que já não é só meu, mas sim, um grande emaranhado de nós.

Um salto narrativo: Quando apresentei o roteiro base à professora Leo muito me impressionou sua reação ao lê-lo. Ao término da leitura, ela me afirma que “não via nada de Clarice, mas sim Hamlet e teatro do absurdo”. Tal colocação me instigou bastante. Para mim o texto tinha tudo a ver com Clarice. Esperava que as pessoas não reconhecem, mas não esperava que tal comparação fosse possível. Entretanto, a instigação não foi negativa, se uma leitura tão diferente do texto havia surgido, isso significava uma abertura do texto, uma possibilidade múltipla de interpretações. Segundo Anne Bogart

Não é difícil provocar a mesma emoção em todo mundo. O difícil é provocar associações complexas de forma que todos tenham uma experiência diferente. Em seu livro seminal A obra aberta, Umberto Eco analisa a diferença entre a obra fechada e a obra aberta. No texto fechado, existe uma única interpretação possível. Na obra aberta, pode haver muitas. No teatro, podemos criar momentos em que todos da plateia tenham experiência similar ou momentos que provocam diferentes associações em cada um dos espectadores. O que pretendemos: impressionar o público ou enchê-lo de força de maneira criativa? (2011, p.111)

Portanto, o tecido criado enquanto dramaturgia, fugia de um núcleo individual, deixando claro que todas as perspectivas diferentes que se misturaram durante o processo, geraram um texto dramatúrgico que não se sustenta em um único olhar ou em uma única leitura: quando em contato com o outro, devém sentidos. É próprio em si e único em seu encontro com o outro. Um tecido que não possui utilidade determinada. Na realidade, não possui nenhuma utilidade. Deixa-se levar pelo vento e, se por sorte do acaso, encontra com algo que o impeça de continuar a viagem, molda-se de maneira singular para depois seguir.

  1. (Des)conclusões: processo em estado de flutuação.

Ao decidir não apresentar no cometa cenas, um sentimento de fracasso me invadiu. A dúvida sobre o que é a obra em teatro me tomou. Foi preciso desistir para poder me encontrar. Uma decisão ética.

A matéria de direção abriu fissuras em mim, ativou a vibratilidade de meu corpo. Colocou-me em estado de inquietação. Hoje percebo que não basta simplesmente passar na matéria, é preciso entender o que ela significa para mim, como ela atravessa minha prática enquanto artista, enquanto pesquisador e enquanto professor. Será que a única coisa que basta é a apresentação final? O que vale o processo? Como tudo isso me movimenta no sentido de esclarecer qual local estou forjando?

Entretanto, vale ressaltar que não vejo o fracasso hoje como algo ruim. O fracasso se mostrou a potência de re-existir, é o descascar da cebola, o desvelar camadas. Para mim, desistir e aos olhos dos outros fracassar foi a possibilidade do Potlach, queimar as riquezas. Fazer pó do que seria ouro. E daí prosperar mais. O poder de perder. Percebo o quanto pude crescer ao me deparar e me permitir parar para refletir sobre todas as coisas que minimamente tentei trazer para a discussão deste ensaio. Hoje eu entendo a importância do processo para mim e o quanto é importante uma visão humanitária para com o outro dentro dessa relação que se cria, dessa rede que se tece.

Entendo, ainda, que a perspectiva na qual me apoio pode inviabilizar uma série de questões, como a mercadológica por exemplo, mas ao mesmo tempo, afirma o que eu entendo por arte.

Após a matéria, percebo que a arte não cabe dentro de uma perspectiva capitalista, ou patriarcal ou colonizadora. Ela opera e se faz em outra lógica, em um outro tempo. Quando se tenta capturá-la, ela escorre pelos pequenos vasos sanguíneos que estouram. É possível viver de arte quando para viver eu preciso ser produtivo e preciso valorar meu produto? Quanto vale a arte? Entendo hoje o que para mim é a subjetividade da criação artística.

O processo também me fez refletir sobre a prática docente. A professora Leo, em um encontro para orientação do trabalho, afirmou que dirigir é muito próximo de lecionar. Discordo da afirmativa. São modos de operar muito distintos. Entretanto, há algo que realmente os aproxima: o ato de ouvir. Fui percebendo ao longo dos ensaios que quanto mais eu ouvia e quanto mais atento eu estava, mais profundo conseguia adentrar e perceber o que se formava. Assim como em sala de aula: quando crio o espaço da troca, da escuta e da atenção, caminhos muitos vão se revelando. Talvez o diretor carregue em si um devir-educador (e o educador, um devir-diretor).

Digito agora com a certeza de que fiz uma boa escolha. A universidade para mim não é só um espaço, é um atravessamento, é uma mina de possíveis encontros. É a possibilidade fértil para a experiência. Ou seja, enquanto estou ali, me forjo e a maneira como lido com as disciplinas revela muito da maneira como lido com o mundo, com o outro. Teço a cada matéria um território, um corpo e componho uma terra. Se me alieno desse processo, me alieno da formação, da invenção, apenas repito, apenas sigo um fluxo. E isso não quero. Quero o verbo delirado. Quero a heresia de pensar, de questionar. Quero o poder de fracassar por me permitir forjar espaços meus.

E agora sei: a matéria de direção se revelou um belo encontro de amor. Dirigir associa-se à essa força-amor, a esse afeto alegre. E, assim sendo, quero uma bela trajetória. Acredito que agora estou pronto para reiniciar sem me trair, sem me podar. Continuo.

[1] Indica-se que seja lido ao som de Elis Regina
[2] Igor Passos é graduando em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília
[3] De acordo com Deleuze, devir não é atingir uma forma (identificação, imitação, mímeses), mas é encontrar a zona de vizinhança, de indiscernibilidade ou de indiferenciação, de maneira que já não podemos nos distinguir de uma mulher, de um animal ou de uma molécula. (1993, p.11)
[4] Para exemplificar: em um dos ensaios, pedi aos atores/às atrizes que levassem um objeto de infância com o qual tivessem uma relação afetiva. Como exercício, pedi para que, simplesmente, brincassem. Desse brincar sem se preocupar com o significado ou sentido, uma cena de duas crianças que dialogavam sobre a vida, a morte e a reencarnação surgiu. Outro momento: durante um aquecimento, surgiu imagens que se tornaram os personagens Andróginos Dragnianos. Uma cena em que o ator conta uma história de amor também surgiu desses momentos de acaso.
[5] Respostas possíveis: ser um bom diretor é saber ouvir. /Ser um bom diretor é dar liberdade e saber que com ela também dou responsabilidades. / Ser um bom diretor é não atropelar quem trabalha comigo. É deixar-me contaminar pelo estado que se cria e ir compondo junto. / Ser um bom diretor é nunca assentar-se em falsas seguranças. É nunca se conformar: quanto mais inquietações, mais possibilidades de ser e criar.
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O espetáculo nós e as diversas relações e discursos do eu

PONTO INICIAL: O texto acontece sem muitas conexões. Foi constituído a partir de notas. Notas sobre pontos, sobre percepções. Bom apetite.

Chego ao teatro, me sento. Respiro fundo, como de costume. Começo a observar o cenário, a iluminação. Aos poucos vou me acomodando enquanto espectador, deixando adormecer minha profissão, meus conceitos, meus achismos enquanto ator, professor-performer, acadêmico. Estou ali para receber.

A plateia, como em um roteiro ensaiado à finco, faz silêncio sem nenhum sinal.

Comendo a mesma comida

Bebendo a mesma bebida

Respirando o mesmo ar

Estamos todos ali. Respirando o mesmo ar. Como num parar do tempo, tudo se suspende. A luz baixa e o eco da voz me colocam neste lugar: lugar de suspensão. O primeiro estranhamento que deixo adormecido, pois sei que este não é o momento de buscar uma logicidade no que estou vendo.

É interessante acompanhar os lugares em que o Galpão se coloca em Nós. A repetição, a alteração de ritmos, os estados e atitude em crescente nos deslocam ao caos. Talvez o caos cotidiano. O caos formado pela estagnação. O caos formado pelo discurso vazio do ser, pelo verbo sem ação. Pela fala construída nas próprias vivências, no rodear ao umbigo e a incapacidade de diálogo com o outro. Pela repetição do velho atualizado no presente. O caos que leva ao caos não o objeto do discurso, mas o próprio objeto falante. Nós entramos em caos. A cada dia mais caminhamos em círculos em diversas maneiras sem, de fato, agir em prol de. Discursos e discursos e discursos. A repetição que gera uma singularidade, pois se dá no presente agora, mas que carrega em seu fundo uma estagnação. Um ser que falha seu sistema. A pane dos discursos. Eis a primeira fissura.

Do que vocês estão falando, gente?

A delicadeza e sutileza com que os atores permeiam entre o drama e o cômico surpreende. É como uma onda que quebra no mar, não há prefácio, mas sabe-se que em algum momento vai quebrar. E atinge em cheio. Quebra o riso, faz doer a ferida. E logo em seguida, o riso se estabelece novamente. Ora, estamos em um, mais uma vez, caos. Mas no meio do caos existem máscaras, o sorriso é precioso. Fala-se da realidade dos dois lados. De dentro do furacão e de suas bordas. Claramente as bordas fazem mais cócegas que o olho do furacão.

E o riso se dá por aproximação. São pessoas como a gente. É possível se ver nas figuras – figuras essas que permeiam devires-outros. Permeiam-se e permeiam o desconhecido.

Falando em um devir-outro, vale citar em específico uma cena. Antecede a cena um número quase, se não de, desbunde. Alegria, performatividade carnavalesca, o libertar-se.

Se quiser fumar eu fumo,

Se quiser beber eu bebo

Não interessa a ninguém.

De repente, um barulho forte. Tiro? Bomba? Ataque? Eis que entra um homem alegando ser apenas um corpo morto. Um corpo que já não habita mais as instituições, que não se habita mais. E, em meio ao discurso, a aproximação. Coloca à tona questões de guerra, questões de ataques. Enquanto espectador, sou deslocado ao local do outro. e volto ao parágrafo do caos. Identifico em mim o caos. O discurso vazio. O corpo dócil. O corpo morto que não se habita mais enquanto outros corpos, em realidade e não em metáfora, morrem. Enquanto vidas se perdem de todas as formas possíveis.

Na mesma cena, uma mulher entra.

Um manifesto pela liberdade do meu corpo

E, nua, assim como o homem que morto que já não se habita mais, fala-vive-acontece um texto sobre o nosso presente. E faz vir-a-ser diversas coisas. As coisas interligadas, o efeito dominó da vida. A morte diária, as perdas…

Em meio a tudo isso, o risco de batom vermelho. A navalha. Mais uma fissura. Um acontecimento que emerge, quase enquanto rizoma, diversas camadas que nos perpassam diariamente, e eu ali, assistindo. Sabendo que acontece, mas sem nada fazer. Mais uma vez o discurso vazio, o meu discurso vazio.

Um salto: em diversas cenas, principalmente as de conflito, um dos atores sempre porta um celular. Tira retratos. Selfies. Filma. A liquidez dos momentos, a

[esse texto foi iniciado em 2017 e nunca concluí. O publico agora pois existem coisas interessantes no não concluído. A flutuação permite um mergulho.]

 

O que pode a arte na escola? Algumas reflexões (#tcc002)

I.

A potência do corpo escorre pelas fissuras produzidas nas formas rígidas, disciplinadoras, pelas rachaduras da cidade de concreto – Sertão. Quando se faz secreção e se percorre lugares do além-limite, quando ultrapassada a linha do dito possível, o corpo se (re)territorializa em outras possibilidades de ser. Torna-se corpo nômade, máquina de guerra[1]. A secreção que escorre produz lagos e rios e mares que vão compondo e decompondo[2] os espaços, movimentam o espaço-corpo, produzem novas formas de operar o real.

Uma questão que me acompanha é: o que moveu os alunos a quererem fazer em um curto período tal trabalho? Desejo é algo que me parece justificável. E aqui não me refiro ao desejo que se encerra em algo, mas sim que transborda em si. Desejo que é potência, desejo que é fruição inacabável. Produção de si e do mundo. Desejo que, ao mover para ação, cria espaço para movimento de afetos.

Na montagem de um espetáculo, um espaço-tempo se produz. E esse espaço-tempo altera a forma de operar na instituição escolar. As relações se tornam horizontais, em vez de grupos estratificados, temos redes, temos manadas, bandos que nas inter-relações produzem conhecimentos outros. Segundo Heidegger, a filosofia surge do espanto. Aqui ouso comparar: o espanto com o desconhecido engendra diferentes formas de se lidar com o mundo, consigo, com o outro.

II.

Ao enxergar o espaço escolar a partir de outras óticas, produz-se novas escolas, ao enxergar-se como pertencente, reestabelece-se vínculos afetivos. E se o indivíduo se enxerga e se coloca como parte do espaço, o espaço modifica-se revelando a povoação de vozes que formam – in-formam, deformam, derivam – este. Assim, a carne-corpo contamina o espaço com toda sua historicidade, vivências, cicatrizes e desassossegos, a escola antes séria e vencedora, agora brinca e fracassa, perde para ganhar.

Qual o lugar do fracasso brincante na escola?

III.

A estrutura não suporta o riso, o real ficcionalizado, o domínio discursivo. Dentro das paredes – que aos poucos vão se rachando – busca-se sempre a aprovação. Deposita-se nos corpos os sonhos já exaustos de perfeição, de vitórias, de conquistas materiais. Mas o que se ganha? Qual a linha de chegada? No mesmo sentido, gera-se conflito: o corpo já não suporta a higienização, quer o imundo, a lama, quer quebrar o rígido. Almeja produzir para si um corpo sem órgão[3]. Quer balbuciar, gritar, sussurrar um novo vocabulário. E fala-se com a voz, fala-se com os membros, com o pensamento. E aqui a palavra – palavra-signo, palavra-corpo, palavra-pensamento – delira. Produz-se outros modos de dizer, de comunicar, de conta(r)minar (a si, ao outro, ao mundo). Apossa-se do discurso.

IV.

Após a apresentação ouve-se: “eles estavam em casa” e, ainda, “improvisaram muito, eles mesmos afirmaram”. Tais falas revelam o engendrar de um estado de tensão naqueles que assistem e ocupam seus lugares pré-estabelecidos (o professor, o avaliador, etc). Os profissionais esperam estórias, maquiagens do real, esperam o cronometrado, o belo discurso que alivia a vibratilidade dos corpos (ROLNIK). Estar em casa traz consigo não só a comodidade, mas a história. Habitam na casa todos os mistérios. É o lugar mais íntimo e, portanto, de difícil acesso e compreensão. “Porque a casa é o nosso canto do mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acepção do termo.” (BACHELARD. 1989, p.24). Quando os alunos se apossam de seus discursos, de seus lugares, de suas questões e as apresentam, jogam com elas, quando abrem as portas de suas casas e nos empurram para dentro, produzem feridas na grande estrutura, em nós. Ao apresentar suas vidas através das (e misturadas as) linguagens, comem sem etiqueta. Riem à mesa, falam com a boca cheia.  E a partir disso, podem locomover, podem refletir. Ao possuírem seus discursos, movimentam seus imaginários: representam e apresentam o que vivem, o que entendem e daí, podem refletir, modificar, compor e decompor. O apossamento do discurso é o primeiro passo para o movimento antropofágico. Engole-se tudo isso, mas regurgita-se o que queremos criar sobre e a partir de nós mesmos. Brasilidade pura, samba do crioulo doido. Mas a instituição colonial não aceita o grito dos Racionais Mcs. Querem o Mozart à brasileira. E isso não é de hoje. Anita Mafalti, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Hilda Hilst, Paulo Freire… Produzir a partir do Brasil gera tremores.

V.

Na escola estamos dispostos ao bem-viver ou ao viver-bem? Atualmente, a Vida importa, de fato, no que propomos enquanto educação?

[1] Conceito utilizado pelos pensadores Guilles Deleuze e Félix Guattari no quinto volume de Mil Platôs.
[2] “Cada vez que um corpo encontra outro, há relações que compõe e relações que decompõe […]. Mas a natureza combina todas as relações em um só tempo. Logo, na natureza, em geral, o que não para é que todo tempo há composições e decomposições de relações. Todo tempo, pois, finalmente, finalmente, as decomposições são como o contrário das composições. Não há nenhuma razão de privilegiar a composição de relações sobre a decomposição já que as duas vão sempre juntas.” (DELEUZE, 1981)
[3] GUATTARI, F. DELEUZE, G. Como criar para si um corpo sem órgãos. Mil Platôs, v.3

Sobre a escrita (#tcc001)

Escrever é percorrer lugares até então desconhecidos. Virtualidades que se atualizam. Tremores e rumores. Possibilidade de espantos. Entre as leituras, a reflexão e o teclar das palavras, existem tensões enormes, uma corrida no (v)entre do (in)dizível. Potência.

E é potente poder expressar de forma (quase sempre) compreensível aquilo que vai (es)correndo pelo corpo.  Mesmo que só se capturem rastros desses pensamentos, é incrível ver na tela a concretude de algo que parecia até então simples pulsão. Ou melhor: a pulsão faz surgir o possível.

E escrever vai alargando os possíveis, vai mudando os sentidos, vai alterando e produzindo outros modos de enxergar e lidar com o que se quer dizer. Escrever e reescrever é um modo de agir no mundo.

A cada palavra, uma gama de caminhos novos se abrem.

Quanto mais escrevo, mais vou adentrando naquilo que me propus. A escrita é um modo de jogar-se em um labirinto cheio de mistérios.

E a Vida, para existir, precisa de mistérios. Escrever para renovar os mistérios da vida.

Você entrou no mar hoje?

Feche os olhos e imagine o mar. O mar cheio de ondas, profundo. O mar com temperaturas, com texturas, com cores… Com vidas. Dentro desse mar não existem concretudes eternas: existem andanças. Andanças que levam à encontros, acontecimentos, acidentes, afetos. Você entra no mar. Sente a água percorrer seu corpo e eis que você se torna mar, se permite. E sendo mar, você, ainda, se é mais um pouco. Encontra outras formas de ser e existir. Você acontece mundo.

Sem pontos de chegada, sem pontos de partida. Uma grande teia de ondas e lugares e deixar-se ir. Ou melhor, permitir-se ir e saber-encontrar o modo de agir nessa imensidão de potências.

Está aí um grande desejo: fazer do mundo um mar. Entrar de peito aberto, sem medo. Silenciar para sentir.

A CAMINHADA

Gosto de caminhar, mas uma caminhada leve, uma caminhada minha. Caminhada-contato. A cada passo sinto, aos poucos, o contato com algo maior, uma conexão entre o eu e o sagrado, o natural, meu eu anterior. E as cores se misturam ao vento, eu recebo. O movimento de meu corpo se funde aos pássaros que cortam o vento que assobia uma bela melodia: dançamos como crianças. Fecho meus olhos e já não estou em mim. Estou no todo e o todo me está. Estamos um. É um grande e forte retorno que me desconecta disto, dos contornos, me floresce expansão. Me sinto, por fim, parte de algo. Algo que foge à palavras ou definições, algo que é e por ser já se justifica.

A dança da vida me mostra a cada caminhada que há sempre o que descobrir. O rio sempre será um novo rio agora, agora, agora.

[26 de janeiro de 2018]

notas-pensamentos-momentos sobre performance (um texto frágil e por vezes sem sentido)

O corpo é mais potente do que se acredita ser no dia a dia. A linguagem dos símbolos, das palavras às vezes toma esse espaço da potência – agora mesmo tiro do corpo e levo à letra uma energia de presença que, mesmo grande, não traduz onde um pulo pode chegar. E como o corpo me faz e estrutura-emerge-faz brilhar um eu-corpo, logo, sou mais potente do que acredito ser no dia a dia. Quero as dobras que escondo diariamente – as dez faces, os tantos sentidos. Quero o cheiro, o toque, a audição a audiçãotoquegestocheiro. Quero o peso-leve do chegar num lugar inalcançável – que nunca se chega, mas devém.

***

Na performance busco esse espaço. O espaço entre as coisas – ou o borrão entre as coisas, o “e” em vez de “ou”. Dentro delas. Por fora delas. Junto delas. A potência das coisas… Como diria Spinoza, a felicidade. Busco a fissura do ser e do não ser, o lugar político do corpo e o não lugar também: lugar político que emerge o desejo instantâneo – faz emergir o estranhamento. Micropolíticas surgem ou se revelam? Olhar para alguém e perceber um corpo outro. Outo mas, por ser outro, carrega algo que nos liga. No momento performance, eu busco essa desterritorialização da máquina. Territorializando-me no lugar de percepção. Percepção do mundo criado, do mundo acontecendo.

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Busco o deslocamento de sentido: todo signo foi criado e se foi criado pode ser recriado. Reestruturado. Destruído. Incorporado, deixado de lado. Na verdade não quero o signo, quero o encontro com a coisa. O que ela tem a me dizer? Ultrapasso o tempo cronológico, dilato e aumento o contato: eu e coisa – coisa e coisa – em contato que cria o mundo – transforma o desmundo em algo possível.

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Busco o afeto no encontro e a formulação, neste encontro, de corpos outros – meu corpo sendo espaço poroso de contato. Corpo subjétil. Corpo semente-terra – que quebram e inserem uma nova realidade momentânea, efêmera, mas que se estende em algum lugar da dobra tempo-virtual. Busco a fricção e o questionamento. O devir talvez. As aproximações deleuzianas.

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Quero, com a performance, mostrar a mim que a linha limita uma nuance. Existe a linha dentro da linha e o círculo que pode ser linha também. A crueldade de Artaud.

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É a formação de presença. De questionamentos. Usufruir a potência do Ser. Ser de fato, um Ser. Verdade e mostra e regressão!

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Com a performance eu busco uma potência do que eu posso vir a ser naquele instante, em mim e no outro. Desestruturar Meu Corpo e chegar próximo ao CsO. Andar com os olhos, cheirar com o estômago. Criar-merecriando-ação-corpo-palavra-semsentido.

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No fim, quero o fluxo. Se alguém perguntar: isso é arte? Isso faz sentido? Se alguém afirmar, nada entendi. Tudo bem, acessei algo. Desloquei algo. Sigo.

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mas não leve a sério nada disso. são palavras frágeis e frases sem sentido… foi isso que ouvi no fim. 

a confiança

a confiança é uma coisa muito frágil. quando se quebra fica com medo de voltar a ser o que era, tenta ir com calma mas se assusta a cada sinal de falha.

Perder a confiança em alguém me entristece, me desgasta: não consigo perdoar por completo, fico num fio de nilon esticado no ar.

e não perdoar é meu maior pecado e nesse instante percebo a dimensão de Deus, deus que deve ser Deus só por perdoar. A cada dia um pouco mais, sem quebrar sua confiança.

infelizmente não sou deus e desaprendo muitas coisas quando a confiança é quebrada. levo tempo pra voltar e geralmente nunca volto igual, quando volto fico na penumbra.

o sol volta a nascer e a brilhar, mas eu evito olhá-lo ao lado de quem um dia o tirou de mim.

é como descobrir um segredo: a outra pessoa é capaz. E isso é um espanto, espanto de alma que descobre ser vulnerável na capacidade do outro.

sem a confiança a alma fica presa, fica com medo de se doar. demora pra conseguir olhar com os mesmos olhos doces.

mas vou seguindo e reconstruindo. com o medo que persegue cada passo, mas um dia vai embora. e eu seguirei refeito.

falando em flores,eu já te disse que você combina com as rosas?

olá,

hoje eu fugi do papel. mas preciso te escrever. preciso dar-te o que é teu por direito. eu disse que aquela seria a última carta e bem, ela foi. isso que escrevo direciono ao mundo. preciso começar dizendo que sinto sua falta. desde aquele dia frio de julho em que te vi mais homem, mais longe, mais só… e eu me arrependo muito de não ter feito algo. algo antes, algo enquanto éramos um fragmento do outro.

essa semana algo me invadiu e eu não sei como conviver com isso. é um nó no estômago, uma vontade de gritar palavras que me fogem, palavras que eu desconheço, eu quero gritar o adeus. mas ainda temos um laço, um cordão umbilical. mas eu quero terreno novo, esse já está desgastado, só me traz dores de parto, quero logo a coisa viva em meus braços.

nesse momento eu me lembro de um domingo de junho, você e eu dentro do carro, eu me sentia tão bem, o sol batia pela janela e tudo parecia conectado. eu pensava em um nós. tocava uma música serena. doce igual teu beijo. e eu devia ter mandado você parar em qualquer acostamento e te pedido pra descer e dançar comigo. e no fim da dança fazer o pedido que une pessoas. você aceitaria?

ontem sonhei com você. sonhei que íamos ao bar. você estava estressado. eu levava flores, chocolates e um par de alianças. te chamava pelo nome e sobrenome, pedia para que você ficasse de pé, me ajoelhava e fazia o pedido. e prometia: tentaria te fazer o homem mais feliz que existe nesse mundo.

mas eu acordei.

eu sei que vai passar. e foi eterno enquanto durou. amanhã é um novo dia e nossos caminhos seguirão nos levando a novos lugares. e você encontrará um outro alguém e eu encontrarei um outro alguém. e quem sabe daqui dez anos, quando você tiver quase quarenta e eu beirando a casa dos trinta, nós olhemos para o nada numa tarde de domingo e perguntemos ao vento “por onde andará aquele?”

eu não sei.

quero poder te dizer que eu realmente amei. amei muito e bonito e doce. e foi amor porque não houve dor, até agora. acho que agora virou paixão. ou faca de uma ponta só. parece uma cena de Closer. aquela em que a Natalie Portman diz “I don’t love you anymore”. ah, boa era digital que me permite deixar aqui a cena https://www.youtube.com/watch?v=jBZOc1Ddy8w

mas não fique triste. o que sinto não é dor, de fato. é só um pouco de realidade que respiro. a gente não tá pronto pra dizer adeus. pros términos. mas passa. logo se passa e logo se renasce.

amanhã já serei flor nascida e forte.

falando em flores,eu já te disse que você combina com as rosas?

adeus, enquanto ainda consigo andar com as minhas próprias pernas.